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Brasil no epicentro do comércio global de proteína refrigerada: resiliência, crise e retomada 

O ESPECIALISTA – PATRÍCIA SOARES 

O Brasil consolidou-se, ao longo das últimas décadas, como um dos pilares do comércio global de proteína animal, especialmente no segmento reefer — que envolve o transporte refrigerado de carnes e ovos. Em 2024, o país exportou 5,2 milhões de toneladas de carne de frango, gerando US$ 9,9 bilhões em receitas e abastecendo 151 países, o que representa cerca de um terço do consumo mundial dessa proteína. 

Essa liderança, contudo, foi testada em maio de 2025, quando um foco de gripe aviária (H5N1) foi detectado em uma granja comercial no município de Montenegro, no Rio Grande do Sul. O episódio acendeu alertas sanitários e resultou no abate preventivo de 17 mil aves. Embora não tenham sido registrados casos humanos, mais de 30 países, incluindo China e União Europeia, impuseram restrições temporárias às importações brasileiras. Alguns parceiros, como Japão e Reino Unido, restringiram os vetos à região afetada, enquanto outros optaram por bloqueios nacionais. 

A resposta do governo brasileiro foi rápida, técnica e altamente eficiente. O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) ativou protocolos sanitários rigorosos, com barreiras de contenção, monitoramento e rastreabilidade. O número de aves sacrificadas foi infinitamente menor se comparado a países como os Estados Unidos, onde surtos semelhantes exigiram o abate de milhões de animais. As autoridades brasileiras reforçaram que não há risco no consumo de carnes, ovos ou derivados, e que a transmissão para humanos é extremamente rara. 

Mesmo sob pressão de restrições temporárias, a demanda global por proteína brasileira permaneceu sólida. Países impactados por surtos locais de gripe aviária intensificaram as compras do Brasil, buscando um fornecedor estável, confiável e com rigor sanitário comprovado. Só em janeiro de 2025, as exportações de carne de frango subiram quase 10%, impulsionadas por mercados como China, União Europeia e Filipinas. A receita disparou 20,9%, chegando a US$ 753,66 milhões. 

No mercado de ovos, o desempenho foi ainda mais notável. De acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as exportações devem crescer 62% em 2025, alcançando 30 mil toneladas, especialmente em função da escassez nos Estados Unidos, que também enfrentam surtos severos da doença. Embora o Brasil ainda não exporte ovos diretamente para as prateleiras norte-americanas, a indústria nacional atende, com força crescente, empresas de processamento e insumos alimentícios. 

As perspectivas são claras: se não forem detectados novos casos em 28 dias, o Brasil deve recuperar seu status sanitário de país livre de gripe aviária, fundamental para restabelecer por completo os fluxos comerciais. Paralelamente, o governo negocia com grandes parceiros, como a China, para restringir os vetos apenas à região afetada, evitando impactos desproporcionais na cadeia produtiva nacional. 

Segundo Ricardo Santin, presidente da ABPA, “O mundo inteiro olha para o Brasil como um fornecedor estratégico de proteína, sobretudo porque temos uma agroindústria altamente tecnológica, uma vigilância sanitária robusta e uma capacidade de resposta que poucos países do mundo possuem. Superamos a crise com profissionalismo e, agora, estamos prontos para retomar, não apenas os mercados que fecharam, mas também para ampliar nossa presença global.” 

Em resumo, o episódio de maio de 2025 não enfraqueceu a posição do Brasil — reforçou-a. O país demonstrou que sua liderança no setor de proteína refrigerada não é circunstancial, mas fruto de uma cadeia produtiva resiliente, madura e alinhada às mais rigorosas exigências sanitárias internacionais. O mundo, cada vez mais, dependerá do Brasil para garantir a segurança alimentar global. 

Seguiremos aqui, no ReconectaNews, atentos às movimentações do setor reefer, trazendo informações precisas e análises estratégicas. Até o próximo encontro. 

Patrícia Soares é uma profissional reconhecida no segmento Reefer, com uma sólida trajetória de mais de 19 anos no setor logístico. Atualmente ocupa o cargo de Key Account Manager, onde lidera o relacionamento com clientes estratégicos, contribuindo para soluções logísticas personalizadas e de alto valor agregado. 

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Comércio Exterior, Economia, Mulheres, Negócios, Tributação

O ESPECIALISTA – PATRÍCIA SOARES

Panorama estratégico do setor reefer: desafios, tendências e oportunidades 

Bem-vindo ao espaço dedicado ao setor Reefer no RêConecta News. 

É com renovado entusiasmo que dou continuidade a este encontro mensal, destinado a refletir e aprofundar as discussões em torno de um dos segmentos mais estratégicos – e, simultaneamente, mais complexos – da logística contemporânea: o setor reefer. Trata-se de uma área vital, que atua na interseção entre a segurança alimentar, a inovação tecnológica e o comércio internacional, exigindo constante adaptação diante de um cenário em permanente transformação. 

