Comércio

Salvaguardas agrícolas do Mercosul são aprovadas pelo Europarlamento para destravar acordo comercial

O Parlamento Europeu aprovou, nesta terça-feira, as salvaguardas agrícolas do acordo Mercosul–União Europeia, consideradas decisivas para destravar a assinatura do tratado de livre comércio com os países sul-americanos. As cláusulas foram negociadas entre os 27 Estados-membros e a Comissão Europeia, em Bruxelas, como condição para viabilizar o avanço do pacto, assinado em janeiro e que pode entrar em vigor de forma provisória nos próximos meses.

A decisão permite que o Executivo comunitário avalie a aplicação temporária do acordo enquanto os trâmites finais seguem em andamento.

Proteção ao campo europeu está no centro das medidas

As salvaguardas aprovadas têm como objetivo reforçar a proteção da agricultura europeia diante de possíveis impactos causados pela maior abertura do mercado aos produtos do Mercosul. Entre os setores considerados mais sensíveis estão aves, carne bovina, ovos, citros e açúcar.

A proposta busca evitar distorções graves no mercado interno, oferecendo instrumentos rápidos de resposta caso haja desequilíbrios provocados pelo aumento das importações.

Partido Popular destaca defesa dos agricultores

Após a votação, o Partido Popular Europeu celebrou o resultado. O eurodeputado espanhol Gabriel Mato, relator do parecer aprovado, afirmou que as salvaguardas garantem uma proteção “real e eficaz” aos agricultores assim que o novo regime comercial entrar em vigor.

Em nota, o partido destacou que o mecanismo é fundamental por permitir a adoção de medidas preventivas, antes que eventuais danos ao mercado agrícola europeu se tornem irreversíveis.

Limites acionam investigações em até 21 dias

O texto aprovado estabelece parâmetros claros para que a Comissão Europeia possa iniciar investigações e ativar medidas corretivas em até 21 dias, caso seja identificado um impacto relevante sobre produtos agrícolas sensíveis.

Inicialmente, os limites discutidos entre Conselho e Parlamento previam uma variação de 8%, mas o percentual foi reduzido para 5%, atendendo à posição defendida pelo Parlamento Europeu e às exigências da Itália.

Mudança destrava impasse político

A redução do limite foi determinante para que o governo italiano, liderado por Giorgia Meloni, retirasse o veto ao acordo. Até então, a Itália se alinhava ao bloqueio imposto por França e Polônia, o que impedia a assinatura do tratado.

Com a retirada da objeção italiana, o processo foi retomado e permitiu a formalização do acordo em janeiro.

Quando as salvaguardas serão acionadas

Pelas novas regras, Bruxelas poderá agir sempre que as importações de produtos agrícolas sensíveis aumentarem, em média, 5%, acompanhadas de uma queda equivalente nos preços ao longo de três anos. O critério é mais rígido do que a proposta inicial da Comissão Europeia, que previa variações de até 10%.

FONTE: Monitor Mercantil
TEXTO: Redação
IMAGEM: Gustavo Magalhães, MRE

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Comércio Internacional

Acordo União Europeia-Mercosul: por que o agro está no centro da disputa

Após mais de duas décadas de negociações, o acordo União Europeia-Mercosul entra em um momento decisivo e volta a expor tensões profundas no setor agropecuário. Nesta semana, o Parlamento Europeu analisa a adoção de mecanismos de proteção para a agricultura do bloco, etapa considerada crucial para o avanço do tratado de livre comércio.

Caso as chamadas salvaguardas agrícolas sejam aprovadas, o texto poderá seguir para votação no Conselho da União Europeia, que se reúne entre quinta-feira (18) e sexta-feira (19). A expectativa é que a assinatura ocorra durante a Cúpula do Mercosul, marcada para sábado (20), em Foz do Iguaçu.

Salvaguardas agrícolas e a reação do agro brasileiro

As salvaguardas funcionam como um instrumento que permite à União Europeia suspender temporariamente os benefícios do acordo se houver prejuízo comprovado a setores do agro local em razão do aumento das importações. A medida é vista como uma concessão a países historicamente críticos ao tratado, como a França, maior produtora de carne bovina do bloco europeu.

No Brasil, porém, o dispositivo gera preocupação. O setor agroexportador aposta no acordo como uma oportunidade de ampliar vendas ao mercado europeu, hoje o segundo maior destino dos alimentos brasileiros. Para o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, o diálogo é essencial para destravar o processo. Segundo ele, discutir salvaguardas faz parte da negociação, desde que o acordo avance de forma gradual e seja aperfeiçoado ao longo do tempo.

Itália pode definir o rumo do acordo

Embora o tratado envolva diversos setores econômicos, é o agronegócio que concentra os principais embates políticos. Desde 2019, quando uma versão mais avançada do texto veio a público, países como França, Polônia e Hungria passaram a impor resistências formais ou condicionantes.

