Comércio Exterior

Brasil perde posições no ranking global de superávits comerciais com queda nas commodities

O Brasil caiu da quinta para a nona colocação no ranking mundial de superávits comerciais no primeiro semestre de 2025, segundo levantamento do Valor Econômico. O resultado reflete o impacto da valorização do real frente ao dólar, a desaceleração do comércio internacional e a queda dos preços das commodities.

Desempenho global e retração brasileira

Entre janeiro e junho de 2024, o país ficava atrás apenas de China, Alemanha, Holanda e Irlanda. Neste ano, Taiwan, Suíça, Noruega e Singapura ultrapassaram o Brasil, que apresentou uma redução de 28% no superávit, enquanto a Alemanha teve queda de 21,4%.
A China manteve a liderança global, com superávit de US$ 574 bilhões, alta de 32,7% sobre 2024, impulsionada pelo crescimento de 7% nas exportações e queda de 6% nas importações.

Segundo especialistas, o recuo brasileiro foi causado pela redução dos preços médios de produtos como soja, petróleo e minério de ferro, além do crescimento das importações, que surpreendeu analistas.

Projeções indicam superávit mais fraco, mas ainda sólido

Levantamento do Valor Data aponta que o Brasil deve fechar 2025 com superávit de US$ 62,5 bilhões. O Banco Central, por meio do Boletim Focus, prevê US$ 62 bilhões, enquanto o governo federal projeta US$ 60,9 bilhões.
Apesar do resultado positivo, economistas alertam que a estrutura atual da balança comercial deixa o país mais vulnerável a oscilações externas.

Os dados, obtidos junto ao Trademap, mostram que entre os 20 maiores superávits do mundo, o Brasil registrou a maior retração, seguido por Austrália (-22,8%) e Alemanha.

Exportações estagnadas e importações em alta

De acordo com José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o superávit de janeiro a junho caiu de US$ 41,6 bilhões em 2024 para US$ 29,8 bilhões em 2025.
As exportações cresceram apenas 1%, enquanto as importações avançaram 15%, puxadas por bens intermediários e de capital — insumos ligados à produção industrial.

A soja, o petróleo e o minério de ferro — que juntos representam 30% das exportações brasileiras — registraram quedas expressivas nos preços: -10%, -6,7% e -20,4%, respectivamente.

Café e carne bovina sustentam parte do saldo comercial

A retração maior foi evitada graças ao desempenho de café e carne bovina.
O café não torrado teve alta de 78,7% nos preços, elevando em 47,4% a receita de exportação. Já a carne bovina cresceu 13% em preços e 27,7% em faturamento, compensando parte das perdas nas vendas aos Estados Unidos, afetadas por novas tarifas.

Dependência de commodities preocupa especialistas

Para Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, a dependência do Brasil em commodities torna o país mais sensível à volatilidade dos preços internacionais. Mesmo com volumes exportados em alta, as receitas diminuem.
Na China, observa ela, a concentração em produtos de maior valor agregado reduz esse impacto.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC) apontam que o volume exportado pelo Brasil entre janeiro e setembro aumentou 3,6% sobre 2024 — o maior desde 2006.

O economista André Valério, do Banco Inter, ressalta que o país está retornando aos níveis de superávit pré-2023, quando o recorde de US$ 99 bilhões foi impulsionado pelos altos preços do petróleo no pós-pandemia. Desde o fim de 2023, no entanto, o barril subiu apenas 1,7%.

Importações indicam economia interna mais aquecida

Mesmo com a redução do saldo, Benedito avalia que o movimento reflete uma economia doméstica mais ativa.

“O país está importando mais porque a produção e o consumo estão fortes. É um sinal de resiliência, não de fragilidade”, explica.

Ela projeta superávit de US$ 65 bilhões em 2025, sustentado por exportações para China e Argentina, mesmo com queda nas vendas aos EUA.
A economista prevê crescimento do PIB de 2,2% e Selic em 12,5% até o fim de 2026, com possibilidade de cortes posteriores.

Lívio Ribeiro, sócio da BRCG e pesquisador do FGV Ibre, estima Selic de 13,25% em 2026, o que deve conter investimentos e importações. Ele lembra que o Brasil importou duas plataformas de petróleo em 2025, evento considerado atípico, e espera apenas uma nova importação em 2026.

“O desafio será avaliar como a economia reagirá aos estímulos de renda e ao comportamento das importações de bens de consumo”, destaca Ribeiro.

Segundo o economista, o superávit comercial brasileiro deve alcançar US$ 61 bilhões em 2025 e cair para US$ 55 bilhões em 2026, com exportações estáveis e importações levemente maiores.

FONTE: Valor International
TEXTO: Redação
IMAGEM: Washington Alves/Valor

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