Comércio

A agência de comércio do Brasil recomenda a mudança para exportações de alto valor para a China

As commodities ainda dominam o comércio, mas a ApexBrasil vê espaço para crescimento em alimentos processados, comércio eletrônico e produtos sustentáveis

Mesmo com o crescimento da China desacelerando — de taxas de dois dígitos entre 1980 e 2010 para uma projeção de 4,5% a 5% ao ano — o país continua oferecendo ao Brasil oportunidades “escondidas nos grandes números” do comércio de commodities.

Um estudo da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), encomendado pelo Valor, constatou que o ritmo mais lento reflete uma mudança na natureza das oportunidades, e não uma redução em seu número. O novo ciclo de crescimento da China prioriza qualidade em vez de quantidade, criando espaço para o Brasil fornecer bens com maior valor agregado, alinhados ao modelo econômico em evolução do país.

A agência, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e com escritórios na China, vem mapeando oportunidades para exportações e investimentos brasileiros.

A desaceleração da China reflete fatores estruturais, como o envelhecimento da população, a transição para uma economia mais baseada em serviços e inovação, e ajustes internos para reduzir a dependência de gastos pesados em infraestrutura e indústrias de baixa tecnologia.

Mesmo em ritmo mais lento, o crescimento da China permanece entre os mais altos das grandes economias. Em termos absolutos, observou a Apex, isso significa adicionar ao PIB chinês a cada ano o equivalente à economia inteira de um país de médio porte, mantendo a China como um mercado estratégico para o Brasil.

Novos nichos para exportações brasileiras

A atual fase de crescimento da China traz tendências favoráveis aos exportadores brasileiros: a segurança alimentar continua sendo prioridade; a classe média urbana impulsiona a demanda por conveniência e produtos de maior valor; o comércio eletrônico, que respondeu por quase 30% das vendas de bens de consumo em 2024, em um mercado avaliado em US$ 2,22 trilhões, cria visibilidade para café, vinhos e frutas; e há crescente demanda por alimentos naturais e funcionais ligados à saúde e bem-estar.

Embora o comércio bilateral ainda seja dominado por commodities, existem nichos pouco explorados com alto valor agregado. Alimentos processados, produtos de soja, sucos, snacks saudáveis e itens congelados de conveniência poderiam atender às necessidades dos consumidores urbanos chineses. Além da alimentação, cosméticos naturais, vinhos e espumantes, produtos de madeira e design sustentável, biotecnologia e suplementos, energia renovável e minerais estratégicos também apresentam potencial. O Brasil poderia ainda expandir em celulose e bioprodutos, entrando em embalagens sustentáveis e papéis especiais.

A Apex destacou que o Brasil deve olhar além das commodities tradicionais, com o e-commerce como canal estratégico. Os consumidores chineses são cada vez mais exigentes, tornando crucial que o Brasil ofereça produtos que se destaquem em qualidade, inovação e sustentabilidade. Essa mudança beneficiaria não apenas as empresas, mas também as cadeias de suprimento, as comunidades locais e a economia como um todo.

Desafios da diversificação das exportações

Tatiana Prazeres, secretária de comércio exterior do Brasil, afirmou que o perfil de exportações do país para a China já está mudando, embora sem alterar o domínio dos “grandes números”. Com soja, petróleo e minério de ferro ainda respondendo por cerca de 75% das exportações, os ganhos de outros produtos ainda não são visíveis na escala macro acompanhada pelos analistas.

“O Brasil não precisa se contentar em vender soja, petróleo e minério de ferro para a China. Essa realidade muitas vezes é ignorada por quem foca apenas na visão macro”, disse ela em entrevista ao Valor. Ela apontou categorias de exportação que tiveram crescimento dramático de 2024 para 2025: chocolate e preparações à base de cacau, praticamente inexistentes antes, cresceram mais de 1.000%; tubos e conexões de plástico quase 980%; torneiras e válvulas quase 800%; óleos essenciais mais de 100%; e carne bovina congelada cerca de 40%.

Embora pequenos em termos absolutos, esses ganhos podem sinalizar mercados pouco explorados para o Brasil, acrescentou. “Isso não muda nosso perfil geral de exportação para a China, mas para as empresas envolvidas pode ser transformador. Até para cadeias de suprimento e comunidades locais. E, em um contexto global desafiador, encontrar novos destinos é altamente relevante.”

Para Prazeres, o principal desafio está na falta de conhecimento sobre a China. Ela destacou três camadas no comércio exterior: competitividade, apoio à exportação e relacionamento com a China. As duas primeiras são limitadas pelo chamado “custo Brasil”, que afeta todos os mercados. A terceira é única, moldada pela ampla falta de entendimento do mercado chinês. Segundo ela, todas as três devem ser tratadas simultaneamente.

“O setor privado precisa estar mais presente na China. É necessário ter presença física, construir relacionamentos, compreender o ecossistema digital chinês, que é completamente diferente do nosso”, disse. Embora a China seja competitiva em setores industriais, ela não impõe grandes barreiras a produtos industriais, deixando oportunidades que as empresas brasileiras ainda precisam explorar.

Ela afirmou que parcerias público-privadas devem impulsionar esses esforços, já que muitas iniciativas privadas dependem do suporte adequado do governo. Ao mesmo tempo, as próprias empresas devem se engajar para transformar oportunidades em negócios concretos.

Welber Barral, ex-secretário de comércio exterior e sócio da BMJ Consultants, observou que produtos de valor agregado têm forte impacto nas cadeias de suprimento, mas que a responsabilidade inicial recai sobre o setor privado. Por se tratar de uma agenda de nicho, envolve principalmente pequenas e médias empresas (PMEs), ainda inexperientes em exportações. “Acho que falta iniciativa ao setor privado. As empresas ainda olham pouco para o exterior. Poderiam fazer mais e, depois, exigir mais do governo também”, disse.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) destacou que os baixos níveis de inovação do Brasil limitam a capacidade das empresas, especialmente PMEs, de competir em mercados sofisticados que exigem produtos de alta tecnologia e diferenciados. Exportar continua sendo um desafio não apenas por falta de iniciativa ou know-how, mas também por obstáculos externos, como gargalos logísticos, altos custos de transporte, ineficiências portuárias, lacunas de infraestrutura, volatilidade cambial, taxas de juros e a estratégia nacional de comércio ainda recente.

A CNI defendeu parcerias em pesquisa, desenvolvimento e inovação, afirmando que “linhas de financiamento direcionadas, programas de inovação, segurança jurídica e capacitação profissional são condições essenciais”.

Fonte: Valor International
Imagem:  Júlio César Silva/MDIC

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