Economia

Choque do petróleo impacta economia global e eleva incertezas no mercado de energia

O recente choque do petróleo provocado por tensões no Oriente Médio deve ter efeitos duradouros na economia mundial. Embora os impactos mais agudos possam diminuir com o tempo, especialistas avaliam que a incerteza no mercado de energia tende a permanecer como um fator estrutural nos próximos anos.

Conflito amplia instabilidade global

Após mudanças recentes no comércio internacional, o cenário global enfrenta uma nova fase de instabilidade com os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. Desta vez, o principal fator de preocupação está ligado ao custo da energia fóssil, que dificilmente retornará aos níveis anteriores mesmo após o fim do conflito.

Estreito de Ormuz no centro da crise

A interrupção no fluxo de petróleo e gás no Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde circula cerca de um quarto do petróleo transportado por via marítima no mundo e quase 20% do gás natural liquefeito — provocou um dos maiores choques de oferta já registrados.

Relatório recente da Agência Internacional de Energia classificou o episódio como a maior ameaça à segurança energética global, superando crises históricas como as de 1973, 1979 e até mesmo os efeitos da guerra na Ucrânia em 2022.

Produção em queda e preços em alta

A produção de petróleo nos países do Golfo Pérsico caiu mais de 10 milhões de barris por dia, enquanto o transporte marítimo foi fortemente reduzido. Refinarias e unidades de processamento também sofreram danos, afetando principalmente derivados como diesel e querosene de aviação.

Como reflexo, o barril do petróleo tipo Brent saltou rapidamente de cerca de US$ 60 para mais de US$ 100, mantendo-se em patamares elevados. O mercado de derivados sinaliza pressão adicional sobre os preços.

Medidas emergenciais não resolvem dependência

Em resposta à crise, países coordenados liberaram cerca de 400 milhões de barris de reservas estratégicas. A ação ajudou a conter um cenário ainda mais crítico no curto prazo, mas não resolve a dependência global de combustíveis fósseis, concentrados em regiões geopoliticamente instáveis.

Impactos no Brasil: inflação e juros

No Brasil, os efeitos devem aparecer principalmente na inflação e na condução da política monetária. A expectativa de redução da taxa básica de juros pode ser revista para baixo diante da pressão inflacionária.

Especialistas apontam que o ambiente atual dificulta cortes mais agressivos na taxa Selic, já que o aumento dos custos de energia tende a se espalhar por diversos setores da economia.

Fertilizantes e agricultura sob pressão

Outro impacto relevante está no mercado de fertilizantes, essencial para o agronegócio brasileiro. Com a interrupção de exportações de grandes fornecedores, como a Rússia, o abastecimento global foi comprometido.

A expectativa é de preços elevados e possível escassez, o que pode afetar diretamente a próxima safra agrícola, elevando custos ou reduzindo a produção.

Recuperação será gradual

Mesmo com um eventual cessar-fogo, a normalização do mercado de energia deve ocorrer de forma lenta e desigual. O petróleo pode apresentar recuperação mais rápida, mas o gás natural pode levar até dois anos para estabilizar sua oferta global.

Novo cenário energético global

Analistas avaliam que o maior impacto da crise não será apenas o pico de preços no curto prazo, mas a consolidação de um ambiente mais arriscado. A incerteza energética tende a se tornar permanente, elevando o patamar mínimo dos preços.

Ainda que o barril não ultrapasse novamente os US$ 100, dificilmente retornará ao nível anterior de US$ 60. O sistema energético global deve sair da crise mais caro e mais instável, impulsionando a busca por alternativas, como a energia nuclear e fontes mais sustentáveis.

FONTE: Valor International
TEXTO: Redação
IMAGEM: Freepik

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Informação

Petróleo Brent dispara e gás europeu sobe após ataques no Oriente Médio

A escalada de tensões no Oriente Médio provocou forte reação nos mercados nesta quinta-feira, impulsionando o petróleo Brent e os preços do gás natural na Europa. Ataques a instalações energéticas no Catar e no Irã aumentaram o temor de uma crise de oferta global de energia.