Para além das dinâmicas domésticas, torna-se imperativo reconhecer que o desempenho do setor reefer brasileiro está intrinsecamente vinculado ao contexto da economia global. O avanço da interdependência entre mercados, somado à intensificação das tensões geopolíticas, às flutuações cambiais, às renegociações de acordos multilaterais e à ocorrência de eventos climáticos extremos, tem gerado impactos diretos nas cadeias logísticas globais, alterando rotas, cronogramas e estruturas de custo em escala transnacional. 

A dinâmica cambial e seus efeitos na cadeia de frio 

Nesse ambiente de crescente complexidade, um dos fatores de maior relevância para o planejamento estratégico logístico é a dinâmica cambial, em especial no que tange à cotação do dólar americano. Em 2024, o câmbio variou entre R$ 4,75 e R$ 5,30, afetando diretamente o custo de aquisição de tecnologias, equipamentos especializados e a negociação de fretes internacionais – majoritariamente dolarizados. Já em 2025, o mercado cambial mantém-se em níveis elevados, oscilando entre R$ 4,95 e R$ 5,40, em resposta a um quadro de incertezas fiscais internas combinadas à política monetária restritiva do Federal Reserve (Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos). 

Essas flutuações cambiais geram uma série de repercussões em cadeia. Agravam o custo de insumos essenciais à cadeia de frio – como componentes para câmaras frigoríficas e sistemas de sensoriamento remoto –, aumentam significativamente os preços dos fretes internacionais e pressionam as margens de exportadores que operam com contratos de longo prazo. Por outro lado, a valorização do dólar também reforça a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional, ampliando a demanda por proteínas animais, frutas tropicais e outros gêneros perecíveis. Tal cenário consolida o papel do Brasil como fornecedor estratégico no sistema agroalimentar global, ainda que acarrete pressões adicionais sobre a infraestrutura logística nacional. 

Paralelamente, a conjuntura econômica internacional impõe desafios operacionais crescentes, como o aumento dos custos energéticos, a escassez de equipamentos e os gargalos persistentes em corredores logísticos cruciais. A crise logística desencadeada pela pandemia de COVID-19, embora em processo de normalização, deixou lições valiosas sobre a importância de cadeias logísticas resilientes, tecnologicamente integradas e orientadas por dados. Hoje, atributos como planejamento preditivo, agilidade operacional e capacidade de adaptação tornaram-se indispensáveis para a sustentabilidade das operações logísticas em ambientes de alta incerteza. 

Outro vetor de transformação é o avanço das exigências regulatórias internacionais, sobretudo no que diz respeito a sustentabilidade e conformidade ambiental. Mercados de alto valor agregado, como União Europeia e Estados Unidos, vêm impondo critérios cada vez mais rigorosos em termos de pegada de carbono, eficiência energética e rastreabilidade da cadeia de suprimentos. Nesse contexto, práticas de governança ESG deixam de ser diferenciais e passam a ser pré-requisitos para a manutenção e expansão dos mercados de exportação. 

Ao mesmo tempo, a diversificação dos destinos das exportações brasileiras abre novas frentes de atuação. Mercados da Ásia, do Oriente Médio e da África têm ampliado substancialmente sua demanda por alimentos perecíveis, oferecendo oportunidades valiosas para o setor brasileiro, mas exigindo um alto grau de sofisticação logística, adaptabilidade normativa e abrangência geográfica. 

É nesse cenário desafiador e repleto de possibilidades que empresas de armazenagem frigorificadas, assumem protagonismo. Por meio de soluções integradas, tecnologicamente avançadas e estrategicamente distribuídas ao longo do território nacional, capazes de conectar a produção brasileira às mais exigentes cadeias de suprimento globais, garantindo eficiência operacional, controle rigoroso de temperatura e alto desempenho logístico. 

Visão de futuro: investimento e acompanhamento estratégico 

Acompanhar os desdobramentos da economia internacional não é mais uma vantagem competitiva, mas uma condição indispensável para a sobrevivência e prosperidade no setor reefer. O Brasil, com sua vocação agroexportadora e capacidade produtiva reconhecida globalmente, tem diante de si um enorme potencial a ser explorado. Para tanto, será necessário investir de forma contínua em infraestrutura, tecnologia e capital humano qualificado. 

Seguiremos, aqui no Rêconecta News, aprofundando essas questões com uma visão estratégica e orientada para o futuro. Até o próximo encontro! 

Patrícia Soares é uma profissional reconhecida no segmento Reefer, com uma sólida trajetória de mais de 19 anos no setor logístico. Atualmente ocupa o cargo de Key Account Manager, onde lidera o relacionamento com clientes estratégicos, contribuindo para soluções logísticas personalizadas e de alto valor agregado.

Por: Patrícia Soares

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