Comércio Internacional

Acordo comercial entre Argentina e EUA amplia acesso a mercados e fortalece aliança política

A Argentina e os Estados Unidos firmaram nesta quinta-feira um amplo acordo comercial, considerado histórico por especialistas e visto como uma vitória política do presidente argentino Javier Milei. O entendimento aprofunda a relação bilateral com o presidente Donald Trump e marca a primeira vez que os dois países assinam um pacto dessa dimensão.

O acordo está alinhado à estratégia do governo Milei de promover a abertura da economia argentina, a terceira maior da América do Sul, por meio da redução de tarifas recíprocas e da ampliação das exportações argentinas, com destaque para a carne bovina.

Redução de tarifas e estímulo a investimentos

Segundo o chanceler argentino Pablo Quirno, os Estados Unidos eliminarão tarifas para mais de 1.600 produtos argentinos, medida que também busca atrair maior investimento americano no país, prioridade do atual governo para impulsionar o crescimento econômico e reforçar a entrada de dólares.

“Hoje, a Argentina enviou uma mensagem clara ao mundo: somos um parceiro confiável”, afirmou Quirno em publicação nas redes sociais.

Do lado argentino, o acordo prevê a eliminação de tarifas para mais de 200 produtos norte-americanos, incluindo máquinas, equipamentos de transporte e insumos farmacêuticos e químicos, informou o Ministério das Relações Exteriores. O movimento, no entanto, gera apreensão entre industriais argentinos, tradicionalmente protegidos por barreiras comerciais, enquanto defensores do livre mercado avaliam que a abertura é necessária.

Carne bovina no centro das atenções

Um dos pontos mais sensíveis do acordo é a ampliação do acesso da carne argentina ao mercado dos EUA. A cota de exportação foi elevada para 100 mil toneladas, volume cinco vezes maior que o anterior. O presidente Trump afirmou que a medida tem como objetivo reduzir os preços da carne para os consumidores americanos.

A decisão, porém, provocou reação negativa entre pecuaristas dos Estados Unidos. Para Bill Bullard, diretor executivo da R-Calf USA, associação que representa criadores americanos, a medida pode atrasar a recuperação do rebanho doméstico.

Impacto político e geopolítico

Analistas avaliam que o acordo vai além do comércio. Para o consultor argentino Marcelo Elizondo, o entendimento tem peso também no campo geopolítico, reforçando a aproximação entre os governos Milei e Trump. Ele lembrou ainda o apoio financeiro de cerca de US$ 20 bilhões concedido pelos EUA à Argentina antes das eleições legislativas do ano passado.

O governo argentino deverá encaminhar ao Congresso um projeto de lei para ratificação do acordo, exigência constitucional. Com a maioria conquistada nas eleições de meio de mandato, Milei tem posição fortalecida no Parlamento e pretende avançar com pautas estratégicas, como uma ampla reforma trabalhista.

Mercosul, União Europeia e tensões regionais

Paralelamente, o Congresso argentino deve discutir o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que poderá criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. A implementação, no entanto, segue travada por entraves jurídicos no continente europeu.

A assinatura do acordo com os EUA sem a participação dos demais países do Mercosul pode gerar atritos adicionais com o Brasil. Segundo Elizondo, a decisão tende a aprofundar o desgaste na relação entre Milei e o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.

Cooperação ampliada entre os governos

A aproximação entre Buenos Aires e Washington também se estende a outras áreas. Nesta semana, os dois países assinaram um acordo sobre minerais críticos e negociam um entendimento que permitiria aos EUA deportar estrangeiros para a Argentina.

Dentro desse contexto, Milei é visto como um aliado estratégico de Trump na tentativa de ampliar a influência dos Estados Unidos na América Latina e conter o avanço da China na região. O presidente argentino deve viajar nos próximos dias para a Flórida, onde participará de um evento privado na residência de Trump, em Mar-a-Lago.

FONTE: NY Times
TEXTO: Redação
IMAGEM: Doug Mills/The New York Times

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