O movimento ocorre em meio à intensificação do conflito envolvendo Irã, Israel e aliados na região, elevando o risco de interrupções prolongadas no fornecimento.

Petróleo Brent chega a US$ 119 no pico do dia

Os contratos futuros do Brent — principal referência internacional — chegaram a ultrapassar US$ 119 por barril durante o pregão, antes de desacelerarem para cerca de US$ 114,66, ainda com alta expressiva próxima de 7%.

Já o WTI (West Texas Intermediate), referência nos Estados Unidos, apresentou leve queda, sendo negociado na faixa de US$ 96 por barril.

Além do petróleo, a gasolina também avançou, atingindo o maior patamar em quase quatro anos no mercado americano.

Preço do gás na Europa dispara mais de 20%

O impacto foi ainda mais intenso no mercado europeu. O contrato de gás no hub TTF, principal referência da região, registrou alta de cerca de 21%, refletindo a preocupação com o abastecimento.

Nos Estados Unidos, o gás natural também subiu, embora de forma mais moderada, acompanhando o movimento global de valorização dos combustíveis.

Ataques atingem infraestrutura estratégica no Catar

O governo do Catar confirmou que mísseis iranianos atingiram a região de Ras Laffan, considerada a maior instalação de exportação de gás natural liquefeito (GNL) do mundo.

Segundo autoridades locais, os danos foram significativos, mas não houve vítimas. Equipes de emergência atuaram no controle de incêndios, que posteriormente foram contidos.

O episódio foi classificado pelo país como uma grave violação de soberania, com potencial de desestabilizar toda a região.

Produção e exportações já vinham afetadas

O Catar, um dos maiores exportadores globais de GNL, já havia interrompido parte de sua produção no início do mês após ataques anteriores com drones.

O país responde por uma fatia relevante do comércio mundial de gás, o que amplia o impacto de qualquer interrupção no fornecimento.

Estreito de Ormuz agrava risco de desabastecimento

Outro fator crítico é o bloqueio do Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. A restrição ao tráfego de navios intensifica o risco de gargalos logísticos e pressiona ainda mais os preços.

Com a limitação no fluxo marítimo, produtores e compradores enfrentam dificuldades para manter o equilíbrio entre oferta e demanda.

Mercado teme escalada global do conflito

Especialistas alertam que o cenário pode se agravar caso os ataques se expandam para além do Golfo Pérsico e atinjam infraestruturas em outras regiões.

A preocupação central é a transição de um problema logístico para um verdadeiro choque de oferta de petróleo e gás, o que poderia levar a uma disparada ainda mais intensa nos preços.

Nesse contexto, o mercado passa a operar sob alta volatilidade, com investidores precificando cenários mais extremos e buscando garantir o abastecimento diante das incertezas.

FONTE: Times Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: Unsplash

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Sustentabilidade

Vaca Muerta: Uma oportunidade para responder à crise global de energia

A transição de longo prazo para sistemas de energia de baixo carbono continua ganhando força. Nos últimos dois anos, vimos uma aceleração das pressões sociais, políticas e de investidores sobre as empresas do setor para que abandonem a energia baseada em combustíveis fósseis e avancem em direção a uma economia de zero carbono.

Por exemplo, no início de 2020, apenas algumas empresas de petróleo e gás haviam anunciado metas de emissões líquidas zero até 2050. Hoje, dezenas de empresas estabeleceram metas cada vez mais ambiciosas — algumas com prazos para 2040 ou antes. A exigência continua aumentando, especialmente à medida que os acionistas demandam reduções mais amplas e rápidas de emissões dos setores que mais poluem.

Mais recentemente, as tensões geopolíticas provocadas pela invasão da Ucrânia e o impacto massivo sobre a vida e os meios de subsistência das pessoas na região estão causando turbulência nos mercados de energia da Europa e além. Mesmo antes do conflito, a recuperação da demanda por energia já havia provocado restrições de oferta e picos de preços em várias commodities. Agora, há uma necessidade urgente de aumentar a oferta de energia segura, confiável e acessível para os mercados globais no curto e médio prazo.

