Internacional

Safra recorde de trigo na Argentina avança, mas qualidade gera alerta no Brasil

A safra de trigo da Argentina caminha para um recorde histórico na temporada 2025/26, com estimativas que variam entre 25,5 milhões e 27,7 milhões de toneladas, segundo projeções das bolsas de grãos do país. Apesar do volume expressivo, moinhos brasileiros acompanham o cenário com cautela diante das incertezas sobre a qualidade do cereal, especialmente nos teores de glúten e proteína, fatores essenciais para a indústria de panificação e massas.

Clima favorece produção, mas excesso de chuvas traz impactos

De modo geral, as condições climáticas foram favoráveis ao desenvolvimento das lavouras. A umidade bem distribuída contribuiu para o bom desempenho da cultura em grande parte do território argentino. No entanto, o sul do país enfrentou excesso de chuvas, que deixou cerca de 900 mil hectares submersos.

Ao todo, aproximadamente 4,3 milhões de hectares sofreram algum tipo de impacto, incluindo alagamentos, atrasos na semeadura, áreas que deixaram de ser fertilizadas e dificuldades logísticas. A situação também afetou outras culturas, como o milho, e limitou uma expansão ainda maior da área destinada ao trigo.

Colheita avança lentamente no Sul

Na região Sul, a colheita avançou pouco até o momento, alcançando cerca de 7% da área plantada. A maior parte das lavouras ainda se encontra na fase de enchimento de grãos. Mesmo assim, a expectativa é de produtividade média de 4,27 toneladas por hectare, resultado 22% superior à média dos últimos cinco anos.

Apesar do bom potencial produtivo, técnicos alertam para dificuldades no controle de doenças e para a lixiviação de nutrientes, provocada pelo excesso de umidade, fatores que podem impactar a qualidade final do trigo.

Área plantada cresce e colheita supera 60%

A área total cultivada com trigo na Argentina chegou a 6,7 milhões de hectares, crescimento de 6,3% em relação à safra anterior e de 6,7% acima da média quinquenal. Até o momento, a colheita já alcança 60,2% da área, concentrada principalmente nas regiões com ciclo mais adiantado.

Projeções seguem em revisão

Analistas do mercado não descartam uma produção ainda maior, caso o ritmo de colheita se intensifique e os rendimentos se confirmem nas áreas do Sul. A estimativa mais otimista aponta para 27,7 milhões de toneladas, volume inédito no país.

Mesmo com perspectivas positivas, o setor mantém cautela diante da variabilidade dos rendimentos e da necessidade de avaliar com mais precisão a qualidade do grão colhido nas regiões ainda pendentes.

FONTE: Globo Rural
TEXTO: Redação
IMAGEM: Luiz Henrique Magnante / Embrapa

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Comércio Exterior

O futuro do trigo argentino se joga no Brasil, não na Europa

Sol Arcidiácono afirmou que o acordo com a União Europeia teria um efeito limitado e que a prioridade é fortalecer o vínculo comercial regional.

Dos extensos campos da província de Buenos Aires até os silos de Rosario, o trigo define parte do pulso agrícola e econômico da América do Sul. Esse grão, básico na alimentação humana, não apenas sustenta a dieta diária, como também atua como eixo da industrialização e do comércio regional. Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai participam de um mercado que conecta a produção local aos fluxos globais de trigo e farinha, dependentes tanto do clima quanto da logística, das políticas e dos preços internacionais.

A head de Grãos da Hedgepoint há quase dez anos e diretora para a América Latina, Sol Arcidiácono, conversou com serindustria.com.ar sobre esse mercado em que atua há quase 20 anos. De Rosario, analisou como a produção e a exportação de trigo na América do Sul não só impactam a economia regional, mas também condicionam a dinâmica da moagem, da industrialização e do consumo de alimentos básicos.
Num cenário marcado pela mudança climática, pela volatilidade internacional e pelas regulações locais, sua perspectiva permite entender por que o trigo continua sendo um pilar estratégico da agricultura sul-americana e como se projeta seu futuro nos próximos anos.

“A produção de trigo nas Américas está distribuída nos polos. A principal oferta está no Polo Norte com Canadá e Estados Unidos, que juntos exportam entre 50 e 60 milhões de toneladas”, explicou Arcidiácono.

A Argentina tem um papel central no hemisfério sul, com um saldo exportável entre 8 e 14 milhões de toneladas, dependendo do ano. Paraguai e Uruguai produzem cerca de 1 a 1,5 milhão de toneladas cada um e exportam aproximadamente 1 milhão de toneladas combinadas em bons ciclos. “No Uruguai, cresceram muitos outros cultivos de inverno para favorecer a rotação com a soja e a área de trigo diminuiu um pouco. Cresceu bastante a canola, oleaginosa que acompanhou toda a revolução dos biocombustíveis que o Uruguai tem, já que exporta biocombustíveis e óleos de canola para a Europa”, comentou a especialista.

