Internacional

Indústria láctea da Argentina passa por onda de fusões e aquisições que transforma o setor

A indústria láctea da Argentina vive um dos períodos mais intensos de reestruturação das últimas décadas. Impulsionado por fusões, aquisições e liquidação de ativos, o setor passa por um processo de consolidação que promete alterar o cenário competitivo, fortalecer grandes grupos empresariais e redefinir o mercado de marcas tradicionais no país e no exterior.

O movimento ocorre em um momento de crescimento da produção de leite e de expansão das exportações, fatores que têm aumentado o interesse de investidores nacionais e internacionais.

Produção de leite cresce, mas mercado fica mais concentrado

Dados da Bolsa de Comércio de Rosário (BCR) mostram que a produção leiteira argentina alcançou o maior nível dos últimos dez anos no primeiro quadrimestre de 2026. Entre janeiro e abril, foram produzidos cerca de 3,5 milhões de litros, volume 9,3% superior à média da última década.

A produtividade das propriedades rurais também avançou. A produção média diária por fazenda chegou a 3.287 litros, resultado 27% acima da média registrada nos cinco anos anteriores.

Apesar da expansão, o setor vem passando por um processo acelerado de concentração. Atualmente, fazendas que produzem mais de 10 mil litros por dia respondem por aproximadamente 30% da produção nacional, participação muito superior aos cerca de 5% observados em 2010.

Arcor e Danone assumem controle total da La Serenísima

Uma das principais movimentações do ano ocorreu em março, quando Arcor e Danone concluíram a aquisição da totalidade das ações da Mastellone Hermanos, empresa responsável pela tradicional marca La Serenísima.

A operação, realizada por meio da Bagley Argentina, garantiu às duas empresas o controle integral da líder do mercado argentino, ao incorporar a participação que ainda permanecia com a família fundadora e o fundo Dallpoint Investments.

Com a mudança societária, Arcor e Danone passam a concentrar integralmente a estratégia e a gestão da companhia.

Venda da Saputo muda liderança do setor

Outra negociação de grande impacto envolveu a canadense Saputo, que decidiu vender 80% de sua operação de laticínios na Argentina para o grupo peruano Gloria Foods.

Avaliada em aproximadamente US$ 630 milhões, a transação está entre as maiores da indústria alimentícia argentina nos últimos anos.

Mesmo deixando o controle da operação, a Saputo permanecerá com 20% da empresa, mantendo parte das atividades de exportação e da produção de determinadas marcas.

Já o grupo Gloria amplia significativamente sua presença no mercado argentino. Somando sua operação local, realizada por meio da Corlasa, aos ativos adquiridos, a empresa passa a ocupar a liderança do setor em volume de processamento de leite.

A estratégia prevê fortalecer a marca La Paulina, posicionando-a como principal plataforma de crescimento para disputar mercado com concorrentes como Mastellone e Adecoagro.

Exportações impulsionam interesse dos investidores

O bom momento das exportações de lácteos tem sido um dos principais fatores por trás da consolidação do setor.

Nos quatro primeiros meses do ano, a Argentina exportou cerca de 130 mil toneladas de produtos lácteos, maior volume desde 2012. As vendas externas somaram aproximadamente US$ 455 milhões.

O Brasil permanece como principal destino dos embarques argentinos, seguido por mercados como Argélia, Chile e China, consolidando o comércio internacional como um dos pilares da rentabilidade da indústria.

Falência da SanCor abre disputa por ativos históricos

Enquanto algumas empresas ampliam seus investimentos, outras enfrentam dificuldades financeiras.

A tradicional cooperativa SanCor, que acumula um passivo estimado em US$ 120 milhões, entrou oficialmente em processo de liquidação judicial.

A Justiça autorizou a venda dos ativos da empresa em sete lotes, avaliados em aproximadamente US$ 52,1 milhões.

Entre os interessados estão grupos como Savencia (controladora da Milkaut), Adecoagro, Elcor, La Tarantela, Punta del Agua e o empresário Gustavo Scaglione.

O principal ativo é o lote que reúne as marcas e os direitos intangíveis da SanCor, considerado estratégico pelo reconhecimento da marca junto aos consumidores.