Em períodos anteriores de altos preços, a indústria de petróleo e gás respondeu aprovando megaprojetos bilionários com décadas de produção e altas emissões associadas. Em contraste, o atual imperativo de baixo carbono exige não apenas recursos de hidrocarbonetos com emissões reduzidas, mas também ciclos de produção mais curtos — característica essencial do petróleo não convencional.

Na indústria de petróleo e gás, o termo “não convencional” se refere a hidrocarbonetos obtidos por métodos diferentes dos poços verticais tradicionais. Embora a maior parte do desenvolvimento de petróleo e gás não convencional esteja concentrada na América do Norte, fontes alternativas estão sendo desenvolvidas em vários locais ao redor do mundo, como China, Arábia Saudita e — de forma particularmente notável — Argentina.

A formação Vaca Muerta (“vaca morta”, em espanhol) mostra grande potencial para aumentar a oferta global. Em 2019, nossas pesquisas concluíram que as propriedades geológicas de Vaca Muerta eram comparáveis às principais formações dos Estados Unidos e que o local era promissor para o desenvolvimento. Hoje, após anos de melhorias de produtividade, incluindo a importação de boas práticas, o custo técnico médio de equilíbrio de um poço em Vaca Muerta está em linha com os principais campos não convencionais dos EUA.

O aumento da produção para exportação de Vaca Muerta pode ajudar a reduzir a intensidade das emissões globais de gases de efeito estufa e ampliar a oferta de petróleo acessível e confiável. Mais importante ainda, a intensidade de carbono do petróleo de Vaca Muerta está bem abaixo da média global. Isso significa que o aumento das exportações de Vaca Muerta e de locais semelhantes ao redor do mundo pode ajudar a reduzir a intensidade das emissões e, ao mesmo tempo, garantir um suprimento de energia acessível e estável durante a transição energética.

Vaca Muerta: Uma visão geral

De acordo com o Global Energy Perspective 2022 da McKinsey, os combustíveis fósseis ainda terão um papel crucial nos próximos anos, apesar do aumento da eletrificação. Até 2035, espera-se que a demanda por gás natural cresça entre 10% e 20% em relação aos níveis atuais, respondendo por uma parte relevante da demanda primária de energia até 2050.

Isso significa que, em todos os cenários, os combustíveis fósseis continuarão preenchendo lacunas no mix energético enquanto o mundo avança para fontes alternativas.

No contexto de alta volatilidade provocada por eventos geopolíticos recentes e inovações tecnológicas, a extração de petróleo de xisto oferece um elemento de certeza, dada a modularidade dos investimentos e o curto intervalo entre perfuração e produção, em comparação aos projetos convencionais. Por isso, o petróleo de xisto pode reagir rapidamente a interrupções de oferta e variações de preço com flexibilidade.

A Argentina possui a segunda maior reserva mundial de gás não convencional e a quarta maior de petróleo não convencional, a maior parte localizada em Vaca Muerta, principalmente na província de Neuquén. A geologia de Vaca Muerta é comparável às principais formações dos EUA, especialmente à Bacia do Permiano (incluindo as sub-bacias Delaware e Midland).

Os poços de xisto geralmente atingem seu pico de produtividade logo no início e depois apresentam declínio rápido. Ainda assim, as características geológicas de Vaca Muerta proporcionam taxas de produtividade elevadas, frequentemente associadas a maiores volumes recuperáveis. Em 2021, poços de Vaca Muerta alcançaram produção média de 82.000 barris de petróleo nos primeiros 90 dias, comparado a 76.000 barris em Delaware. Além disso, as três últimas campanhas anuais em Vaca Muerta apresentaram produção acumulada 23% superior à de Delaware.

