Comércio Exterior, Internacional

Trump é acionado para intervir em venda de níquel no Brasil para a China

O Instituto Americano de Ferro e Aço (AISI) acionou o governo Donald Trump para intervir junto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra a venda de ativos de níquel no Brasil para a MMG Limited, empresa australiana controlada pela estatal chinesa China Minmetals Corporation. O negócio, avaliado em até US$ 500 milhões (R$ 2,7 bilhões), envolve todas as operações da Anglo American no país.

De acordo com o AISI, a transação colocaria sob influência chinesa reservas expressivas de níquel no Brasil, ampliando o domínio de Pequim sobre a cadeia de suprimentos de minerais críticos, já que a China controla grande parte da produção indonésia. O instituto advertiu que, se confirmada, a compra aumentará a vulnerabilidade dos Estados Unidos, que dependem do metal para setores como tecnologia, defesa e transição energética.

A Anglo American anunciou que a venda inclui duas unidades operacionais em Goiás — Barro Alto e Codemin (Niquelândia) — além de projetos para exploração em Mato Grosso (Morro Sem Boné) e no Pará (Jacaré). Em 2023, essas operações produziram cerca de 40 mil toneladas de ferroníquel.

Em carta ao Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), datada de 18 de agosto, o presidente do AISI, Kevin M. Dempsey, disse que o governo brasileiro deveria buscar alternativas para preservar a “propriedade orientada para o mercado” desses ativos. Segundo ele, o setor de aço inoxidável, que responde por 65% da demanda global de níquel, pode sofrer impacto direto. “As reservas globais de níquel estão concentradas em poucos países. A China já tem controle sobre parcela significativa da produção, e essa aquisição reforçaria ainda mais esse domínio”, alertou.

A ação do AISI se dá em meio às negociações do tarifaço imposto por Trump contra produtos brasileiros. Washington já manifestou preocupação com a atuação da China no setor, sobretudo diante de políticas de restrição de exportação adotadas por Pequim.

No Brasil, o assunto também entrou em rota de colisão. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a pressão dos EUA sobre Lula está diretamente ligada ao interesse estratégico americano nos minerais nacionais.

Fonte: Conexão Política

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Economia

Fim do dólar? Por que moeda vem perdendo força no mundo — e isso pode ser o que Trump quer

No primeiro semestre de 2025, o dólar americano teve seu pior desempenho em mais de cinco décadas no índice usado para medir a força da moeda dos Estados Unidos.

A desvalorização acumulada até junho foi de 11% no U.S. Dollar Index, criado pelo Federal Reserve (Fed), o banco central americano, e que compara o dólar a outras seis moedas — o euro, yen japonês, a libra esterlina, o dólar canadense, o krona sueco e o franco suíço.

Quedas como essa já foram registradas em outros momentos. Mas, desta vez, a desvalorização acontece ao mesmo tempo que outros eventos que preocupam alguns economistas, o que tem feito cada vez mais investidores, analistas financeiros e outras pessoas no ramo bancário questionarem a força do dólar americano, de acordo com fontes do próprio setor.

Um dos pontos de preocupação apontados é a queda pequena, mas gradual, na participação da moeda nas reservas cambiais dos bancos centrais ao redor do globo.

Somam-se a isso uma fuga de capital estrangeiro no mercado de títulos do Tesouro dos Estados Unidos e críticas sobre a forma como o governo americano tem usado a dominância do dólar para aplicar sanções em temas geopolíticos, segundo especialistas.

A atual política de tarifas do governo de Donald Trump — e os rumores no mercado sobre a possibilidade de um enfraquecimento deliberado da moeda por parte da Casa Branca para impulsionar a indústria americana — também tem gerado especulações.

Mas enquanto alguns demonstram preocupação, outros são céticos em relação ao apetite do mercado em buscar alternativas ou à capacidade de qualquer outra moeda de alcançar o status atingido pela americana.

O dólar se consolidou como a moeda internacional após a 2ª Guerra Mundial, com o acordo de Bretton Woods.

Desde então, tornou-se a mais usada nas reservas globais e nas transações no sistema Swift, uma rede de pagamentos globais que conecta 11 mil instituições financeiras em mais de 200 países.

Então, afinal, quão profunda é a desconfiança em torno da moeda que domina as transações comerciais em todo o mundo? E o que dizem aqueles que ainda preveem uma longa vida de dominância para o dólar?

Participação nas reservas cambiais

Um relatório elaborado pelo banco J.P. Morgan no início de julho apontou alguns dos fatores que ameaçam o domínio da moeda atualmente.

O primeiro tem relação com a queda do dólar nas reservas internacionais — ou o conjunto de ativos externos em moeda estrangeira mantidos pelos bancos centrais ou autoridades monetárias para garantir sua estabilidade econômica e financeira.

A soma das reservas mundiais em moedas estrangeiras equivalia a mais de US$ 12 trilhões em março de 2025, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Desse total, mais de 57% estava alocado em dólar.

Ou seja, a moeda americana ainda domina. No entanto, no começo dos anos 2000, essa fatia superava 70%.

E enquanto o dólar viu uma diminuição em sua participação, o total em renminbis chineses dobrou na última década.

Vale notar, no entanto, que as reservas na moeda chinesa ainda representam apenas 2% do total, bem atrás de outras mais tradicionais, como o euro e a libra esterlina.

Enquanto o dólar cai, outras moedas aumentam sua participação nas reservas internacionais

Segundo especialistas, no entanto, a principal tendência de “desdolarização” das reservas cambiais está relacionada à crescente demanda por ouro, que é visto como uma alternativa às moedas globais.

Atualmente, o ouro corresponde a 9% das reservas de mercados emergentes, mais do que o dobro dos 4% observados há uma década.

Mercado de commodities e títulos do Tesouro

Outros fatores que, segundo a análise do JP Morgan, indicariam uma tendência de “desdolarização” são o uso de outras moedas no comércio internacional e a queda das participações estrangeiras nos títulos de renda fixa de dívida pública do governo norte-americano.

Quando o assunto é a moeda usada nas transações internacionais, há várias formas de medir qual é a mais influente. E o dólar ainda domina em termos de volumes de câmbio, faturamento comercial, denominação de passivos transfronteiriços (dívidas ou obrigações financeiras de um país, empresa ou banco perante credores estrangeiros) e emissão de dívida em moeda estrangeira.

Mas, segundo analistas, a moeda americana vem perdendo espaço como referência nos mercados de commodities, especialmente no setor de energia.

Por conta das sanções internacionais aplicadas contra a Rússia, o país tem usado moedas locais para as exportações de petróleo e derivados. Com isso, nações como Índia, China, Brasil, Tailândia e Indonésia podem comprar petróleo a preços mais baixos e pagar com suas próprias moedas.

Já as posições estrangeiras em títulos americanos vêm sendo reduzidas há 15 anos.

Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos — assim como os de outros países com economia forte — costumam ser vistos como investimentos de refúgio, para onde muitos direcionam seu dinheiro em momentos de crise nos mercados, como quedas nas bolsas de valores.

E, embora os investidores estrangeiros continuem sendo o maior componente do mercado de títulos do Tesouro americano, sua participação vem caindo.

Antes da grande crise financeira global de 2008, mais de 50% dos títulos estavam na mão de compradores de fora dos EUA. Agora, caiu para 30%, segundo o JP Morgan.

“Em termos de transações internacionais, há um declínio muito modesto na porcentagem do que ocorre em dólar”, diz Luis Oganes, chefe de Pesquisa Macro Global no J.P. Morgan, à BBC News Brasil.

“Onde estamos observando a desdolarização, e certamente um grande afastamento do dólar, é nas reservas cambiais dos bancos centrais e na denominação monetária das transações de commodities.”

Desvalorização e queda das bolsas

Para além do relatório, outros fatores que chamam a atenção são a desvalorização do dólar e as quedas no mercado de ações americano.

Após acumular no primeiro semestre de 2024 a maior desvalorização registrada até aquele momento desde 1973, os índices que medem o valor do dólar ensaiaram uma recuperação em meados de julho, mas voltaram a cair em agosto.

Segundo relatório do banco Morgan Stanley, embora a moeda tenha se fortalecido 3,2% em julho, o declínio deve continuar, possivelmente adicionando outros 10% em perdas até o final de 2026.

Além disso, no início de abril deste ano, as bolsas dos Estados Unidos tiveram a sua pior semana desde a pandemia de covid-19, com o índice S&P 500 de Wall Street, que inclui as maiores empresas americanas, com uma queda de 10%.

Em seguida, bolsas de todo o mundo despencaram. No Brasil, o dólar caiu mais de 12%.

Tudo aconteceu diante de anúncios do presidente Donald Trump sobre a adoção de uma onda sem precedentes de tarifas de importação.

Em abril, o republicano divulgou sua intenção de adotar uma tarifa básica universal de 10% sobre todas as importações para os EUA.

O prazo para entrada em vigor da medida foi adiado algumas vezes depois disso, e novas alíquotas foram anunciadas para alguns países específicos.

