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Acordos comerciais impulsionam mercados, mas competências produtivas sustentam o desenvolvimento

O comércio internacional passa por uma transformação estrutural, marcada por maior incerteza, avanço de barreiras comerciais e fragmentação das regras globais. Estudos sobre ciclos econômicos de longo prazo indicam que a rivalidade entre Estados Unidos e China tende a inaugurar um período prolongado de restrições ao comércio, e não a encerrá-lo, a exemplo do que ocorreu no fim do século XIX, quando tarifas elevadas se espalharam a partir das grandes potências.

Acordos ganham valor em um cenário de fragmentação

Nesse contexto, acordos comerciais construídos ao longo do tempo e sustentados por instituições sólidas passam a ter relevância estratégica para a indústria. Caso sejam concluídos os trâmites para sua entrada em vigor, o acordo Mercosul–União Europeia pode oferecer um ambiente mais previsível e seguro, com oportunidades distintas para diferentes perfis de exportadores.

Ainda assim, o caminho para o desenvolvimento econômico não está na simples ampliação dos volumes exportados. O avanço consistente depende da sofisticação produtiva e da capacidade de capturar valor ao longo das cadeias industriais.

Duas rotas possíveis para a inserção internacional

Uma das rotas naturais abertas pelo acordo é a das cadeias de valor baseadas em commodities, essenciais para a indústria, mas estruturalmente limitadas como motor de desenvolvimento. A outra, mais estreita e exigente, envolve a captura de valor industrial por meio da hipersegmentação de mercados, especialmente diante da demanda europeia por bens manufaturados e semimanufaturados mais sofisticados.

Para acessar essa via, escala e custo deixam de ser suficientes. As empresas precisam incorporar engenharia, padronização, certificações, rastreabilidade, sustentabilidade verificável e diferenciação de produto, atributos que dependem de investimentos produtivos, decisões estratégicas e coordenação ao longo das cadeias.

Globalização criou a base, mas o potencial segue subutilizado

Apesar de a globalização ter revolucionado a logística internacional, com avanços no transporte aéreo, sistemas de frio e coordenação digital, esse potencial segue amplamente subexplorado. Hoje, tornou-se viável atender mercados europeus exigentes em poucos dias, inclusive com produções especializadas e perecíveis, algo impensável no passado.

Esse cenário abre espaço para capturar mais valor e dinamizar setores de tecnologia madura, por meio de estratégias voltadas a nichos altamente exigentes, fortalecendo o desenvolvimento regional e promovendo melhor distribuição de renda ao longo das cadeias produtivas.

Competências não surgem automaticamente com o acordo

A construção dessas competências, no entanto, não é automática nem resulta apenas do acesso preferencial ao mercado europeu. Ela exige coordenação estratégica, intencionalidade clara e atuação conjunta de empresas, associações setoriais e políticas públicas, com foco explícito em aumentar o valor por unidade exportada.

Elementos como inovação aplicada, engenharia de precisão, design, padronização sanitária e governança de cadeia são fruto de escolhas deliberadas e investimentos persistentes. Sem esse esforço, o acordo tende apenas a reforçar padrões já existentes de especialização; com ele, pode se tornar um instrumento real de transformação produtiva.

Experiências internacionais mostram o caminho

A Dinamarca se tornou referência na produção de alimentos funcionais ao integrar pesquisa nutricional, design de produto e políticas públicas voltadas à inovação e à sustentabilidade. A articulação entre universidades, indústrias e distribuidores permitiu a criação de produtos com alto valor agregado, baseados em confiança científica e identidade de marca.

A Áustria seguiu trajetória semelhante ao transformar sua vocação florestal em vantagem competitiva global. Investimentos em engenharia da madeira, certificações ambientais e design converteram recursos naturais em soluções construtivas e mobiliário de alto padrão, com forte valor agregado.

Modelos comparáveis podem ser observados na produção de lácteos na Nova Zelândia, que migrou de um enfoque puramente volumétrico para produtos diferenciados e ingredientes premium.