Em termos econômicos, o custo técnico de equilíbrio é de US$ 36 por barril de petróleo e US$ 1,60 por milhão de BTU de gás, valores compatíveis com os campos norte-americanos (entre US$ 34 e US$ 51 por barril e entre US$ 1,30 e US$ 1,80 por MMBtu). Os custos locais mais altos de perfuração são compensados pela maior produtividade, resultado dos picos iniciais mais elevados e de níveis sustentados de produção.

Além disso, o petróleo de Vaca Muerta é mais leve e possui baixo teor de enxofre (menos de 0,5%, em comparação com a média de 1% a 3%), o que o torna mais fácil de refinar e converter em gasolina, exigindo tecnologias menos complexas.

As exportações de petróleo leve dos EUA para a Europa (principalmente França, Itália e Reino Unido) e para a Ásia Oriental (principalmente China, Coreia e Singapura) aumentaram recentemente. Assim, é razoável supor que o petróleo de Vaca Muerta também poderia atender a esses mercados, devido à sua semelhança com o petróleo leve americano.

Por fim, os processos de produção em Vaca Muerta apresentam intensidade de carbono de 15,8 kg de CO₂ por barril equivalente de petróleo, uma das mais baixas do mundo — bem abaixo da média global de 23 kg de CO₂ por barril equivalente.

Potencial de produção e oportunidades de exportação

Atualmente, a produção argentina de petróleo bruto está entre 0,5 e 0,6 milhão de barris por dia. Se Vaca Muerta atingir seu potencial, essa produção poderá dobrar em cinco anos (até 2027) e triplicar em dez anos (até 2032), o que colocaria a Argentina entre os 20 maiores exportadores de petróleo do mundo.

Da mesma forma, estima-se que a produção de gás natural aumente de 4,0 bilhões de pés cúbicos por dia para 5,4 bilhões em cinco anos e 6,3 bilhões em dez anos, equilibrando a dependência do país de importações.

Essas projeções assumem o aumento da atividade de Vaca Muerta de cerca de 30 plataformas de perfuração em 2022 para 70 nos próximos quatro a cinco anos — o que tornaria sua densidade de plataformas semelhante à da Eagle Ford, no Texas.

Ampliar essa atividade exigirá investimentos de pelo menos US$ 45 bilhões nos próximos dez anos, tanto para superar gargalos de infraestrutura quanto para reduzir o risco político e regulatório. A longo prazo, as importações de equipamentos e insumos necessárias poderiam ser financiadas pelas receitas de exportações e pela economia gerada pela redução das importações de gás.

Nossas estimativas indicam que esse processo poderia gerar entradas líquidas positivas de aproximadamente US$ 50 bilhões em dez anos. No mesmo período, o desenvolvimento de Vaca Muerta poderia gerar entre US$ 58 bilhões e US$ 70 bilhões em receitas federais e provinciais.

O aumento da atividade também elevaria a participação da indústria de petróleo e gás no PIB argentino de 1,4% para 8,4% até 2032, com a criação de até 20.000 empregos diretos e 260.000 empregos indiretos e induzidos.

Vaca Muerta representa, portanto, uma oportunidade de explorar uma fonte de energia adicional que é econômica, acessível e constante. O petróleo de xisto ainda não é explorado em larga escala fora dos Estados Unidos, e Vaca Muerta oferece a primeira oportunidade viável para isso.

À medida que o mundo se afasta de fontes de energia intensivas em carbono, Vaca Muerta pode ajudar em duas frentes:

  • No curto prazo, fornecendo ao mundo uma energia acessível, confiável e segura.
  • No longo prazo, servindo de base para que a Argentina desenvolva rotas adicionais de descarbonização, como hidrogênio azul ou verde.

Vivemos tempos incertos. As economias globais continuam se recuperando após a COVID-19, a situação na Ucrânia permanece em aberto e o mix energético está mudando rapidamente para refletir metas climáticas cada vez mais ambiciosas. Contudo, a demanda por petróleo não desaparecerá no futuro imediato.

FONTE: McKinsey & Company
IMAGEM: Reprodução/McKinsey & Company

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