Entre eles o Brasil, que em 6 de agosto passou a enfrentar tarifa de 50% sobre alguns produtos.

Desde que foi anunciado, o tarifaço de Trump preocupa investidores, que temem seu efeito sobre os lucros corporativos e a desaceleração em massa do crescimento econômico.

Isso faz com que alguns tentem se proteger de novas quedas do dólar e diminui a confiança na economia americana e em sua moeda, dizem especialistas.

Como resultado, investidores estrangeiros venderam US$ 63 bilhões em ações de empresas listadas em bolsas dos EUA entre março e abril de 2025, segundo o banco Goldman Sachs.

O mesmo vale para o mercado de títulos, que serve como um termômetro da confiança na economia de um país.

Quando há muitas compras, isso é um sinal de confiança. Mas, se os investidores começam a vender — como aconteceu nos Estados Unidos após os anúncios de Trump sobre as tarifas — é porque algo não vai tão bem.

“Existe um movimento de desvalorização e de aumento da desconfiança no dólar que foi agravado pelo presidente Donald Trump e as suas políticas erráticas e imprevisíveis em relação à política comercial americana”, avalia Fernanda Brandão, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Por que a confiança no dólar está caindo?

Mas a aplicação de novas tarifas pelo governo americano não é o único fator que, segundo os especialistas, vem erodindo a segurança no dólar.

A forma como o governo americano usa a moeda como um instrumento para punição de transgressões na área geopolítica, por meio de sanções econômicas, é um dos principais motivos para a queda de confiança entre investidores, diz Robert McCauley, pesquisador sênior da Universidade de Boston que passou a maior parte de sua carreira no Banco de Compensações Internacionais e no Fed de Nova York.

Países, empresas, bancos ou indivíduos sancionados pelos EUA podem ser totalmente excluídos do sistema monetário financeiro internacional e do sistema de pagamentos global, a depender do nível das sanções.

Foi o que aconteceu com a Rússia, por exemplo, após a invasão da Ucrânia. Ou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, enquadrado na Lei Magnitsky, de violações de direitos humanos e práticas de corrupção, em meio a uma disputa política com os Estados Unidos.

“As tarifas foram um choque adicional que se se somam ao congelamento dos ativos russos e da exclusão de alguns bancos russos da parcela do dólar do sistema financeiro internacional”, diz McCauley.

Segundo o pesquisador da Universidade de Boston, essas práticas podem estar encorajando alguns atores a tentar contornar o dólar para evitar, eventualmente, serem colocados em uma situação semelhante.

Os títulos do Tesouro americano ocupam há décadas “a base da pirâmide da estrutura das finanças internacionais” como os ativos mais seguros, afirma o especialista. Mas quando detentores importantes, como bancos ou investidores russos, passam a ter seus ativos congelados, essa ideia fica ameaçada.

“A presunção é que os títulos do Tesouro dos EUA são o lugar certo para se recorrer quando as coisas ficam difíceis”, diz McCauley.

“Mas o fato de que o ativo de refúgio pode repentinamente se tornar ativo nenhum para um grande detentor é um choque. Faz os investidores pensarem melhor.”

Outro ponto levantado é o aumento dos déficits fiscais dos países desenvolvidos nos últimos anos.

No caso dos Estados Unidos, o país terminou 2024 com US$ 35,46 trilhões em dívida federal, uma quantia que equivale a 123% do seu PIB, de acordo com o Tesouro americano.

Segundo Luis Oganes, há um temor entre investidores de que, no futuro, possa haver pressão sobre a moeda para que ela se desvalorize, a fim de reduzir ou liquidar os déficits comerciais — para alguns economistas, isso tornaria as exportações americanas mais competitivas, porque ficam mais baratas para os compradores estrangeiros.

“Há uma sensação de que há necessidade de diversificar as moedas, especialmente em países de mercados emergentes. No passado, vimos países encontrarem dificuldades quando sua relação dívida/PIB aumentou muito, o que poderia eventualmente levar à pressão sobre suas moedas para se depreciarem a fim de reduzir ou liquidar o ônus da dívida”, diz Oganes.

“Isso está se combinando com razões geopolíticas para fazer os investidores de longo prazo questionarem a sensatez de manter a alocação ao dólar ou se deve haver uma mudança estrutural ou uma maior diversificação.”

O pesquisador do J.P.Morgan afirma ainda que há a expectativa de que o Fed anuncie novos cortes nas taxas de juros nos próximos meses, o que pode reduzir o apelo do dólar para os investidores.

Com juros menores nos EUA, os rendimentos de títulos americanos caem, e os investidores podem buscar países com juros maiores, o que aumenta a oferta de dólar no mercado e faz seu valor cair.

O Fed normalmente reduz a taxa de juros quando a economia está em dificuldades e a aumenta se o ritmo de alta dos preços começar a acelerar demais.

As autoridades do banco central americano há muito tempo indicam que esperam reduzi-las em algum momento deste ano, seguindo os passos de outros bancos centrais, incluindo o do Reino Unido.

Mas eles têm adiado a redução por muito mais tempo do que o previsto, preocupados com o impacto das tarifas e outras novas políticas do governo Trump, incluindo cortes de impostos, na economia.

Há ainda cada vez mais setores acusando o presidente americano de interferência no banco central americano, algo que também pode afastar investidores.

O presidente americano chegou a ameaçar demitir o chefe do Fed, Jerome Powell embora tenha dito recentemente que não considerava mais tal medida necessária.

Nesta semana, Trump anunciou que demitiria Lisa Cook, uma das diretoras do Fed e membro do comitê de 12 membros responsável por definir as taxas de juros nos EUA. Ele a acusa de fraude em um contrato imobiliário pessoal.

Cook, que tem mandato previsto para durar até 2038, contesta a ordem de Trump, dizendo que ele não tem autoridade para isso, e se nega a pedir demissão. Seu advogado anunciou na terça-feira (26/08) um processo na Justiça contra a ordem do republicano, indicando uma longa disputa judicial sobre a questão.

Trump também atacou o Fed por demorar muito para cortar as taxas de juros, afirmando que a medida ajudaria o governo a economizar dinheiro no pagamento da dívida pública e impulsionariam o mercado imobiliário.

O presidente minimizou ainda nos últimos meses as preocupações de que suas tarifas pudessem elevar os preços ou prejudicar o crescimento do país.

Brics e desdolarização

Há ainda quem considere que a desconfiança em relação ao dólar data de antes da maior parte das sanções ou do tarifaço e suas consequências.

“Começa nos anos de 2008 e 2009, quando uma crise financeira tem origem no mercado americano e leva a economia internacional a uma pequena recessão e, desde então, os países desenvolvidos a uma certa estagnação econômica”, aponta Fernanda Brandão, do Mackenzie.

“Essa crise é simbólica e importante porque apontou ou mostrou as vulnerabilidades em se depender do dólar como a moeda global.”

Segundo Brandão, depois desse momento, o mundo passou a ter mais clareza sobre o fato de que qualquer perturbação na economia americana que altere as políticas monetárias colocadas em práticas pelo Fed e pela Casa Branca pode gerar “consequências que vão afetar outras economias”.

E, segundo a especialista, é a partir daí que surgem os primeiros movimentos políticos encabeçados por nações em desenvolvimento em prol da desdolarização.

Atualmente, o bloco Brics é visto como a principal força dessa corrente. O grupo era até pouco tempo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, mas se expandiu com a entrada de 10 novos membros desde 2024.

Para Fernanda Brandão, o fato de muitos países emergentes terem sofrido as consequências da crise financeira de 2008, apesar da crise ter começado nos EUA, fez com que o Brics adotasse uma política de desdolarização desde sua criação.

“A partir dali ficou muito claro que existe uma vulnerabilidade causada pela dependência em relação ao dólar”, diz Brandão.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou seus desejos de desdolarização do comércio global durante a última cúpula do Brics, em julho no Rio de Janeiro.

“Acho que o mundo precisa encontrar um jeito de que a nossa relação comercial não precise passar pelo dólar. Quando for com os EUA, ela passa pelo dólar. Quando for com a Argentina ou China, não precisa. Ninguém determinou que o dólar é a moeda padrão. Em que fórum foi determinado?’, disse Lula.

Na ocasião, o presidente brasileiro afirmou ainda que a substituição de dólar no comércio internacional é “uma coisa que não tem volta, vai acontecer até que seja consolidada”.

O Brics já ampliou o uso das moedas nacionais de seus membros no comércio interno, em especial da chinesa. E a Rússia vem impulsionando o estabelecimento de uma plataforma digital própria para pagamentos, em uma tentativa de minimizar os impactos das sanções internacionais.

O bloco também discute a criação de uma moeda própria. Nada oficial foi anunciado até agora, mas as tratativas já foram vistas como uma ameaça pelo governo americano.

Trump já afirmou que o grupo é “um ataque ao dólar” e usou a participação da Índia no bloco como um agravante para a imposição de tarifas mais altas às exportações do país no Estados Unidos.

