Economia

Fronteiras viram termômetro da economia entre Brasil, Argentina e Paraguai

Reportagem do La Nación mostra como o câmbio afeta o comércio, o turismo e até a saúde na região da tríplice fronteira.

A tríplice fronteira não é um tema frequente na grande imprensa argentina. Mas, neste sábado (05), a edição do jornal La Nación, de Buenos Aires, traz uma reportagem de Erica Gonçalves que conseguiu captar como funciona a economia onde os três países se encontram.

A primeira constatação dela é o que qualquer um já percebeu: “As oscilações econômicas e a cotação das moedas determinam o ritmo de vida e as filas na tríplice fronteira”.

Já na fronteira do Brasil com a Argentina, ela viu que uma longa fila de pessoas aguardava para entrar no país vizinho, depois de fazer compras em Foz e em Ciudad del Este. “Sacolas de supermercado enchiam os porta-malas.”

O tráfego intenso, no horário em que ela passou, fazia com que os procedentes de Ciudad del Este levassem uma hora e meia para chegar à fronteira argentina.

A Argentina, hoje, tem uma oscilação de preços que faz com que os produtos adquiridos no Brasil se tornem mais atrativos.

“No Brasil, a carne pode custar a metade (do preço na Argentina); algumas frutas e verduras chegam a ser 70% mais baratas. No Paraguai, roupas e artigos para casa têm até 60% de diferença — o mesmo ocorre com alguns produtos em Foz do Iguaçu. Na gastronomia, cruzar a fronteira pode representar uma economia de até 30%”, contou a jornalista.

Segundo ela, melhores preços, atendimento profissional e restaurantes mais acessíveis levam todos os que vivem ou circulam pela região a comprar em Ciudad del Este e Foz.

Com Pix

Dalila, de 30 anos, moradora de Puerto Iguazú, contou a Erica que, uma vez por mês, vem a Foz e compra tudo o que precisa. Ela estava no Max Atacadista de Foz. “Aqui é muito mais barato: uma compra mensal me custa $220.000, enquanto lá a semanal sai por $120.000. Pago com Pix, que é como o Mercado Pago do Brasil”, contou, complementando que todos que têm carro, em Puerto Iguazú, fazem o mesmo.

“O ritmo das fronteiras muda conforme o câmbio”, afirmou Marcelo, argentino que mora em Ciudad del Este há mais de 15 anos.

“Eu cruzo todos os dias para levar passageiros e aproveito para comprar o que falta no dia. Levo de tudo porque vale metade”, disse Ezequiel, taxista de Puerto Iguazú, enquanto também fazia compras no Max Atacadista.

“Na alfândega, se for para consumo familiar, não tem problema.” Ele e sua esposa ainda se impressionam com as diferenças de preço: “5 kg de arroz aqui no Brasil custam R$17, ou $3.400 pesos argentinos. Na Argentina, 1 kg custa $2.200. A cartela de ovos em Foz sai por $4.400, e em Puerto, $7.300.”

Ele lembrou que, até um ano e meio atrás, Misiones estava cheia de brasileiros e paraguaios. “Agora os supermercados têm prateleiras vazias. O negócio ficou restrito aos turistas.”

Inversão

O gerente de uma multinacional americana lembrou que, “até uns oito meses atrás, todos cruzavam para Puerto Iguazú para comprar comida, jantar e abastecer. Agora mudou: é o lugar mais caro dos três”. “Hoje são os missioneiros que cruzam para fazer compras, e a fila mais crítica é a de saída. As fronteiras na região são um termômetro.”

Os táxis argentinos cobram cerca de $50.000 (R$ 218,00) para ir até Foz e voltar para Puerto com o porta-malas cheio. “Mesmo com esse custo, ainda vale a pena: a maioria dos produtos aqui (em Foz) custa a metade”, disse um taxista.

A jornalista do La Nación observou também que os paraguaios são fregueses dos supermercados de Foz. “Aqui é 30% mais barato”, disse a paraguaia Carolina, enquanto colocava as compras no carro. Ela afirmou que quase não vai mais para Puerto Iguazú. “Não vale mais a pena comprar lá.” Segundo ela, o controle migratório argentino desestimula: “É muita burocracia, e isso faz a gente perder tempo. A fila não compensa.”

“Hoje, 50% dos nossos clientes vêm do Paraguai e da Argentina”, disse Vinicius, funcionário do Max Atacadista. “Costumam vir bem cedo ou no fim do dia. O número de argentinos aumentou bastante depois da desvalorização do real. Eles compram de tudo”, afirmou.

Diante dos preços brasileiros, o setor de supermercados de Misiones se transformou. Ramón, com 20 anos de trabalho no supermercado Capicüa, contou que 80% das vendas vêm do turismo e que, hoje, os moradores de Puerto Iguazú compram apenas o necessário para o dia. “Os brasileiros ainda vêm comprar vinhos e itens finos. Antes levavam sem olhar o preço. Agora comparam.”

Para os missioneiros, os bons preços do Brasil e do Paraguai vão além dos supermercados e da eletrônica. “Em Ciudad del Este tem tênis falsificado com bom preço. Casacos de frio por US$20 e roupas de cama de qualidade”, disse Marisa, de Puerto Iguazú. Susana prefere o setor têxtil: “Compro roupas em Foz.” Os ônibus que vão a ambas as cidades tornam o deslocamento fácil.

