Economia

Saída de dólares do Brasil deve diminuir no fim do ano

A saída sazonal de dólares do Brasil no final do ano deve ser menos intensa do que em 2024, quando a taxa de câmbio atingiu a marca recorde de R$6,30. Economistas e operadores de tesouraria ouvidos pelo Valor acreditam que a pressão será mais administrável desta vez.

Eles destacam o ambiente mais favorável no mercado de derivativos — principalmente contratos futuros de dólar, que desempenham papel fundamental na definição das taxas de câmbio — como um fator que pode prolongar a tendência positiva observada ao longo de 2025. Enquanto isso, embora o balanço de pagamentos já esteja significativamente negativo, é improvável que se deteriore além do padrão sazonal típico do quarto trimestre. Como resultado, as saídas podem não atingir os US$26,4 bilhões registrados em dezembro de 2024.

As condições deste ano são melhores do que em 2024: a incerteza sobre o cenário fiscal do Brasil foi postergada para 2027; não há mais questionamentos sobre o início de uma nova administração nos EUA; e a corrida presidencial brasileira provavelmente não afetará os mercados antes de março ou abril do ano que vem”, afirmou Marcos da Fonseca, chefe de mercados do Bradesco. “Diante desse contexto, não há motivo para que o dólar chegue a R$6,30 como aconteceu em dezembro passado.”

Banco Central espera cenário mais tranquilo

O Banco Central também indicou na semana passada que não prevê uma repetição do estresse do ano passado. “O Banco Central claramente possui planos de contingência para diferentes cenários, incluindo um como o que vimos no ano passado. Mas esse não é o meu caso base em nenhuma circunstância”, disse Nilton David, diretor de Política Monetária do BC, em evento na quinta-feira (9).

Ele acrescentou que a sazonalidade de fim de ano normalmente afeta o mercado à vista — o fluxo real de dólares físicos — e não o câmbio em si. “É uma sazonalidade de fluxos à vista, não de preços”, explicou, destacando que os derivativos, onde o câmbio é efetivamente definido, representam um mercado muito maior.

“Uma pesquisa recente do BIS [Banco de Compensações Internacionais] mostra que cerca de 90% das negociações em real brasileiro ocorrem no mercado de derivativos. Globalmente, essa participação é próxima de 50%”, acrescentou.

Fluxos especulativos e volatilidade

Apesar de uma perspectiva mais otimista, os fluxos de derivativos são movidos por posicionamento especulativo e podem se reverter rapidamente. Na semana passada, por exemplo, o aumento das tensões globais, principalmente entre EUA e China, afetou o real, que também sofreu com preocupações sobre fragilidade no mercado de crédito.

O real foi a moeda com pior desempenho entre as 33 mais negociadas. À medida que o sentimento global piorou, questões locais que antes eram negligenciadas começaram a influenciar os preços com mais força.

O que me preocupa é que se algo inesperado acontecer no exterior e o dólar se fortalecer globalmente, o real sofrerá porque nossos fundamentos são fracos”, disse Marcos De Marchi, economista-chefe da Oriz Partners. “É quando a liquidez global seca que se percebe quem tem fundamentos fortes e quem não tem.”

De Marchi explicou que as altas taxas de juros reais do Brasil continuam sustentando o real, mas também refletem problemas mais profundos. “O carry trade permanece atraente. As taxas de juros reais estão entre 7% e 8%. Não há outro lugar no mundo com essas taxas. Isso mantém o ‘hot money’ no Brasil, mas também é consequência de uma política fiscal muito expansionista”, afirmou.

Marcos da Fonseca, do Bradesco, acrescentou que preocupações fiscais ainda podem limitar a valorização do real, mesmo que o Federal Reserve continue reduzindo os juros nos EUA. “Por um lado, o risco fiscal não representa a mesma ameaça de 2024. Por outro, ainda não está resolvido a ponto de eliminar a cautela em relação aos ativos locais.”

Ele explicou que, embora a queda dos juros nos EUA combinada com uma alta Selic normalmente favoreça a entrada de capital no Brasil, a incerteza global, especialmente em relação à política comercial americana, e dúvidas sobre o cenário fiscal brasileiro podem neutralizar esses efeitos.

Balança comercial pressionada

Embora menos influentes que os derivativos, os fluxos à vista continuam importantes e, em casos extremos, podem forçar ajustes no preço do câmbio, especialmente quando alteram o posicionamento especulativo.

E esses fluxos já estão sob pressão. Dados do Banco Central mostram que, até o fim de setembro, o Brasil já registrava US$17,4 bilhões em saídas líquidas em 2025 — 95% do total de 2024 — antes de entrar no quarto trimestre, que normalmente é o pior período para fluxos externos.

O desempenho deste ano reflete exportações mais fracas e saídas financeiras significativas.

“O suprimento de commodities tem sido forte, o que pressiona os preços para baixo”, disse Felipe Kotinda, economista do Santander. “Brasil e EUA tiveram grandes safras de soja. A produção global de petróleo também aumentou. E a demanda chinesa por minério de ferro está desacelerando, o que impacta os preços de metais.”

“Do lado das importações, a demanda interna forte leva famílias a comprarem mais bens de consumo e empresas a importarem mais bens de capital, o que deve pressionar a balança comercial nas próximas leituras.”

Luís Afonso Lima, chefe de pesquisa da Mapfre Investimentos, afirmou que a conta comercial continuará sob pressão até o fim do ano. “Este é geralmente o período em que o PIB é mais forte, e a indústria importa mais para atender à demanda de final de ano”, explicou.

No campo financeiro, ele observou que a natureza das saídas de capital mudou. “Em 2024, os investidores estrangeiros saíram. Este ano, são os brasileiros enviando dinheiro para o exterior. Estrangeiros até estão voltando, enquanto locais investem mais fora.”

Lima citou dois possíveis motivos: maior acesso a investimentos no exterior por meio de plataformas bancárias e a valorização do real. “A ideia é que o dólar mais barato apresenta oportunidade. O que antes era mais caro agora é mais acessível, estimulando a diversificação de portfólio.”

De Marchi concordou e acrescentou uma terceira explicação: mudança geracional. “Houve troca de lideranças empresariais e na gestão de patrimônio nos últimos anos. Os novos decisores estão mais informados e entendem a importância de diversificar e internacionalizar ativos.”

Apesar dos riscos de saída de capital, economistas apontam dois fatores que podem reduzir a pressão em dezembro: apostas online e repatriação de lucros.

A regulamentação das apostas online resultou em mais dinheiro permanecendo no Brasil, apoiando os fluxos no último trimestre.

Quanto à repatriação de lucros, Kotinda afirmou que a atividade econômica mais fraca pode levar empresas a enviar menos recursos para o exterior. “No final de 2024, as empresas tiveram lucros maiores e enfrentaram mais incerteza, então maximizaram transferências como precaução. Este ano, a atividade não surpreendeu tanto, e os cenários doméstico e global estão menos pressionados pelo risco.”

FONTE: Valor International
IMAGEM: Ana Paula Paiva/Valor

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