“Eles têm o Brics, que é basicamente um grupo de países que são anti-Estados Unidos”, disse o presidente americano no final de julho. “É um ataque ao dólar, e não vamos deixar ninguém atacar o dólar.”

Qual o plano de Trump?

Dentro do governo Trump, parece haver perspectivas conflitantes e por vezes contraditórias sobre o que o domínio do dólar significa para os interesses políticos dos EUA, dizem analistas.

Por um lado, com suas declarações sobre os Brics e alternativas de pagamentos globais, Trump trata o papel internacional da moeda como um símbolo do nacionalismo americano e de sua estratégia de “America first” (América em primeiro lugar, em português).

Uma lei aprovada em julho nos Estados Unidos, que regulamenta as “stablecoins” com valor fixo em relação ao dólar, parece servir esse plano.

Essas criptomoedas são projetadas para manter paridade com o valor do dólar e oferecer mais estabilidade dentro do ecossistema cripto. Por isso, dizem alguns economistas, elas podem ampliar ainda mais a preponderância da moeda americana no sistema financeiro mundial.

Por outro lado, com sua política tarifária, Trump arrisca minar o domínio do dólar, segundo Fernanda Brandão, do Mackenzie.

Especula-se na imprensa e no mercado que esse pode ser exatamente seu objetivo, seguindo uma corrente dentro da Casa Branca que prega que a força da moeda americana pode estar impedindo o avanço da indústria americana, como aponta em um artigo recente o centro de estudos de relações internacionais Atlantic Council.

Essa ideia é defendida principalmente por Stephen Miran, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos do governo americano que foi recentemente nomeado por Trump para o Conselho de Governadores do Fed.

Em um artigo publicado em 2024, Miran afirma que por conta de sua posição como reserva mundial, o dólar “está persistentemente supervalorizado”, levando a desequilíbrios comerciais e prejudicando os próprios cidadãos dos EUA.

A demanda global por dólares, segundo este argumento, aumenta seu valor, encarecendo os produtos fabricados nos EUA — o que, por sua vez, gera déficits comerciais persistentes, e incentiva os fabricantes americanos a transferir a produção para o exterior, destruindo empregos locais.

Outros assessores de Trump também já defenderam a ideia de que um enfraquecimento do dólar poderia tornar as exportações americanas mais competitivas no mercado internacional, uma vez que ficam mais baratas para os compradores estrangeiros. Ao mesmo tempo, os produtos importados que entram nos EUA aumentariam de preço.

“Trump não quer um dólar forte porque isso aumenta as importações”, afirmou Gabriela Siller, diretora de análise econômica do grupo financeiro BASE, com sede no México, em junho à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.

Uma teoria é que Trump tem um plano com vários de seus principais conselheiros — o chamado “Acordo Mar-a-Lago”, que teria sido proposto por Miran, com o objetivo final de obrigar os parceiros comerciais dos EUA a desvalorizar o dólar americano no mercado internacional, aponta Anthony Zurcher, correspondente da BBC na América do Norte.

Tal medida tornaria as exportações americanas mais acessíveis aos mercados estrangeiros e diminuiria o valor das grandes reservas de moeda americana da China.

Mas ideias defendidas por Miran e outros assessores de Trump não são bem aceitas por uma parcela dos economistas.

“O plano de Miran, por mais astuto que pareça, se baseia em um diagnóstico equivocado”, escreveu Kenneth Rogoff, professor de economia e políticas públicas da Universidade de Harvard, nos EUA, e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Embora a função do dólar como principal moeda de reserva do mundo tenha um papel importante, o economista observa que “este é apenas um dos muitos fatores que contribuem para os persistentes déficits comerciais dos EUA”.

E, se o déficit comercial tem várias causas, “a ideia de que as tarifas podem ser uma panaceia é, na melhor das hipóteses, duvidosa”, acrescenta.

É importante ressaltar que, a rigor, o presidente não controla diretamente o valor do dólar em relação a outras moedas porque a taxa de câmbio flutua livremente.

Washington não pode intervir diretamente para fazer a moeda subir ou descer, já que seu valor é determinado por um vasto mercado global de divisas, e são os grandes investidores que compram ou vendem dólares de acordo com suas expectativas.

No entanto, a política econômica do governo dos EUA envia sinais ao mercado, e isso influencia a evolução do valor do dólar e outros fatores importantes, como as taxas de juros.

Dólar ainda ‘é rei’

Mas os últimos acontecimentos não são um sinal do fim da hegemonia da moeda americana na visão de parte dos analistas.

Para alguns dos especialistas consultados pela BBC News Brasil, o início do fim do dólar ainda não chegou. “A afirmação de que estamos vivendo o começo do fim do dólar é prematura”, diz Robert McCauley, da Universidade de Boston.

Apesar de uma retração em alguns setores, a moeda ainda impera quando falamos de transações em comércio internacional. E segundo a grande maioria dos analistas, não há no momento nenhuma outra capaz de substituí-la.

“A dolarização provavelmente continuará, mas o que vai limitá-la, a velocidade com que ela pode se desenvolver, é o fato de que ‘para onde ir em vez disso’, certo? Não há muitas outras moedas líquidas ou países nos quais você pode investir facilmente ou com um mercado de liquidez profunda”, afirma Luis Oganes.

Mesmo a moeda chinesa, que tem crescido e sendo usada por muitos bancos centrais para reservas, não tem ainda força suficiente ainda para substituir o dólar, segundo os especialistas.

Além disso, os depósitos bancários em dólar americano cresceram em muitos países emergentes na última década, indicando uma tendência de busca pela moeda americana em momentos de estresse econômico.

Há ainda quem argumente que mesmo países como Rússia e China, que promovem a discussão sobre a desdolarização, tem dificuldade de se desvincular totalmente do dólar americano.

“Me impressiona o quão lenta a desdolarização foi na Rússia, apesar da clara intenção do governo de reduzir sua exposição ao dólar americano”, diz Robert McCauley.

“Acredito que isso se deve ao fato de o setor privado não ser facilmente persuadido a abandonar o uso do dólar como forma de empréstimo e transação, mesmo em detrimento da moeda nacional.”

O especialista afirma ainda que a China não tem usado todo o potencial de seus empréstimos ou projetos de infraestrutura em países em desenvolvimento em meio à Iniciativa Cinturão e Rota para impulsionar alternativas à moeda americana.

“As autoridades chinesas parecem estar satisfeitas em conceder empréstimos pelo Banco de Exportação-Importação da China [China Eximbank] e pelo Banco de Desenvolvimento da China (CDB) a países africanos e asiáticos em dólar”, diz McCauley.

“Há uma excelente oportunidade para desdolarizar as contas externas da China, mas que não tem sido aproveitada.”

Fonte: BBC

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Comércio Exterior

Trump ameaça retaliação a países que taxarem big techs

Em post, no X, Trump disse que imporá tarifas e restrições a países que adotarem impostos e regras contra empresas de tecnologia dos EUA

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump afirmou nesta segunda-feira (25/8), em postagem, no X [antigo Twitter], que retaliará países que adotarem impostos e regulações contra as big techs.

“Como presidente dos Estados Unidos, defenderei nosso incrível setor de tecnologia contra países que o atacarem. Impostos digitais, legislações de serviços digitais e regulações de mercados digitais são todos elaborados para prejudicar ou discriminar a tecnologia americana. Eles também, de forma ultrajante, dão passe livre às maiores empresas de tecnologia da China. Isso precisa acabar, e acabar agora! Com esta verdade, coloco todos os países com impostos digitais, legislações, regras ou regulações em aviso de que, a menos que essas ações discriminatórias sejam removidas, eu, como presidente dos Estados Unidos, imporia tarifas adicionais substanciais sobre as exportações desse país para os EUA e instituiria restrições de exportação sobre nossa tecnologia e chips altamente protegidos. A América e as empresas americanas de tecnologia não são mais o ‘cofrinho’ nem o ‘capacho’ do mundo.”

A taxação das big techs foi cogitada pelo governo Lula como possível resposta ao tarifaço imposto às exportações brasileiras.

Em julho, no 60º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), Lula declarou: “Não aceitamos que ninguém se meta nos nossos assuntos internos. Vamos responder como democratas: cobrando imposto das empresas digitais americanas”.

Advogado de Trump reage a fala de Gilmar

Em publicação também nesta segunda-feira, o ministro Gilmar Mendes (STF) sustentou que a soberania digital deve ser prioridade estratégica imediata para o Brasil. Ele argumentou que o país vive uma “dependência crítica de infraestrutura digital controlada por empresas estrangeiras” e afirmou ser necessário superar essa vulnerabilidade.

Horas depois, o advogado Martin De Luca, que representa a Trump Media e a plataforma Rumble, respondeu à postagem do ministro.

“@gilmarmendes obrigado por deixar claro que as máscaras estão caindo. Gilmar achou que seria uma boa ideia lançar luz sobre a manobra silenciosa. Segundo o decano do STF, o Brasil deve pôr fim ao ‘neocolonialismo digital’ e à dependência de plataformas norte-americanas.”