Diana, dona da Mia Mía Boutique, em Puerto Iguazú, admite que as vendas caíram nos últimos seis meses. “Os preços do Brasil nos afetam muito. Só conseguimos manter o negócio porque temos clientes fiéis”, afirmou.

Liliana, funcionária do tradicional restaurante La Rueda, reconhece que a clientela da tríplice fronteira diminuiu. “Temos muitos clientes brasileiros, mas é verdade que, depois da pandemia, o movimento local caiu. Hoje, nosso foco são os turistas”, disse.

O restaurante 4 Sorelle, em Foz, atrai clientes da região. “Cerca de 20% vêm do Paraguai e da Argentina. É um número importante para nós: 90% deles são clientes habituais.”

Os vendedores da Feirinha de Puerto Iguazú — um mercado com produtos locais — dizem que a inflação pós-pandemia e a desvalorização do real afetaram os negócios. “Os clientes sempre dizem que antes era mais barato”, relatou Silvia, da Barraca Daloira.

O vinho argentino ainda é valorizado no Brasil. “Alguns compram por R$230 para revender por R$1.000”, disse Clara, funcionária da Argentinian Wine.

Ciudad del Este

Logo após o controle migratório paraguaio, começa o centro de Ciudad del Este, valorizado por quem busca preços baixos. Ao contrário das outras cidades, ela possui um regime aduaneiro especial, quase como uma zona franca. Os preços baixos são resultado de tarifas de importação reduzidas ou até nulas.

Trocas de moeda ocorrem o tempo todo. “Aqui tem de tudo, entendeu? De tudo mesmo”, disse Manuel, um cambista de 68 anos. “Por dia, passam cerca de 500 brasileiros e 300 argentinos. Muitos são moradores da tríplice fronteira.”

Os preços de Ciudad del Este atraem comerciantes do Brasil e da Argentina, mas as regulações impõem limites. “Em Foz só é permitido trazer até cinco peças iguais. Alguns contratam ‘passadores’ para levar o excedente”, disse uma vendedora de óculos.

Na Argentina, as compras não podem passar de US$300, e há quem contrate transporte irregular. “Custa US$35 para cruzar mercadoria de barco.”

“Nossos produtos custam 50% a mais no Brasil e o dobro na Argentina”, disse Luis, da Nasser Cubiertas (cubierta, em espanhol, é pneu). O mesmo ocorre com autopeças e artigos para casa.

Alguns setores sentiram o impacto das mudanças econômicas. “No inverno, os brasileiros vinham buscar casacos, mas agora diminuíram. O dólar está mais caro para eles”, disse Rosa, da loja Shopping Berlín. Atualmente, 15% dos clientes são de Puerto Iguazú.

Willy, de Santa Terezinha de Itaipu, cruza todos os dias para trabalhar como gerente na perfumaria Elegancia, em Ciudad del Este. “Muitos brasileiros trabalham no comércio paraguaio. No Brasil ganham R$1.500; no Paraguai, R$2.400.” No Brasil, os paraguaios dominam o setor da construção civil.

Empresários brasileiros também instalam seus negócios em Ciudad del Este. Ayham, há 25 anos no Paraguai, tem loja no Shopping Vendôme: “70% dos funcionários são de Foz. Só quatro são paraguaios.”

Nahiara, 18 anos, paraguaia, cursa Medicina na Universidade Privada do Este. “Na minha turma somos 123; só 30 são paraguaios, o resto é brasileiro.” Ela destaca que muitas universidades se instalaram ali para atender brasileiros.

Nataly, de Ciudad del Este, estuda Odontologia em Foz: “Busquei uma formação de qualidade”, e já precisou cruzar a ponte a pé para não perder aula.

Saúde

“Paraguaios e brasileiros não vêm mais comprar remédios aqui porque estão caros”, disse Natalia, da Macrofarma, em Puerto Iguazú. “Antes levavam tudo, agora parou. Depois da pandemia, os preços dispararam.”

Um analgésico que, na Argentina, custa US$2 sai por US$0,75 no Paraguai.

Farmácias de Foz confirmam: “Temos muitos clientes argentinos. Dizem que os preços lá estão 200% mais altos”, disseram funcionários da São João.

A saúde é motivo vital para cruzar a fronteira. “Vou tirar documentos argentinos para operar o joelho lá”, disse Daniel, de uma empresa de logística no Paraguai. “É mais barato, e os médicos são melhores. A saúde pública no Paraguai morreu.”

“Paraguaios com documentos brasileiros se tratam em Foz, e os com documentos argentinos, em Puerto Iguazú ou Eldorado”, disse Claudia, motorista de aplicativo. Muitos com câncer tentam tratamento fora. “Em Misiones há muito controle. Em Foz, cobram R$2.000 para simular que paraguaios vivem com eles e tenham acesso ao SUS.”

Foz atrai os de maior poder aquisitivo. “Famílias levam os filhos a pediatras de Foz. Também consultam oftalmologistas e ginecologistas lá”, disse Cecilia, moradora temporária do Paraguai.

“Os exames são bons. Quando o real está barato, compensa fazer os testes no Brasil”, completou.

Ezequiel, o taxista, confirmou: “Os ricos de Misiones se tratam em Foz. E também quem tem convênio com cobertura no Brasil”.

Fonte: Portal da Cidade

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