Por sua vez, o Brasil, principal importador regional, registrou avanços significativos na produção. “Passou de produzir 5 ou 6 milhões de toneladas para ter um ano acima de 9 milhões de toneladas. Foi um ano excepcional. Custa muito ficar acima de 6-7 milhões porque o risco climático é maior, há mais desafios, geadas precoces, o ciclo é mais curto e a área mais concentrada. Não é como na Argentina, onde a produção é mais distribuída e, se uma região tem problema, outra compensa.”

Para a safra 25/26, os preços internacionais baixos não geram incentivos para ampliar a área plantada: “Quem planta trigo neste ciclo é o triticultor tradicional”, destacou Arcidiácono, acrescentando: “Vemos uma redução de área nesta safra, considerando essas circunstâncias, preços internacionais bem mais baixos e o risco produtivo”.

Mudança climática e volatilidade nos mercados
A mudança climática impacta de forma significativa a agricultura, especialmente em cultivos mais vulneráveis, confirmou Arcidiácono. “Vemos isso em cultivos tropicais, principalmente ligados ao excesso de chuvas, às inundações. Observamos muito mais volatilidade em produtos como óleo de palma e café. De fato, na Hedgepoint desenvolvemos um derivativo para cobertura de risco climático.”

A especialista explicou que a distribuição global do trigo é mais pulverizada do que a de outros grãos. “A oferta de trigo está mais distribuída. No hemisfério norte há maior concentração, 80% do trigo é produzido e exportado de lá. Depois vem o hemisfério sul, com Argentina e Austrália principalmente.”

Sobre o ciclo 25/26, destacou que mostra rendimentos superiores à média em vários países. “Tivemos uma colheita acima do projetado na Rússia. Uma recuperação muito grande na Europa, somando 30 milhões de toneladas no bloco. O Canadá teve uma colheita quase recorde. Os EUA recuperaram bastante na primavera, com oferta e estoques confortáveis. No hemisfério sul, a Austrália espera safra recorde acima de 34 milhões de toneladas. A Argentina, apesar dos desafios, de chuvas excessivas e inundações pontuais, caminha para uma grande colheita.”

Políticas governamentais e competitividade da indústria de moagem
As políticas e regulações impactam diretamente a competitividade da indústria de moagem na América do Sul. “Em geral, quando começamos a industrializar surgem mais barreiras, tarifas, algo que está na moda com a bandeira de Trump. Sem dúvida, as políticas que acabam sendo barreiras definem a competitividade”, declarou Arcidiácono.

Na Argentina, apesar de uma indústria avançada, os impostos internos limitam a competitividade frente a outros países. “De toda forma, a indústria argentina não é competitiva em geral comparada a outras, mas mais pelo peso da carga tributária doméstica do que por tarifas externas.”

Sobre a capacidade ociosa de moagem na Argentina, estimada em 50%, para Arcidiácono o índice não é tão alto quanto parece. “A moagem é uma indústria tradicional que teve papel social no interior, com capacidade instalada importante. Nos últimos anos, trabalhou-se em otimizar custos e incorporar tecnologia.”

Ela destacou que a tecnologia não se limita às máquinas, mas também a processos e questões sanitárias. “O desenvolvimento tecnológico é 360° dentro do moinho, sempre pensando na oportunidade e no desafio de sair do commodity.”

A diversificação também faz parte da estratégia. “Um desafio da moagem foi acompanhar as novas tendências de consumo, incluir outros produtos além do trigo, como farinhas de grão-de-bico, milho, produtos sem glúten e ampliar sua oferta.”

Quanto à logística do trigo, Arcidiácono afirmou que a Argentina consegue abastecer o mercado interno e exportar. “O abastecimento dos padeiros está muito vinculado à concentração populacional. O maior consumo está na província de Buenos Aires, que também é o maior produtor. A logística é muito eficiente.”

Comparado a outros cultivos, o trigo não enfrenta gargalos logísticos sérios. “O desafio logístico não é tão notório porque o trigo não compete por espaço e rotas com milho e soja, que saem juntos em março e abril. Para o trigo, logística não é problema. O mais complicado é a estrutura financeira, por causa das altas taxas e da instabilidade.”

No caso do Brasil, a dinâmica é diferente: o país mói um terço de trigo próprio e importa dois terços. “Precisa da importação argentina. Embora haja um pico de pressão na entrada da safra, o Brasil compra durante todo o ano, com maior concentração entre dezembro e março.”

Oportunidades e exportações
Na exportação de farinha de trigo há oportunidades em nichos específicos. Arcidiácono citou a Turquia como principal exportador mundial, que encontrou um mercado de especialidade em farinhas para massas, sobretudo com o trigo durum.