Fonte: Metrópoles

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Comércio Exterior, Exportação

Alckmin: tarifaço de Trump afeta 3,3% das exportações brasileiras

Vice-presidente diz que crise vai passar e não desistirá de negociação

O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou neste sábado (23) que o Brasil vai superar a crise comercial aberta com as tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos (EUA) e lembrou da menor dependência em relação ao mercado norte-americano, comparado a décadas passadas.

“Vai passar. Na década de 1980, era 24% a nossa exportação para os EUA, praticamente um quarto das exportações brasileiras. Hoje, é 12%. E o que está afetado é 3,3%. Isso é o que está afetado no tarifaço”, observou o vice-presidente, que também é ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, durante participação em debate sobre conjuntura política promovido pelo Partido dos Trabalhadores (PT), em Brasília.

Alckmin lembrou que, no momento, cerca de 36% das exportações aos EUA são as mais afetadas pela tarifa de 50%, e que elas atingem de forma mais preocupante alguns setores da indústria de manufatura, como máquinas e equipamentos e indústria têxtil.

“Indústria de máquinas, equipamentos, calçados e têxtil. Esses são os que sofrem mais. Porque comida, [como] carne, se eu não vendi lá, eu vou ter outros mercados. Não vai cair o mundo. Café, se eu não vendi lá, vou vender em outro lugar. Agora, produto manufaturado é mais difícil de você realocar. Acaba realocando, mas demora um pouco mais”, pontuou o vice-presidente, que vem atuando como o principal negociador do Brasil nessa questão.

“Não vamos desistir de baixar essa alíquota e tirar mais produtos”, insistiu o vice, ao lembrar que cerca nem todo produto exportado pelo Brasil foi sobretaxado. Cerca de 42% deles ficaram de fora da alíquota de 50%, enquanto outros 16% foram incluídos em taxas que atingem outros países na mesma proporção, como é o caso do aço, alumínio e cobre.

Como alternativa, ressaltou Alckmin, o país deverá expandir mercados, com a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, que pode ocorrer até o fim do ano, além de outras tratativas, como o acordo do Mercosul com o EFTA (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça), Singapura e Emirados Árabes Unidos.

Alckmin também destacou as medidas anunciadas pelo governo federal para reduzir os impactos negativos causados aos exportadores brasileiros com o tarifaço, como abertura de linha de crédito, suspensão de tributos incidentes sobre insumos importados (drawback) e aumento do percentual de restituição de tributos federais a empresas afetadas.

No âmbito internacional, o vice-presidente citou a reclamação aberta pelo governo brasileiro na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as tarifas norte-americanas e prevê que o caso pode chegar também a tribunais dos EUA. “Você não pode usar política regulatória por razões partidárias, políticas”, comentou.

Fonte: Agência Brasil

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Comércio Exterior

“Lula deveria falar com o presidente Trump”, diz novo presidente da Fiesc sobre tarifaço

Ao assumir a presidência da Federação das Indústrias de SC, Gilberto Seleme estreia com o grande desafio do tarifaço. Ele acredita que a solução depende de conversa direta entre os presidentes dos dois países

Primeiro industrial do Oeste catarinense eleito presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), o empresário Gilberto Seleme, de Caçador, assume o cargo em posse solene nesta sexta-feira (22), às 19h, na sede da entidade, em Florianópolis. Mas desde o dia 08, quando recebeu as funções executivas do antecessor Mario Cezar de Aguiar, vem trabalhando e articulando intensamente na busca de soluções para o tarifaço de 50% dos Estados Unidos. Em entrevista exclusiva para o NSC Total, ele afirmou que a solução para esse impasse é o presidente Lula falar com o seu par americano, Donald Trump.

– O presidente Lula deveria falar como presidente Trump. E nós precisamos ser humildes porque apenas 1,1% das importações dos Estados Unidos vêm do Brasil. Para eles, somos pequenos; mas para nós, os Estados Unidos são muito grandes – enfatizou Gilberto Seleme.

Engenheiro civil graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Gilberto Seleme sucede o também engenheiro civil Mario Cezar de Aguiar, e tem como primeiro vice-presidente André Odebrecht, de Rio do Sul. Para a Fiesc, a estratégia da nova diretoria é dar continuidade ao trabalho aplaudido da administração anterior, de Aguiar, da qual o novo titular da entidade era primeiro vice-presidente.

Gilberto Seleme destaca que a gestão que vai liderar priorizará o associativismo, a educação e infraestrutura, além de uma ação social voltada ao trabalhador. A ênfase aos investimentos em educação no Senai e no Sesi continuará.

Nascido em Caçador, filho do industrial Elias Seleme, o novo presidente da Fiesc tem 70 anos, é casado com Cristiane Costa Ganz Seleme e o casal tem três filhos, Gilberto, Gustavo e Guilherme. Também graduado em Administração pela UnC Caçador, ele é acionista do grupo Seleme, que atua com indústrias nos setores de madeira, construção civil, couro, calçados e gelatina. Ele tem, também, relevante trajetória no associativismo e na área social. Confira a entrevista a seguir: 

O que representa para o senhor presidir a Federação das Indústrias de Santa Catarina?
– Para mim, é uma honra presidir a Federação das Indústrias de Santa Catarina, que representa todas as indústrias. Nós temos uma organização fantástica na educação, especialmente com o Sesi e o Senai, além da área de Saúde do Trabalhador. Temos uma equipe excelente e me sinto muito confortável, pois fui vice-presidente por sete anos ao lado do presidente Mario Cezar Aguiar. Estamos dando continuidade ao planejamento estratégico que foi elaborado anos atrás.

O senhor assume no meio de uma crise sem precedentes, que é o tarifaço de 50% dos Estados Unidos contra produtos brasileiros. Como recebeu essa informação num primeiro momento e como está enfrentando essa situação agora?
– É, de fato, um momento difícil para o Brasil. Assumi já no primeiro dia tentando amenizar esse problema para o empresário catarinense, principalmente para quem exporta uma fatia significativa da sua produção para os Estados Unidos. A Fiesc, junto com a CNI e outras associações setoriais, como a de móveis e madeira, setores muito fortes em Santa Catarina, está atuando intensamente. Fizemos reuniões com o consulado americano e com as forças sindicais de Santa Catarina porque precisamos envolver também os trabalhadores nessa negociação. Realizamos encontros em Brasília com senadores e deputados, e a Fiesc está cumprindo seu papel de forma intensa com a equipe que temos aqui. Inclusive, estamos patrocinando equipes e escritórios nos Estados Unidos para nos ajudar nesse processo.

Na sua avaliação, qual seria o pior cenário e qual o melhor cenário para essa crise?
– O pior cenário é as tarifas perdurarem por mais de 90 dias. As empresas não terão tempo hábil para buscar novos mercados com os produtos e maquinários que possuem. No aspecto trabalhista, muitas já deram férias e fizeram o que podiam. Se passar de 90 dias, teremos grande dificuldade em certas regiões de Santa Catarina, não digo um colapso, mas problemas sérios.

O melhor cenário seria uma redução das tarifas para a faixa de 10% a 15%. Não estamos pedindo a volta ao patamar zero, mas algo nessa faixa já seria suportável. Outros países enfrentam tarifas médias em torno de 20%, mas nós temos o chamado “custo Brasil”, que eles não têm. Agora, tarifas de 40% ou 50% nenhuma indústria suporta por muito tempo. Talvez por um mês, mas não além disso. Aí é melhor fechar.

O senhor é acionista de um grupo exportador para os Estados Unidos. Isso ajuda a enxergar a crise de uma forma diferente? A saída é buscar novos mercados?
– Sim. Faço parte de um grupo extremamente exportador, que vende para mais de 16 países. Mas temos uma planta voltada exclusivamente para os Estados Unidos, que trabalha com madeira. Isso me dá mais segurança para discutir o problema, porque sinto na prática. Converso todos os dias com nossos clientes (nos EUA). Eles querem o produto, mas não conseguem pagar a taxa. Por isso, estamos mobilizando esses clientes para que pressionem seus deputados, senadores e governo, pois também precisam de nós. Não podem trocar de fornecedor de uma hora para outra. Isso me ajuda bastante a lidar com esse tarifaço.

As madeiras que vocês exportam não entraram nas exceções?
– Não. A lista contemplou apenas uma madeira tropical, bruta e restrita a uma região, provavelmente incluída por interesse de alguém com grande influência. A madeira que produzimos no Sul é de reflorestamento, exótica, totalmente certificada e sustentável. Temos uma cadeia completa, da tora à serraria, da fábrica à exportação, e todas as certificações ambientais. Portanto, nossa madeira deveria estar na lista de exceções, e não a madeira da Amazônia.