A insatisfação de produtores rurais europeus resultou em protestos recorrentes. Em 2024, agricultores franceses bloquearam estradas, despejaram estrume em frente a prédios públicos e chegaram a destruir carregamentos de vinho espanhol. Mobilizações semelhantes ocorrem em outros países, como Áustria, Alemanha, Espanha, Polônia e Holanda, sob o movimento “StopEUMercosur”.

Nesse cenário, a posição da Itália ganha peso estratégico. Para barrar a assinatura do acordo, é necessário o voto contrário de ao menos quatro Estados-membros que representem 35% da população da UE. França e Itália já defenderam publicamente o adiamento da votação, mas o governo italiano ainda não deixou clara sua posição final, o que pode ser decisivo.

Trâmite ainda pode se estender até 2026

Mesmo que o Conselho da UE aprove o texto e a assinatura ocorra na Cúpula do Mercosul, o acordo ainda precisará do aval definitivo do Parlamento Europeu para entrar em vigor. A previsão é que essa etapa fique para 2026, mantendo a incerteza no curto prazo.

Argumentos dos países contrários ao acordo

Produtores europeus temem perder competitividade com a entrada de alimentos do Mercosul, especialmente do Brasil. A preocupação se concentra no fato de que a produção brasileira apresenta maior escala, alta produtividade e custos mais baixos, o que poderia pressionar preços no mercado europeu.

Outro ponto sensível envolve o meio ambiente. Críticos afirmam que os países do Mercosul não adotam os mesmos padrões ambientais, sociais e sanitários exigidos na Europa, além de alegarem que o acordo poderia estimular o desmatamento na Amazônia e permitir a entrada de agrotóxicos proibidos no bloco europeu.

O Brasil rebate essas acusações destacando que possui um dos códigos florestais mais rigorosos do mundo, com exigência legal de manutenção de áreas de vegetação nativa nas propriedades rurais. Ainda assim, o desmatamento ilegal segue como um desafio estrutural.

Quem defende o acordo União Europeia-Mercosul

Na outra ponta, países como Alemanha e Espanha lideram a defesa do tratado. A avaliação é que o acordo fortalece exportadores europeus em um momento de desaceleração econômica e amplia alternativas comerciais diante do aumento de tarifas impostas pelos Estados Unidos.

Desde a reeleição de Donald Trump, a União Europeia acelerou a busca por novos parceiros, intensificando negociações com Índia, Indonésia e Emirados Árabes Unidos, além de reforçar laços com Reino Unido, Canadá e Japão. Holanda, Portugal e Suécia também se posicionam favoravelmente.

Para esses países, o Mercosul representa um mercado promissor para automóveis, máquinas e produtos químicos, além de uma fonte estratégica de minerais essenciais, como o lítio, fundamental para a transição energética. Há ainda benefícios esperados para o próprio agro europeu, com maior acesso e tarifas reduzidas para produtos como queijos, vinhos e presuntos.

Mudanças no texto e críticas do setor agropecuário

Desde a proposta apresentada em 2019, considerada equilibrada pelo agro brasileiro, o acordo passou por alterações que, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), favoreceram o lado europeu. De acordo com Sueme Mori, diretora de relações internacionais da entidade, novas exigências ambientais e regras como a lei antidesmatamento criaram obstáculos adicionais às exportações brasileiras.

Na avaliação da CNA, a União Europeia tenta aplicar padrões pensados para sua realidade climática e produtiva, que não se adequam às condições brasileiras. Mori destaca ainda que a agricultura europeia é altamente subsidiada, enquanto no Brasil os incentivos ocorrem principalmente via crédito rural, como o Plano Safra.

As salvaguardas definidas mais recentemente também entram nesse pacote de preocupações. Além de permitir a suspensão de benefícios tarifários, a Comissão Europeia discute a aplicação do princípio da reciprocidade, exigindo que os países do Mercosul adotem padrões produtivos equivalentes aos da UE.

As acusações contra o Brasil procedem?

Especialistas apontam que o Brasil possui um arcabouço ambiental robusto, com exigências legais de preservação superiores às de muitos países. Segundo Leonardo Munhoz, pesquisador do Centro de Bioeconomia da FGV, a própria União Europeia flexibilizou regras ambientais da Política Agrícola Comum entre 2024 e 2025.

Munhoz observa ainda que o adiamento e as revisões da lei antidesmatamento europeia revelam dificuldades técnicas de implementação. Nesse contexto, cresce o risco de que o bloco utilize exigências adicionais de sustentabilidade e rastreabilidade como condicionantes para manter vantagens tarifárias.

