Agronegócio

Frete mínimo pode elevar custos da produção em até 30% no agro de Mato Grosso

Produtores rurais de Mato Grosso acendem o sinal de alerta diante dos impactos da política do frete mínimo, que pode elevar os custos da produção agropecuária em até 30%. A avaliação do setor é de que a tabela do piso mínimo pressiona as margens do produtor, interfere na logística e encarece desde a compra de insumos até o escoamento da safra.

A preocupação é ainda maior em um estado com grandes distâncias até os portos e forte dependência do transporte rodoviário. Segundo representantes do setor, a rigidez da tabela, a redução do frete de retorno e a falta de flexibilidade elevam os custos e afetam diretamente o preço dos alimentos e a inflação.

Impacto direto na logística e no produtor rural

Para a Aprosoja Mato Grosso, o atual modelo do piso mínimo gera distorções tanto para produtores quanto para caminhoneiros autônomos. O presidente da entidade, Lucas Costa Beber, afirma que o cálculo do frete penaliza principalmente os veículos menores.

Segundo ele, quanto menor o caminhão, menor a rentabilidade, o que reduz a competitividade e desestimula o transporte. “O preço mínimo do frete cria uma injustiça tanto para o produtor quanto para o caminhoneiro autônomo. Esse modelo acaba tirando a competitividade dos pequenos”, avalia.

Fim do frete de retorno encarece o transporte

Na prática, a tabela interfere em estratégias comuns da logística agrícola, como o frete de retorno, muito utilizado em regiões como o Médio-Norte de Mato Grosso, especialmente no transporte de calcário.

Antes, caminhões evitavam rodar vazios e aproveitavam o trajeto de volta para transportar insumos com valores mais baixos. Com a nova regra, esse modelo perde viabilidade. “O motorista conseguia trabalhar mais e compensar o custo da viagem vazia. Agora isso deixa de acontecer”, explica Lucas Costa Beber.

Lei do frete e distorções no mercado

A lei do piso mínimo do frete surgiu após a greve dos caminhoneiros em 2018 e estabelece valores mínimos para 12 tipos de veículos e operações. A legislação prevê revisão semestral e reajuste automático conforme a variação do diesel.

Mesmo assim, o setor produtivo afirma que a tabela não acompanha a realidade do mercado ao longo do ano. “A tabela não reflete a variação real dos custos. Por isso, estamos trabalhando para encomendar um estudo técnico junto à Esalq, com apoio de outras entidades, para revisar esses parâmetros”, afirma o presidente da Aprosoja-MT.

Além disso, há diálogo com o Ministério dos Transportes. Segundo a entidade, o produtor acaba absorvendo custos que não consegue repassar. “O produtor não tem preço mínimo garantido e acaba arcando com todo o prejuízo”, destaca.

Reflexos no preço dos alimentos e nos insumos

Na avaliação da Aprosoja, os impactos não se restringem ao campo. O aumento do custo logístico tende a refletir no preço dos alimentos, do diesel e de toda a cadeia produtiva. Outro efeito observado é o estímulo à formação de frota própria por parte dos produtores, reduzindo a dependência de transportadores terceirizados.

Fertilizantes sentem impacto direto do frete

O setor de fertilizantes é um dos mais afetados. Para o diretor executivo do Movimento Pró-Logística, Edeon Vaz Ferreira, o problema está no retorno dos caminhões. “A cada seis caminhões que descem para o porto, apenas um retorna com fertilizante. Isso encarece muito o custo”, afirma.

Segundo ele, esse desequilíbrio eleva diretamente o custo de produção agrícola, pressionando ainda mais a rentabilidade do produtor.

Distâncias longas agravam o problema

Produtores localizados em regiões mais afastadas sentem o impacto de forma ainda mais intensa. É o caso de Adalberto Grando, que cultiva 2,7 mil hectares de soja entre Gaúcha do Norte e Sorriso. Ele relata que o frete até os portos pode chegar a valores elevados. “Falam em cerca de R$ 500 por tonelada. Isso equivale a cinco sacas de soja”, afirma.

Além disso, a precariedade da infraestrutura agrava a situação. “Temos apenas uma via asfaltada. Sem frete de retorno, ninguém quer vir para cá”, relata. Para ele, o caminho seria retomar a livre iniciativa. “Se insistir nessa tabela, o custo vai subir ainda mais”, alerta.

Cooperativas pedem equilíbrio e ajustes

Na região de Canarana, o impacto da logística pesa tanto na compra de insumos quanto na venda da produção. Segundo o diretor do Sindicato Rural local, Camilo Ramos, a localização influencia diretamente nos preços. “Pagamos mais caro para trazer insumos e recebemos menos na venda. A logística pesa muito”, afirma.

A Cooperativa de Transportes Rodoviários de Mato Grosso (Cootromat), que reúne cerca de 110 associados, também sente os efeitos. De acordo com o diretor de logística, Sidnei Rogério Weirich, a aplicação da tabela alterou completamente a dinâmica do frete de retorno. “Antes existia frete de volta, hoje isso praticamente acabou”, explica.

Outro problema apontado é a diferença de custo entre tipos de caminhões. “Os veículos menores estão sendo deixados de lado, porque o custo do nove eixos acaba sendo mais competitivo”, afirma. Para ele, seria necessário equalizar os valores para garantir concorrência justa.

Margem apertada e risco de novos aumentos

O presidente do Sindicato Rural de Ipiranga do Norte, Eder Ferreira Bueno, alerta que a margem do produtor já está no limite. “O lucro está praticamente inexistente. Mesmo com oferta de caminhões, o frete segue caro”, diz.

Ele projeta impacto ainda maior nos fertilizantes nos próximos ciclos. “Pode haver aumento de 20% a 30% nos custos. É um problema sério e o produtor não pode arcar sozinho com isso”, conclui.

FONTE: Canal Rural Mato Grosso
TEXTO: Redação
IMAGEM: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

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