E a madeira de vocês é usada para quê?
– Principalmente na construção civil: móveis, molduras, portas, compensados, MDF. São florestas renováveis e certificadas, ecologicamente corretas. Uma cadeia que deveria ter sido incluída nas exceções.Já enviamos MDF pronto, portas prontas, molduras, rodapés, vistas, tudo que compõe uma casa. Se os Estados Unidos mantiverem essa taxa, a construção civil deles ficará mais cara, porque não têm indústria capaz de produzir no volume que o Brasil exporta.

Agora vamos falar sobre a gestão do senhor na Fiesc, o futuro da entidade. Quais serão as prioridades?
– Vamos seguir as diretrizes traçadas pela diretoria do presidente Mario Cezar de Aguiar, mas com foco em três pilares: associativismo, educação e infraestrutura, além de uma ação social voltada ao trabalhador. O associativismo é fundamental porque os sindicatos são nossos sócios e representantes da indústria.

Santa Catarina tem um parque industrial grande e diversificado, espalhado por todas as regiões. Precisamos que os sindicatos tragam os anseios locais dos empresários. Na educação, contamos com Sesi e Senai, que hoje atuam desde a educação infantil até a faculdade. Antes, formávamos apenas mão de obra para a indústria. Hoje, formamos cidadãos: profissionais liberais, pequenos empreendedores ou colaboradores de grandes empresas.

A educação é o caminho para transformar a sociedade, porque proporciona qualidade de vida e melhores condições para o trabalhador. Na infraestrutura, enfrentamos um gargalo histórico em Santa Catarina. Isso não é culpa apenas do governo atual, mas do acúmulo de décadas. Os investimentos são muito altos. Defendemos a privatização das rodovias e ferrovias, assim como já ocorre com os portos. A curto prazo, precisamos de soluções paliativas. Se for preciso pagar pedágio, que seja, mas com garantia de previsibilidade: saber a hora que saímos e a hora que chegamos.

O senhor defende a privatização, também, de rodovias estaduais?
– Nosso maior gargalo está nas rodovias federais: BR-470, BR-280, BR-101, BR-116, BR-153, entre outras. As estaduais ligam a malha federal e têm menor fluxo, por isso poucas despertariam interesse de investidores. Mas, se for necessário para melhorar, e o estado não tiver condições, também defendo a privatização das estaduais. Por ora, a prioridade são as federais.

Mesmo com os esforços, a falta de trabalhadores qualificados segue sendo um desafio em Santa Catarina. Como enfrentar esse problema?
– A indústria cresce mais rápido do que a qualificação profissional. Uma fábrica pode ser montada em dois anos, mas a formação exige mais tempo de banco escolar. Vivemos praticamente em pleno emprego. Por isso, Sesi e Senai precisam manter um “estoque” de alunos preparados, para que no futuro não falte mão de obra qualificada. Nos preocupa também que, com esse tarifaço, empresas exportadoras demitam profissionais já qualificados. Outras empresas podem absorver essa mão de obra, e depois, quando a situação melhorar, ela não estará mais disponível. Estamos pedindo soluções que evitem a dispensa desses trabalhadores.

Por isso vocês estão encaminhando aquele pedido ao Congresso Nacional, para tentar manter o trabalhador na indústria moveleira durante a crise?
– Sim. Ele precisa continuar, porque se estamos com falta de mão de obra e eu mandar embora, nunca mais conseguiremos essa mão de obra de volta. E muitas indústrias estão em cidades pequenas, o que agrava a situação. Quando o trabalhador sai da cidade, dificilmente retorna, e a empresa não consegue mais operar. Estamos alertando sobre isso. Inclusive, estamos elaborando um plano de emergência no Sesi e no Senai, que será divulgado nos próximos dias, para qualificar os trabalhadores, oferecer consultoria e ajudar as indústrias naquilo que o Sesi e o Senai podem fazer. Tudo subsidiado pelo Sesi e Senai, como nossa contrapartida de apoio ao setor.

Então, enquanto a empresa aguarda uma decisão do governo americano, ao invés de dispensar, vocês vão oferecer cursos aos trabalhadores?
– Exatamente. Estamos ampliando os cursos. Pelo que sabemos, parte desse custo pode ser até bancada pelo próprio governo. Além disso, vamos oferecer consultorias e apoio. Também estamos trabalhando para abrir mercados. Em breve haverá uma feira no Paraguai, onde a Fiesc estará presente com estande para identificar oportunidades. Quem sabe uma empresa consegue vender lá um produto que já fabrica aqui. Esse é o papel da Fiesc: ajudar o empresário catarinense, seja ele grande, médio ou pequeno. O grande normalmente vai sozinho, mas os médios e pequenos precisam de mais suporte.

Como a sua gestão vai incentivar a inovação da indústria?
– Vamos dar continuidade ao que a Fiesc está fazendo. A inovação está acontecendo de forma muito rápida, e para a empresa ser competitiva nesse mercado globalizado precisa inovar. Cabe a nós oferecer as ferramentas para que isso aconteça. E inovar não é apenas adquirir máquinas novas. Pode ser repensar um layout, melhorar o transporte de materiais. Temos institutos que apoiam essas iniciativas. A inteligência artificial, por exemplo, está chegando com força e precisamos estar preparados.

A Fiesc tem forte atuação em projetos sociais e voltados à saúde. Esse trabalho também continua?
– Sim, com certeza. A saúde do trabalhador é essencial. Uma máquina, basta comprar e fazer manutenção. Já o ser humano pode estar com boa saúde física, mas sofrer de pressão psicológica, problemas familiares ou outros desafios.

Ele precisa chegar ao trabalho com energia, sem trazer esses problemas junto. Durante a pandemia, nosso discurso era de que o local mais seguro era dentro da empresa, porque ali havia protocolos. Queremos agora ir além e alcançar também a casa do trabalhador. Muitas vezes, o problema de saúde dele está no ambiente em que vive.

Como o senhor avalia o atual momento da economia catarinense e de que forma o governo estadual poderia colaborar mais com o setor produtivo?
– A economia catarinense vinha bem, mas agora um dos pneus furou, e vamos precisar trocá-lo para continuar no mesmo ritmo. O governador Jorginho e suas secretarias mantêm diálogo próximo com a Fiesc. Eles nos escutam, pedem nossa opinião. Onde há indústria, há desenvolvimento, e Santa Catarina é um estado industrializado. Claro que o governo estadual tem limitações orçamentárias e enfrenta burocracia. Na infraestrutura, por exemplo, não há como fazer grandes obras a curto prazo. Mas o governador assumiu conosco o compromisso de não aumentar impostos e tem cumprido. É fundamental que essa postura se mantenha.

O senhor citou que um dos pneus (da indústria de SC) furou. Qual foi?
O do tarifaço. Das exportações para os Estados Unidos. Isso impacta cerca de 800 mil pessoas apenas no setor de madeira.

Quem são essas 800 mil pessoas?
– São as que atuam em toda cadeia da madeira. Desde quem leva o trabalhador até a floresta, passando pelo que corta a árvore, quem prepara o almoço, o caminhoneiro que transporta, o frentista que abastece, o operador da serraria, até chegar à fábrica de móveis. Cada elo dessa cadeia sofre o impacto. E, quando as famílias veem a renda comprometida, começam a cortar despesas, primeiro o supérfluo, depois outros gastos. Isso gera uma retração em cascata na economia. Portanto, o impacto não é apenas nos 15% de tarifa. Ele se espalha por toda a cadeia produtiva.

E sobre a economia brasileira? O que o governo federal poderia fazer mais pela indústria?
– O Brasil vive um momento complicado. O governo federal não tem dado um rumo claro e, muitas vezes, passa a impressão de estar estimulando a desindustrialização. O Congresso também não se acerta, o que gera insegurança para investimentos.

Pesquisa que realizamos mostra que o empresário está inseguro para investir. As ações do governo em apoio à indústria são tímidas. Abre-se uma linha de crédito pequena, que em poucos dias já se esgota. É preciso olhar mais para a indústria, porque é ela que sustenta os trabalhadores. O trabalhador não quer esmola, quer emprego digno. Quer ganhar pelo que produz. Portanto, o governo precisa ter uma política mais firme de apoio à indústria, que é a base da geração de empregos.

O senhor comentou que o governo talvez esteja com uma política que acaba incentivando a desindustrialização. Poderia detalhar mais isso?
– O governo está dando incentivo para quem traz produtos de fora e não para quem produz aqui no Brasil. Esse tarifaço, por exemplo, precisava de uma resposta rápida. Mas o governo agiu de forma muito lenta e ainda enviou para negociar pessoas sem poder de decisão. Quem vai negociar precisa ter autonomia para dizer sim ou não, atribuir valores e fechar acordos. O que aconteceu foi apenas uma conversa. Se de um lado há um negociador e do outro apenas alguém que conversa, não se chega a resultado algum. Precisamos de dois negociadores, cada um defendendo sua parte, até chegar a um acordo.

Quem deveria ter negociado, na sua visão?
– Isso é coisa de presidente para presidente.