Sobre a competitividade dos produtos brasileiros, o pesquisador reconhece que ela decorre de fatores estruturais, como escala e produtividade. No entanto, ressalta que as novas salvaguardas podem limitar aumentos rápidos nas exportações brasileiras em setores considerados sensíveis, restringindo o acesso ao mercado europeu.

FONTE: G1
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/G1

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Internacional

Acordo UE-Mercosul: França Reafirma que Texto Atual é Inaceitável

Paris mantém veto ao tratado comercial
O governo francês voltou a endurecer o tom contra o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, afirmando que o projeto apresentado pela Comissão Europeia “continua inaceitável”. A declaração foi feita nesta quarta-feira (14) pela porta-voz Maud Bregeon, após a reunião do Conselho de Ministros. Segundo ela, a posição final da França dependerá das garantias que forem obtidas nas negociações.

Pressão por mudanças e salvaguardas agrícolas
A Comissão Europeia estabeleceu o dia 20 de dezembro como prazo para os países do bloco validarem o texto. Nesta quarta-feira, representantes dos 27 Estados-membros aprovaram um pedido francês para reforçar cláusulas de salvaguarda voltadas a produtos agrícolas sensíveis, permitindo intervenções rápidas caso o mercado seja afetado.

Bregeon reconheceu o avanço, mas ressaltou que Paris quer garantir que o mecanismo seja acionado de forma simples e eficiente. Além disso, o governo francês cobra reciprocidade nas regras: pesticidas proibidos na União Europeia deveriam ser igualmente vetados em produtos importados do Mercosul.

Fiscalização mais rígida nas importações
Outro ponto exigido pelos franceses é o fortalecimento dos controles sanitários e fitossanitários, desde a origem nos países exportadores até o desembarque nos portos europeus, garantindo conformidade com os padrões da UE. A decisão final da França, segundo Bregeon, dependerá dos resultados nas três frentes: salvaguardas, reciprocidade e fiscalização.

Irritação cresce em Bruxelas com sinais contraditórios
Em Bruxelas, as oscilações da França começam a incomodar negociadores europeus. Durante viagem ao Brasil, o presidente Emmanuel Macron chegou a demonstrar postura mais favorável ao acordo, mas recuou após forte reação de agricultores e parte da classe política francesa. Desde então, Paris reafirma que o texto atual é insuficiente.

Nesta quarta-feira, dezenas de agricultores protestaram em Arras, no norte da França, enquanto Macron participava de um debate sobre democracia e redes sociais. Eles reiteraram oposição ao tratado e cobraram postura mais firme do governo.

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu tentou equilibrar o discurso: reconheceu que há “muitos motivos para se opor” ao acordo, mas lembrou que setores franceses também poderiam se beneficiar — embora, segundo ele, “não se manifestem tanto”.

Movimentação política e disputa entre Estados-membros
Setores como carne, cereais, etanol, beterraba e açúcar enviaram uma carta a Macron pedindo que a França articule uma coalizão de países para barrar o acordo. Porém, Paris enfrenta resistência: a Itália passou a sinalizar apoio ao tratado, dificultando uma frente de oposição.

A votação entre os 27 Estados-membros pode ocorrer no início de dezembro e exige maioria qualificada. Bruxelas acredita ter atendido às principais demandas francesas ao reforçar as salvaguardas agrícolas.

Concessões limitadas e pressão por mudanças nos pesticidas
Na reunião dos ministros da Agricultura da UE, Alemanha e Espanha reiteraram apoio ao acordo, destacando a necessidade de ampliar mercados para exportadores europeus em meio ao cenário econômico frágil. Esses países defendem a diversificação das parcerias comerciais após medidas protecionistas adotadas pelos Estados Unidos nos últimos anos.

A França segue negociando ajustes, especialmente envolvendo os limites máximos de resíduos (LMRs) de pesticidas. A expectativa é que a Comissão apresente, em dezembro, uma proposta sobre segurança alimentar que contemple parte das demandas francesas. Ainda assim, Bruxelas não pretende reabrir o texto do acordo. No máximo, discute-se a possibilidade de trocas de cartas ou declarações adicionais para tranquilizar países resistentes como Polônia e Hungria.

A União Europeia quer fechar consenso antes da cúpula do Mercosul, marcada para 20 de dezembro no Brasil.

Aprovação no Parlamento Europeu será um desafio
Mesmo que os governos aprovem o tratado, ele ainda precisará passar pelo Parlamento Europeu, onde o resultado é considerado incerto. Uma fonte parlamentar estima que cerca de 300 dos 720 deputados tenderiam a votar contra, especialmente membros da extrema esquerda, extrema direita, franceses e grande parte dos poloneses.

Atualmente, cerca de 150 eurodeputados já pediram que o Parlamento leve o acordo ao Tribunal de Justiça da União Europeia para contestar seu conteúdo.

FONTE: Terra
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS – Francois Lo Presti / RFI

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