San Ignacio também negocia venda

O movimento de consolidação pode ganhar um novo capítulo com a possível venda da Establecimientos San Ignacio, tradicional fabricante argentina fundada em 1939 e reconhecida como uma das principais exportadoras de doce de leite do país.

Segundo informações do mercado, a empresa mantém negociações avançadas com o grupo mexicano Mexicana de Industrias y Marcas (MIYM), que busca ampliar sua atuação internacional após adquirir outras empresas do segmento neste ano.

Caso a operação seja concluída, o grupo mexicano fortalecerá sua presença no mercado de derivados lácteos, especialmente nos segmentos de doce de leite e queijo azul.

Consolidação deve redesenhar a indústria argentina

As recentes operações evidenciam uma transformação estrutural no setor lácteo argentino. Enquanto empresas com dificuldades financeiras deixam espaço para novos investidores, grupos de maior porte ampliam sua escala de produção e exportação.

O cenário combina recordes de produtividade, crescimento das vendas externas e valorização de marcas tradicionais, tornando a indústria láctea da Argentina um dos mercados mais movimentados da economia do país em 2026.

FONTE: Milkpoint
TEXTO: Redação
IMAGEM: Globo Rural

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Negócios

Hapag-Lloyd anuncia compra da ZIM por US$ 4,2 bilhões e paga prêmio de 58% por ação

A gigante alemã do transporte marítimo Hapag-Lloyd confirmou a aquisição da companhia israelense ZIM Integrated Shipping Services Ltd. em uma transação avaliada em aproximadamente US$ 4,2 bilhões. O acordo prevê o pagamento de US$ 35 por ação em dinheiro, consolidando um dos maiores movimentos recentes no setor de transporte marítimo de contêineres.

Atualmente listada na Bolsa de Nova York sob o código ZIM, a empresa vinha sendo negociada a US$ 22,20 por papel, com um índice P/L de 2,64, considerado baixo frente ao preço ofertado.

Prêmio expressivo aos acionistas

O valor acordado representa um prêmio de 58% sobre o fechamento das ações em 13 de fevereiro de 2026. Em relação ao preço de US$ 15,50 registrado em 8 de agosto de 2025 — antes das especulações de mercado — o prêmio chega a 126%.

Dados do InvestingPro indicam que a companhia apresentava sinais de subavaliação, com base em estimativas de Valor Justo. Nos últimos seis meses, os papéis acumularam alta de 38,82%, demonstrando forte desempenho no mercado.

Criação da “Nova ZIM” e operação estratégica

Como parte do acordo, o fundo israelense FIMI estruturará uma nova operadora chamada “Nova ZIM”. A empresa será responsável por operar 16 navios ligando Israel aos principais portos da União Europeia, Estados Unidos, Mar Mediterrâneo e Mar Negro.

A nova estrutura assumirá as responsabilidades relacionadas à chamada “Ação Especial do Estado”, garantindo a continuidade de serviços marítimos estratégicos para Israel, com suporte comercial da Hapag-Lloyd.

Após a conclusão da fusão, a companhia combinada deverá operar mais de 400 navios, com capacidade superior a 3 milhões de TEU e movimentação anual projetada acima de 18 milhões de TEU até 2027.

Dividendos e saúde financeira da ZIM

O presidente e CEO da ZIM, Eli Glickman, destacou a transformação estratégica promovida nos últimos anos, ressaltando que, desde o IPO realizado em janeiro de 2021, a empresa distribuiu US$ 5,7 bilhões em dividendos aos acionistas.

Atualmente, a ZIM mantém um dividend yield de 5,59%. Apesar da expectativa de retração nas vendas no ano corrente, a companhia possui classificação geral de saúde financeira considerada “ótima”, com pontuação 3,39, segundo o InvestingPro.

Aprovação e próximos passos

A operação foi aprovada por unanimidade pelo Conselho de Administração da ZIM e ainda depende de aval dos acionistas e de autorizações regulatórias, incluindo aprovação do Estado de Israel relacionada à Ação Especial.

Até a conclusão do processo, prevista para o fim de 2026, as empresas continuarão atuando de forma independente.

Os bancos Evercore e Barclays assessoram financeiramente a ZIM, enquanto Meitar Law Offices e Skadden, Arps, Slate, Meagher & Flom LLP prestam consultoria jurídica.

FONTE: Investing
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reuters

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