Então, na sua opinião, o presidente Lula teria que falar diretamente com Donald Trump?
– Exatamente, o presidente Lula deveria falar como presidente Trump. E nós precisamos ser humildes, porque apenas 1,1% das importações dos Estados Unidos vêm do Brasil. Para eles, somos pequenos; mas para nós, os Estados Unidos são muito grandes. Por isso, devemos aceitar certas regras do jogo, agir com humildade, e depois buscar outros mercados.

Mas não era o momento de entrar nessa guerra de narrativas. Hoje não se sabe mais quem fala pelo Brasil. E, para os Estados Unidos, que sempre foram grandes parceiros, o Brasil parece um pequeno que quer cutucar. Para eles, tanto faz. Trump não está preocupado com o Brasil. E, infelizmente, o governo brasileiro não está preocupado com as indústrias.

Nem com o desemprego que isso pode causar?
– Exatamente, não está preocupado.

O senhor acredita que o governo não percebe o tamanho do impacto desse tarifaço?
– Não percebe. Em determinadas regiões e segmentos, isso pode se tornar devastador. Para ter uma ideia: o produto de madeira que as fábricas catarinenses produziam já está sendo feito na Ásia. Isso significa que estamos gerando emprego e riqueza para eles. Hoje, nosso concorrente nos Estados Unidos é a Ásia, que exporta pagando 20% de tarifa, enquanto nós enfrentamos 50%. Assim não há como competir.

Será durante a sua gestão à frente da Fiesc que vai ser implantada a reforma tributária. Qual sua avaliação sobre essa mudança tão esperada pelo setor industrial?
– A reforma era necessária. Para Santa Catarina, em alguns aspectos, ela traz perdas. Entre as empresas, há divergências: para umas é positiva, para outras não. Mas o país precisava avançar. Com a prática, muitos que acreditavam que seria ruim podem perceber benefícios, e vice-versa. Ela pode ser ajustada ao longo do tempo. Vejo espaço para uma “reforma da reforma”.

Um ponto que considero equivocado é a manutenção da zona franca de Manaus. Estamos levando matéria-prima do Sul para lá, industrializando e trazendo de volta, apenas multiplicando custos de frete. Seria mais inteligente criar polos de incentivo em outras regiões, inclusive em Santa Catarina. Por exemplo, poderíamos ter uma zona franca em Imbituba, nos moldes da de Manaus. Mas ninguém mexe nesse modelo, e seguimos estimulando algo que não faz mais sentido nem ambiental nem econômico. O ideal seria manter a Amazônia preservada e criar alternativas em outros pontos do país.

Fonte: NSC Total

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Mercado Internacional

Produtores americanos dizem que China trocou soja dos EUA pela do Brasil e pedem ajuda a Trump

Grupo pede a remoção das tarifas chinesas sobre o grão americano e compromissos de compras futuras

A maior entidade de agricultores de soja dos EUA, a American Soybean Association (ASA), enviou uma carta ao presidente americano, Donald Trump, solicitando que o governo do país dê prioridade à soja nas negociações com a China. Os EUA têm perdido participação no comércio do grão para o Brasil nos últimos anos.

No texto, o grupo pede a remoção das tarifas chinesas sobre a soja americana e compromissos de compras futuras. A ASA afirma que a China, historicamente, importa mais de 60% do suprimento mundial de soja, com os EUA sendo a principal fonte. No entanto, as tarifas retaliatórias fizeram a soja americana ficar 20% mais cara que a sul-americana. Por isso, ‘a China recorreu ao Brasil, que expandiu a produção para atender à demanda’.

“Os produtores de soja dos EUA estão à beira de um precipício comercial e financeiro”, disse o presidente da ASA, Caleb Ragland, produtor de soja do Kentucky, na carta. “Os produtores de soja estão sob extremo estresse financeiro. Os preços continuam caindo e, ao mesmo tempo, nossos produtores estão pagando significativamente mais por insumos e equipamentos. Os produtores de soja dos EUA não podem sobreviver a uma disputa comercial prolongada com nosso maior cliente”, diz o texto.

“Cada dia sem um acordo corrói ainda mais a participação de mercado dos agricultores americanos na China”, disse Ragland. “Instamos veementemente o governo a garantir um acordo que reabra este mercado vital para a soja americana.”

De acordo com a agência de notícias Reuters, que cita informações da alfândega chinesa, 10 milhões de toneladas de soja foram importadas do Brasil em julho, 13,9% mais que no mesmo mês do ano anterior. Por outro lado, a compra dos produtos americanos caiu 11,5%.

A vendas para a China em julho fizeram as exportações brasileiras de soja alcançarem um recorde histórico para o mês, somando 12,25 milhões de toneladas embarcadas, conforme levantamento da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

No acumulado de janeiro a julho de 2025, o Brasil já exportou 77,2 milhões de toneladas da oleaginosa, marca inédita para o período e que consolida o país como principal fornecedor global. Desse total, 57,9 milhões de toneladas foram embarcadas para a China.

Fonte: Globo Rural

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Comércio Exterior

Como tarifa de Trump sobre café brasileiro está tirando o sono de importadores nos EUA

Durante décadas, o café entrava nos EUA praticamente isento de impostos. Mas agora o café do Brasil, que é o maior fornecedor do produto aos EUA, está no rol de produtos com tarifa de 50% — devido ao tarifaço imposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

As tarifas de Trump estão pressionando uma indústria que gera mais de um milhão de empregos nos EUA e estão prestes a provocar também um aumento nos preços da bebida comprada pelos americanos.

Um produto popular nos EUA é o blend de cafés, que depende de grãos brasileiros. E ele também está exposto ao imposto de importação de 50% ao produto brasileiro.

Peter Longo é importador de café em Nova York. Sua empresa, a Puerto Rico Importing Company, trabalha no ramo desde 1907.

Ele calcula que os americanos que estiverem pagando cerca de US$ 15,99 por libra do café brasileiro — o equivalente a R$ 194 por quilo — passariam a pagar US$ 8 a mais com as tarifas de Trump.

Com esse aumento, o preço poderia subir para próximo de US$ 24 por libra — o equivalente a mais de R$ 290 por quilo.

“Isso é uma loucura. As pessoas não vão comprar café por quase US$ 30 a libra (o equivalente a US$ 66 por quilo ou R$ 365 por quilo). Isso é ridículo. Isso vai matar o mercado americano para o café brasileiro, que é, eu acho, o propósito disso tudo. Eles querem punir o Brasil por seja lá qualquer motivo e estão impondo uma tarifa draconiana.”

“Tirando o sono”

Trump diz querer reformular a ordem do comércio global com sua política tarifária, cobrando de importadores como Peter Longo uma taxa para trazer produtos de outros países como o Brasil.

O objetivo do presidente americano é tornar os produtos importados mais caros, para que os produtos locais fiquem mais competitivos e eventualmente acabem derrotando os estrangeiros na preferência dos consumidores.

Isso, por sua vez, estimularia maior produção de bens e geração de empregos localmente nos EUA.

“Mais produção doméstica significará maior concorrência e preços mais baixos para os consumidores”, disse Trump ao justificar sua política de tarifas.

Mas o problema, no caso do café, é que o produto não é cultivado nos EUA.

E nem pode ser. O café é uma fruta tropical que cresce em uma estreita faixa de terra ao redor do Equador.

Nos EUA, o café é cultivado em algumas partes do Havaí e Porto Rico e em uma pequena parte do sul da Califórnia. E isso não é nem de longe suficiente para abastecer as 450 milhões de xícaras de café que os americanos bebem todos os dias.

Por isso praticamente todo café bebido nos EUA precisa ser importado.

E é por isso que as tarifas sobre os países produtores de café — e especialmente as tarifas de 50% sobre o Brasil, que fornece cerca de um terço de todo o café consumido nos EUA — são impactantes para pessoas que importam e vendem localmente o café, como Longo.

“Estou terrivelmente estressado. Isso me tira o sono porque você tem que tentar descobrir uma maneira de gerenciar seu fluxo de caixa para antecipar o que está por vir”, diz o importador americano.

Os riscos eram altos antes mesmo de as tarifas serem anunciadas. Em fevereiro, o preço global do café do tipo arábica atingiu seu ponto mais alto já registrado. Embora tenha caído um pouco desde então, o café torrado custava aos consumidores americanos 15% a mais no mês passado do que no ano anterior.

Tudo isso coloca pressão sobre importadores como Longo.

“É assim que eu ganho a vida. Se tivermos que encolher, encolheremos. E se tivermos que encolher a ponto de falir, não há nada que eu possa fazer a respeito. Faremos o melhor que pudermos.”

Mas ele aposta que aquela xícara de café da manhã é algo pelo qual as pessoas continuarão pagando, mesmo que custe mais.

“Eu preciso de três espressos duplos só para conseguir funcionar. E sei que meus clientes são muito ritualizados quando se trata de seu café. Eles gostam. É algo que eles aguardam ansiosamente no dia. Então, não acho que o café vá desaparecer.”

Sede americana por café

A sede por café entre os americanos é enorme. O país é o maior importador e consumidor global da bebida, e também o maior destino das exportações brasileiras do produto.