Por isso, ela considera que existem oportunidades para a Argentina, mas não como commodity, e sim como produto diferenciado. Contudo, o país precisaria investir mais em fertilização para garantir qualidade estável. “Com esse desenvolvimento, poderíamos pensar em uma oportunidade de exportação de nicho, agregando valor e conseguindo preço diferenciado.”

Ao analisar o cenário global, o conflito entre Rússia e Ucrânia gerou volatilidade nos preços. O auge foi em 2022, com o início da guerra e incertezas sobre o abastecimento. Antes, a Ucrânia produzia até 30 milhões de toneladas. “O conflito virou crônico e está mais concentrado em commodities energéticas, mas o trigo continua no radar.”

Arcidiácono também destacou o impacto da política monetária global. Com expectativa de queda das taxas pelo FED, pressionado por Donald Trump, e um dólar enfraquecido, o trigo americano ganha competitividade. “Taxas mais baixas acelerariam a economia, e o consumo de trigo está diretamente ligado ao consumo humano. Não gera volatilidade como fatores geopolíticos, mas a política econômica é relevante para os preços do trigo entrando em 2026.”

Estratégias regionais e papel da Argentina
Hoje, a distribuição mundial do trigo não parece ser um problema. Ainda assim, países sul-americanos poderiam fortalecer sua posição com políticas mais estáveis. “Para a Argentina, é muito saudável alcançar uma colheita de 20 milhões de toneladas ou mais. Isso é positivo para os cultivos, para a sazonalidade da economia e também para a logística, porque março, abril e maio concentram a saída dos cultivos de verão”, afirmou.

Ela lembrou que em outros períodos o país produziu entre 10 e 12 milhões de toneladas, praticamente a metade dos últimos ciclos. Atingir 20 milhões ou mais “é importante, e o país tem potencial para ainda mais”. Essa possibilidade, no entanto, não se replica na mesma escala em Uruguai, Brasil e Paraguai.

Mas alertou que a competitividade argentina continua limitada pelas retenções. “Embora tenham caído muito, já chegaram a ser o dobro. Ainda assim, se perde competitividade porque entramos no mercado mundial com regras que uruguaios e paraguaios não têm. Vamos mais pesados ao mundo.”

O futuro do trigo argentino se joga no Brasil?
Sobre o acordo União Europeia–MERCOSUL, Arcidiácono é cautelosa. “Tenho dúvidas de que seja aprovado, há bastante pressão. Precisa da aprovação de todos os países-membros. Seria benéfico para a agricultura argentina. Tomara que avance, porque seria muito bom.”

No caso do trigo, porém, o impacto seria limitado, já que a Europa também é produtora e exportadora. No curto prazo, poderia haver mais oportunidades em farinha, soja e milho. “Europa compra soja dos EUA; poderia abrir-se espaço para a Argentina, inclusive em biocombustíveis.”

Para ela, o maior potencial de crescimento não está no trigo, mas na soja e no biodiesel. O fator mais determinante para o trigo é o arancel externo comum do MERCOSUL, hoje em 10,5%, que o Brasil administra. “Se será zero, um milhão de toneladas ou outro valor, é o que define quanto trigo pode importar sem pagar tarifa.”

Assim, manter cooperação com o Brasil é essencial. “Mais da metade do trigo que exportamos vai para lá. Existe um codo a codo importante. O Brasil precisa de uma Argentina competitiva.”

Mas, quando a Argentina perde competitividade, o mercado brasileiro reage. “Quando não temos trigo suficiente ou não somos competitivos por câmbio ou restrições, o Brasil se incomoda e busca outros fornecedores. Já chegou a importar trigo da Rússia, o que é um absurdo, estando nós ao lado.”

A chave, portanto, está em garantir estabilidade produtiva. “É fundamental que nunca mais se restrinjam exportações nem haja travas. Isso consolida o vínculo de abastecimento seguro que o Brasil sente da Argentina. Isso é mais importante para o trigo do que qualquer outra coisa.”

Por fim, Arcidiácono refletiu sobre o valor cultural do trigo e da indústria. “A moagem argentina ainda tem trabalho a fazer. Existe muita propaganda contra alimentos à base de trigo e pão. Esse é um desafio maior para a panificação do que para a moagem, mas ambos precisam caminhar juntos.”

Apesar disso, mostrou-se otimista quanto ao futuro. “Há muito espaço para crescer no consumo per capita de trigo no mundo. Na Argentina, é alto pela nossa cultura de imigrantes e pelo abastecimento garantido, com moinhos em todo o país. Mas há um trabalho cultural de conquista que o trigo e o pão precisam fazer no mundo todo”, concluiu.

FONTE: Ser Industria
IMAGEM: Reprodução/Ser Industria

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