Oportunidades e desafios para o Brasil

No Brasil, já existem sinais positivos em iniciativas como cafés especiais no Paraná, cacau no sul da Bahia, além de potencial claro em frutas frescas, vinhos, queijos e móveis. O desafio central não é apenas explorar vantagens comparativas naturais, mas evitar ficar prisioneiro delas.

Em um comércio global mais fragmentado, o acordo com a União Europeia pode funcionar como catalisador para a construção deliberada de competências produtivas voltadas a mercados nichados e exigentes. A oportunidade só será plenamente aproveitada se o país desenvolver cadeias de valor capazes de transformar recursos naturais em bens sofisticados, com maior valor agregado e melhor distribuição de renda. Sem esse salto qualitativo, o Brasil pode até exportar mais, mas seguirá se desenvolvendo pouco.

FONTE: FIESC
TEXTO: Redação
IMAGEM: Freepik

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Comércio Exterior

FCCE celebra 75 anos e defende transição do Brasil para exportações de maior valor agregado

A Federação das Câmaras de Comércio Exterior (FCCE) comemorou seus 75 anos de fundação em um evento que reuniu representantes empresariais e diplomáticos de diversos países, consolidando sua posição como a entidade mais antiga dedicada à promoção do comércio exterior brasileiro.

Durante a cerimônia, o vice-presidente da FCCE, Marco Aurélio Kühner, ressaltou a importância histórica da federação e apresentou resultados expressivos da atuação internacional da instituição. “Somos a associação de classe mais antiga voltada à promoção do comércio exterior. A FCCE nasceu para conectar o Brasil ao mundo e continua cumprindo esse papel com excelência”, afirmou Kühner.

Fundada em 1950, a federação conta atualmente com 65 câmaras bilaterais e 22 conselhos temáticos, que trabalham em parceria com embaixadas e consulados para fortalecer a internacionalização das empresas brasileiras.

Kühner apresentou dados que demonstram o alcance global da federação. Segundo ele, a FCCE já promoveu mais de 200 seminários com representantes de 60 países diferentes e recebeu, somente no último ano, 80 missões empresariais e diplomáticas de diversos continentes. Essas ações refletem o aumento do interesse internacional pelo mercado brasileiro e reforçam o papel da FCCE na criação de pontes comerciais estratégicas.

Durante o evento, o vice-presidente recebeu uma homenagem de um empresário colombiano da Sublay S/A, que destacou o apoio da federação às empresas latino-americanas e mencionou parcerias estabelecidas no Panamá, Colômbia e Uruguai, além do avanço das exportações brasileiras para a África, especialmente para o Marrocos.

Entre as principais metas da FCCE está a mudança da pauta exportadora brasileira, com foco na agregação de valor. “Queremos promover a transição do Brasil de um país exportador de commodities para um exportador de produtos com inovação e sustentabilidade”, destacou Kühner.

A proposta busca fortalecer setores tecnológicos e industriais, reduzindo a dependência de produtos primários e impulsionando a competitividade global do país. A federação também defende a adoção de práticas sustentáveis e de economia verde, alinhadas às tendências do comércio internacional.

A FCCE baseia sua estratégia em três eixos principais: mentoria empresarial, com orientação estratégica sobre mercados e adequações regulatórias; capacitação profissional, com programas sobre legislação, logística e negociação internacional; e internacionalização, oferecendo suporte técnico e conexões com parceiros estrangeiros.

Além disso, a federação mantém serviços de consultoria e apoio ao financiamento, auxiliando empresas brasileiras a acessar linhas de crédito e programas de incentivo à exportação. “Nosso papel é ajudar as empresas a encontrarem novos mercados e fontes de funding para sua expansão global”, explicou Kühner.

Reconhecida internacionalmente, a FCCE reafirma seu compromisso em tornar o comércio exterior brasileiro mais competitivo, sustentável e inovador. As parcerias com países da América Latina e da África demonstram a força da diplomacia econômica conduzida pela federação.

Aos 75 anos, a instituição segue focada em preparar o Brasil para uma nova era do comércio internacional, marcada por tecnologia, diversificação e responsabilidade ambiental.

FONTE: Última Hora
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Última Hora

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