Dois terços dos adultos americanos bebem café todos os dias, segundo dados da Associação Nacional de Café dos EUA. Cada americano que bebe café consome em média três xícaras por dia.

E essa sede vem crescendo. O consumo de café entre americanos cresceu 7% desde 2020. E o consumo de café gourmet cresceu 18%.

O café brasileiro é fundamental para abastecer as xícaras americanas.

Os EUA são o maior comprador dos cafés do Brasil, segundo dados dos primeiros sete meses deste ano divulgados este mês pelo Conselho de Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).

No período, os EUA importaram 3,713 milhões de sacas — o que corresponde a 16,8% das exportações brasileiras.

Existe uma corrida do setor do café no Brasil para tentar negociar com os EUA a inclusão do produto brasileiro na longa lista de exceções ao tarifaço de Trump.

Isso porque, graças aos estoques de importadores, os efeitos dos tarifaços ainda estão limitados por algum tempo.

“Até julho, não observamos de fato o impacto do tarifaço de 50% do governo dos EUA imposto para a importação dos cafés do Brasil, já que a vigência da medida começou em 6 de agosto”, diz Márcio Ferreira, presidente do Cecafé.

Mas os impactos do tarifaço poderão ser sentidos em breve, se não houver sucesso nas negociações.

“A partir de agora, as indústrias americanas estão em compasso de espera, pois possuem estoque por 30 a 60 dias, o que gera algum fôlego para aguardarem um pouco mais as negociações em andamento. Porém, o que já visualizamos são eventuais pedidos de prorrogação, que são extremamente prejudiciais ao setor.”

* Com reportagem de Erin Delmore, da BBC News em Nova York

Fonte: BBC

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Exportação

Tarifaço de Trump pode zerar exportações de tilápia após embarques crescerem 52% no primeiro semestre

O primeiro semestre de 2025 trouxe resultados positivos e desafios significativos para a piscicultura brasileira, de acordo com a PEIXE BR. No mercado interno, o setor manteve o ritmo de crescimento esperado, impulsionado pelo aumento da oferta e pela redução de preços ao consumidor em comparação ao mesmo período de 2024.

Nos embarques internacionais, a atividade registrou um crescimento de 52% nas exportações, principalmente de filé fresco para os Estados Unidos. A expectativa era desse volume aumentar ao longo do ano e o Brasil liderar os envios, porém, o anúncio recente do governo americano alterou as projeções.

“Devido à tarifa de 50% e à falta de ação do governo brasileiro em negociar, teremos um segundo semestre com exportações próximas de zero. Isso agravará a crise no mercado interno, diante do aumento da oferta e, principalmente, da entrada de filé de tilápia do Vietnã, que deve piorar ainda mais a situação”, enfatiza o presidente da PEIXE BR, Francisco Medeiros.

Queda de 14,6% nos preços da tilápia

Conforme destaca Medeiros, o consumo de tilápia se mantém estável, devido ao crescimento contínuo da produção da espécie. No entanto, a redução na produção de tambaqui e de peixes de pesca nativa tem limitado a expansão do consumo geral de pescado no Brasil.

No recorte de preços, o mercado brasileiro de tilápia enfrentou um cenário desafiador no primeiro semestre de 2025, impulsionado por mudanças importantes em relação ao mesmo período de 2024.

De acordo com o coordenador de Pecuária e Tilápia do Cepea/Esalq, Thiago Bernardino de Carvalho, a média do preço da tilápia no período foi de R$8,04/kg, uma queda nominal de 14,6% em comparação aos R$9,42/kg registrados no primeiro semestre de 2024. Ao mesmo tempo, o peso médio dos animais comercializados aumentou 11,1%, passando de 921 gramas para 1.023 gramas, indicando uma oferta maior de tilápias mais pesadas no mercado.

“Embora tenha havido uma leve redução no custo da ração, que caiu 2,9% (de R$2,78/kg para R$2,70/kg), essa diminuição não foi suficiente para compensar a pressão sobre as margens dos produtores. A margem bruta média nas propriedades acompanhadas pelo Cepea caiu 45,5%, passando de R$2,82 para R$1,54 por quilo comercializado”, ressalta Carvalho.

Além disso, foi observado um crescimento expressivo de 18,7% no alojamento de alevinos e juvenis, puxado principalmente pela atuação das cooperativas, o que sinaliza expectativas de aumento na produção futura.

Exportações crescem 52% nos primeiros meses de 2025

No comércio internacional, o setor registrou resultados positivos. Segundo o coordenador o pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura, Manoel Pedroza, as exportações da piscicultura brasileira aumentaram 52% no primeiro semestre de 2025, comparado com o mesmo período de 2024, atingindo US$ 36 milhões e 8 mil toneladas.

“A tilápia foi protagonista, representando 95% do total exportado no semestre, consolidando sua posição como principal peixe cultivado e comercializado internacionalmente pelo Brasil”, compartilha Carvalho.

Como destaque de país comprador, os Estados Unidos continuam como o principal destino das exportações da piscicultura brasileira, representando cerca de 90% do total exportado no primeiro semestre de 2025, totalizando US$ 32 milhões. “O Peru foi o segundo principal importador no período, com US$ 1,8 milhão”, ressalta Pedroza.

Importações do Vietnã geram preocupações no setor

A importação de tilápia de outros países, especialmente do Vietnã, tem gerado preocupações entre os produtores brasileiros e representantes da cadeia produtiva da aquicultura nacional.

Segundo o coordenador de Pecuária e Tilápia do Cepea/Esalq, os peixes importados chegam ao mercado brasileiro com preços muito inferiores aos praticados internamente, podendo ser considerado dumping, o que pode inviabilizar economicamente a produção nacional, comprometendo a sustentabilidade de diversas propriedades e cooperativas locais.

“De forma extremamente negativa, a importação de filé de tilápia do Vietnã demonstra a inabilidade do governo brasileiro com o setor, mesmo tendo um ministério que deveria gerir o setor. O Vietnã tem procedimentos na indústria que são proibidas aqui nas indústrias brasileiras e, com isso, perdemos competitividade”, alerta o presidente da PEIXE BR.

Para contornar esse cenário, neste momento, o setor tem realizado ações visando minimizar os riscos sanitários e econômicos ligados à importação de tilápia do Vietnã, evitando possíveis danos a cadeia produtiva e aos consumidores, diz o pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura.

Cenário desafiador para o segundo semestre

Na avaliação de Medeiros, a combinação de importações liberadas e a suspensão das exportações de filé de tilápia para os Estados Unidos gera incerteza para o setor. “Nos próximos 12 meses, a cadeia produtiva da tilápia no Brasil enfrentará grandes desafios tanto no mercado interno quanto externo”, salienta.

Em relação ao desempenho doméstico, o principal desafio está em aumentar o consumo per capita da tilápia. Para isso, destaca Carvalho, será fundamental a diversificação do mix de produtos, estratégia que vem sendo bem conduzida por indústrias e varejistas nos últimos anos.

No cenário internacional, o tarifaço dos EUA terá um grande impacto nas exportações brasileiras da piscicultura no segundo semestre de 2025, principalmente na cadeia da tilápia, gerando grandes desafiados no setor.

Neste contexto, a abertura de novos mercados externos será fundamental para assegurar a competitividade internacional da cadeia. “Para isso o setor precisará realizar um grande esforço para entrar em novos países e investir na exportação de produtos congelados, os quais respondem pela maior parte do comércio internacional de peixes como a tilápia”, afirma o coordenador de Pecuária e Tilápia do Cepea/Esalq.

Apesar das dificuldades, especialistas acreditam que há potencial de valorização do produto nacional, desde que políticas públicas e investimentos em infraestrutura permitam maior competitividade frente aos concorrentes internacionais.

Fonte: Comex do Brasil

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Comércio Exterior

Na surdina, Trump amplia tarifa sobre metais – e surpreende empresários

Nova tarifa apareceu oficialmente no sistema alfandegário só nesta terça, após ter entrado em vigor um dia antes, até mesmo para mercadorias em trânsito

O presidente Donald Trump surpreendeu o setor de logística ao expandir suas tarifas sobre aço e alumínio para abranger mais de 400 itens de consumo que contêm esses metais, como motocicletas e utensílios de mesa. Corretoras alfandegárias e importadores nos Estados Unidos tiveram pouco tempo para se preparar para a mudança, que entrou em vigor na segunda-feira sem exceções para mercadorias em trânsito.

A nova lista de produtos sujeitos a tarifas foi divulgada pela agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP, na sigla em inglês) justamente quando muitos profissionais deixavam o trabalho para o fim de semana e só apareceu oficialmente no Federal Register na terça-feira, criando novas dores de cabeça para especialistas em comércio exterior. A orientação oficial tem sido confusa, sobretudo no caso de mercadorias já a caminho dos EUA, e ainda não está claro se as tarifas sobre metais se somam às tarifas impostas país a país.

