Comércio Internacional

Tarifas dos EUA sobre a Groenlândia impulsionam acordo Mercosul-União Europeia

As novas tarifas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra países europeus contrários à anexação da Groenlândia por Washington voltaram a acirrar as tensões comerciais globais. A medida, divulgada no sábado (17), ocorre às vésperas de Trump completar um ano de seu segundo mandato e carrega forte componente geopolítico.

Embora tenha caráter político, a decisão pode gerar um efeito indireto relevante: ampliar o apoio ao acordo Mercosul-União Europeia, justamente no momento em que o texto entra na etapa mais delicada de tramitação no Parlamento Europeu.

Europa reage a tarifas e busca novos parceiros comerciais

Ao recorrer às tarifas como instrumento de pressão internacional, os Estados Unidos empurram a Europa para uma postura defensiva no comércio exterior. Parlamentares europeus já discutem abertamente a revisão — ou até a suspensão — do acordo comercial com Washington.

Paralelamente, a Comissão Europeia prepara medidas de retaliação tarifária a partir de fevereiro, caso não haja recuo por parte do governo americano.

Nesse ambiente, o acordo Mercosul-UE deixa de ser apenas uma negociação de longo prazo e passa a ser visto como uma alternativa estratégica concreta. As novas tarifas anunciadas por Trump se somam às já existentes, podendo elevar o custo de acesso dos produtos europeus ao mercado dos EUA para patamares próximos de 40% a partir de junho.

O impacto tende a ser significativo, com redução das exportações, pressão sobre cadeias produtivas e efeitos diretos sobre setores industriais e agrícolas da União Europeia.

Especialistas veem relação direta com fortalecimento do Mercosul-UE

Para o professor de Relações Internacionais da ESPM, Leonardo Trevisan, a conexão entre a escalada tarifária americana e o fortalecimento do acordo com o Mercosul é evidente. “É impossível não associar uma coisa à outra. Tarifas de até 25% travam a saída de produtos europeus para os Estados Unidos, e a Europa precisa de novos mercados. Nesse cenário, o acordo Mercosul-UE ganha uma força inédita”, afirma.

Segundo Trevisan, ao dificultar o acesso ao mercado americano, os EUA aceleram a busca europeia por parceiros alternativos, e a América Latina surge como destino natural. “O episódio da Groenlândia, da forma como foi colocado, favorece uma aproximação da Europa com outros mercados, e a América Latina é candidata preferencial”, avalia.

Resistências políticas e risco jurídico ainda preocupam

Apesar do ambiente econômico mais favorável ao acordo, as tensões políticas internas na Europa permanecem. Parte do Parlamento Europeu, especialmente parlamentares ligados ao setor agrícola francês, tenta judicializar o tratado, encaminhando o texto à Corte de Justiça da União Europeia.

Trevisan alerta que nem toda oposição tem motivação econômica. “Há grupos radicalizados, de extrema direita, que defendem o rompimento com os Estados Unidos. Isso tem menos a ver com a Groenlândia e mais com disputas eleitorais”, analisa.

Ele lembra que a União Europeia exportou US$ 642 bilhões para os EUA no ano passado, sustentando empregos em economias centrais como Alemanha e França. Um rompimento abrupto poderia gerar desemprego — cenário que tende a fortalecer movimentos extremistas no continente.

Ambiente geopolítico favorece acordo, mas ritmo é incerto

Na avaliação de Carlos Primo Braga, ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial e professor associado da Fundação Dom Cabral, o contexto internacional joga a favor do acordo com o Mercosul, embora obstáculos ainda persistam. “As medidas da administração Trump criam apoio adicional à aprovação do acordo Mercosul-UE, mas ainda existem pedregulhos no caminho”, destaca.

Segundo Braga, a resistência histórica veio de países preocupados com o impacto sobre o setor agrícola, como França e Polônia. No entanto, ajustes recentes — como o apoio da Itália após negociações envolvendo subsídios — reduziram o risco de bloqueio por critério populacional dentro da UE. “Hoje, não há mais os 35% da população europeia necessários para barrar o acordo”, explica.

O principal risco agora é jurídico. A votação no Parlamento Europeu sobre o envio do acordo à Corte de Justiça da UE está marcada para quarta-feira (21). Caso aprovada, a análise pode atrasar o processo entre 12 e 18 meses. “O acordo deve avançar, mas o ritmo ainda é incerto”, resume Braga.

Mercosul-UE ganha peso geopolítico em cenário global instável

O novo capítulo da tensão comercial liderada pelos Estados Unidos reforça a necessidade de reorganização do comércio global. Países e blocos buscam diversificar parceiros, reduzir dependência de Washington e garantir maior previsibilidade regulatória.

Nesse cenário, o acordo Mercosul-União Europeia assume um papel estratégico, deixando de ser apenas um pacto comercial para se tornar um instrumento de equilíbrio geopolítico.

Para a Europa, representa acesso a mercados e recursos naturais em meio ao atrito com os EUA. Para o Brasil e os demais países do Mercosul, é a oportunidade de se consolidar como parceiro confiável em um mundo cada vez mais fragmentado.

De forma quase paradoxal, ao usar tarifas como arma política, Donald Trump pode acabar fortalecendo justamente o acordo que enfrentava maior resistência dentro da própria Europa.

FONTE: CNN / Com informações de análises de especialistas em comércio internacional e relações exteriores.

TEXTO: REDAÇÃO

IMAGEM: REPRODUÇÃO IPEA

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