Após seis meses de guerra comercial sob Trump e de uma pandemia que provocou fortes rupturas na cadeia de suprimentos, é difícil abalar transportadoras, donos de carga e intermediários que mantêm o comércio internacional funcionando. Mas a abrangência e a velocidade de implementação deste último anúncio pegaram muitos de surpresa.

“Temos vivido várias implementações de última hora ao longo de 2025, mas essa, em especial, afeta enormemente todos os meus clientes”, disse Shannon Bryant, corretora alfandegária em Michigan, em entrevista.

“Nos anúncios anteriores, pelo menos havia isenções para mercadorias já em trânsito, o que permitia aos importadores tomar decisões de compra razoáveis”, acrescentou Bryant, presidente da consultoria Trade IQ. “Esta foi única nesse sentido — é realmente um ‘pegadinha’.”

A lista inclui autopeças, produtos químicos, plásticos e componentes de móveis — demonstrando o alcance da autoridade de Trump para aplicar tarifas setoriais. Isso é separado do poder executivo que ele invocou para as chamadas tarifas “recíprocas”.

“Basicamente, se é brilhante, metálico ou remotamente relacionado a aço ou alumínio, provavelmente está na lista”, escreveu Brian Baldwin, vice-presidente de alfândega nos EUA da gigante de logística Kuehne + Nagel, em uma postagem no LinkedIn. “Isso não é apenas mais uma tarifa — é uma mudança estratégica na forma como derivados de aço e alumínio são regulados.”

Custos de compliance

A dificuldade de aplicar tarifas a produtos derivados está em determinar qual porcentagem do item é composta pelos materiais-alvo.

A Flexport, empresa de transporte digital, afirmou em um blog que, “para muitas marcas, isso significa correr atrás de fornecedores para obter dados detalhados: peso do alumínio, percentual do valor aduaneiro e país de fundição/refino”.

“O peso regulatório é significativo”, disse a empresa.

Esta rodada de tarifas também é particularmente ampla, abrangendo itens como motocicletas, equipamentos de movimentação de carga, cadeirinhas infantis, utensílios de mesa e produtos de cuidados pessoais em recipientes ou embalagens metálicas.

Jason Miller, professor de gestão da cadeia de suprimentos na Universidade Estadual de Michigan, estima de forma conservadora que as tarifas sobre metais agora cubram cerca de US$ 328 bilhões em mercadorias, com base em dados de importação de 2024. Isso é seis vezes mais do que em 2018 e um salto em relação aos US$ 191 bilhões em produtos cobertos antes da mudança, disse ele em e-mail à Bloomberg News.

O apelo dos corretores

Bryant, cuja clientela inclui importadores de cosméticos e utensílios de cozinha profissionais, enviou uma carta a parlamentares em Washington na segunda-feira alertando que a complexidade das tarifas sobrepostas está se tornando impossível de administrar, mesmo para especialistas. “Para pequenos importadores”, escreveu, “é inviável.”

“Estou tentando pensar em um cliente que não tenha sido afetado”, disse ela. “São empresas americanas, que empregam americanos, sendo surpreendidas pelo próprio governo.”

Trump impôs tarifas sobre aço e alumínio pela primeira vez em 2018, com o objetivo de estimular a produção doméstica ao tornar mais caro para os americanos comprar material estrangeiro.

Mas vários fornecedores importantes, incluindo Canadá, México e União Europeia, acabaram isentos, e indústrias dos EUA afirmam que ainda enfrentam dificuldades para competir com importados.

Aplausos da siderurgia

Em junho, Trump cumpriu uma promessa de campanha ao dobrar a alíquota sobre aço e alumínio para 50% e também solicitou feedback da indústria sobre como expandi-la ainda mais.

Lourenco Goncalves, CEO da siderúrgica americana Cleveland-Cliffs Inc., elogiou a ampliação da lista de tarifas em um comunicado na segunda-feira, agradecendo à administração Trump por “tomar uma ação decisiva e concreta que vai coibir a evasão de tarifas que ocorre diante de nossos olhos com produtos derivados de aço inoxidável e elétrico.”

E provavelmente vem mais por aí. No fim de julho, o governo Trump impôs uma tarifa de 50% sobre importações de cobre semimanufaturado avaliadas em mais de US$ 15 bilhões e ordenou que autoridades elaborassem um plano para aplicar tarifas a uma série de outros produtos intensivos em cobre.

“Isso não acabou”, disse Pete Mento, diretor global de alfândega da DSV, em uma postagem nas redes sociais na segunda-feira. “A próxima lista certamente será sobre cobre e espero que seja igualmente dolorosa.”

Fonte: InfoMoney

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Comércio Exterior

EUA querem impor solução constitucionalmente impossível para o Brasil

Declaração é do ministro da Fazenda, Fernando Haddad

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse hoje (18), que o Brasil continua buscando manter um diálogo com os Estados Unidos (EUA) para tentar reduzir a aplicação da tarifa de 50% às exportações brasileiras. No entanto, afirmou ele, a negociação não tem sido possível porque os Estados Unidos insistem em impor ao Brasil uma solução “constitucionalmente impossível”. Para o ministro, está ocorrendo “uma dificuldade de compreensão do que se passa no Brasil”.

“Hoje nós temos documentos oficiais demonstrando que a negociação só não ocorre porque os Estados Unidos está tentando impor ao Brasil uma solução constitucionalmente impossível, que é Executivo se imiscuir em assuntos de outro poder, que é o Poder Judiciário. Nós não temos uma situação constitucional que nos permita, política e juridicamente, atuar no caso. Então, gerou-se um impasse que é pedir o que não pode ser entregue”, disse.

Segundo o ministro, o comércio bilateral entre os dois países já representa hoje metade do que foi nos anos 80 e a tendência é que continue caindo ainda mais.

“Nós tínhamos exportações da ordem de 25% com os Estados Unidos, hoje elas significam 12% e, pelo andar dos acontecimentos, eu acredito que o comércio bilateral, infelizmente, vai cair ainda mais”, disse.

Na manhã de hoje, Haddad participou da cerimônia de abertura do evento FT Climate & Impact Summit Latin America e Brasil 2030: Uma Nação de Oportunidades, promovido pelo Times Brasil/NBC, em parceria com o Financial Times, em São Paulo.

Durante a entrevista ao canal de TV, o ministro também disse que o cancelamento da reunião que ele teria com o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, foi provocado por interlocutores da extrema-direita brasileira. Ele ressaltou que o ministério tem todos os documentos para comprovar as tratativas com o governo americano e detalhou que o encontro com Scott Bessent, em maio, havia sido positivo.

“[Foi uma reunião] excelente. Agora, o que mudou de maio para julho, tem que ser perguntado para eles”.

Segundo ele, causou estranhamento o fato de a reunião ter sido cancelada e, no mesmo momento em que ela ocorreria, Bessent ter aparecido conversando com um “concorrente” do governo brasileiro [no caso, o deputado federal Eduardo Bolsonaro]. Para Haddad, cada país tem uma maneira de proceder em situações como essa, mas disse que jamais cancelaria uma reunião que tivesse sido agendada.

“Eu nunca faria cometeria uma deslealdade dessa com um homólogo meu de outro país, por mais hostil que o outro país fosse. Se eu marquei um compromisso, eu cumpro”.

Mais tarde, em entrevista a jornalistas, Haddad comentou que a família do ex-presidente Jair Bolsonaro tem trabalhado “para impedir que as negociações se estabeleçam”. E que, neste momento, o governo brasileiro está trabalhando para regulamentar o plano de contingência para apoiar o setor produtivo afetado pelo tarifaço de 50% imposto pelo governo dos Estados Unidos. O plano de apoio prevê R$ 30 bilhões em crédito e será viabilizado por meio de uma medida provisória chamada de MP Brasil Soberano.

“A tarefa dessa semana é regulamentar o plano de contingência, fazer chegar na ponta os recursos liberados e proteger o Brasil dessa agressão externa”, disse a jornalistas.

Para o ministro, o plano de contingência “está bem calibrado” e não precisará ser ampliado.

“Se o cenário se confirmar, eu não vejo razão para ampliar. Mas vamos ver o desdobramento da coisa. Nesse momento, eu devo dizer que não”.

Globalização

Para Haddad, o atual movimento do governo Trump, inclusive com a imposição de novas tarifas, indica que os Estados Unidos decidiram “mudar o jogo” da globalização.

“Eles venderam para o mundo a globalização, com desregulamentação financeira, a descentralização das atividades produtivas, o ganho de eficiência que isso ia gerar, a acumulação flexível. E aí, quando eles perceberam que eles ganharam muito, mas que a China ganhou ainda mais, aí [decidiram] ‘vamos melar o jogo’, ‘vamos mudar o jogo’”, destacou.

Segundo o ministro, os Estados Unidos ganharam muito com a globalização, mas enfrentaram um “desafio inesperado” e decidiram “mudar as regras do jogo”.

Confira reportagem do Repórter Brasil Tarde, da TV Brasil, sobre os impactos do tarifaço no setor têxtil

Fonte: Agência Brasil

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