Indústria

Por que o Brasil está perdendo espaço na guerra global do aço

A indústria do aço brasileira enfrenta uma perda contínua de competitividade no cenário internacional. Enquanto a produção de aço bruto da China cresceu, em média, 7% ao ano entre 1985 e 2025, alcançando cerca de 1 bilhão de toneladas anuais, o Brasil permaneceu praticamente estagnado, com volumes entre 30 e 35 milhões de toneladas por ano.

O contraste chama atenção, sobretudo porque o país reúne vantagens estratégicas como reservas de minério de ferro de alta qualidade, ampla oferta de energia renovável e mão de obra qualificada. Ainda assim, esses fatores não foram suficientes para sustentar uma expansão consistente do setor.

Custo elevado e ambiente desfavorável afastam investimentos

Especialistas apontam que a perda de competitividade passa por entraves estruturais conhecidos. O alto custo do capital, a carga tributária elevada, a logística deficiente e a insegurança jurídica comprometem a confiança de investidores, fornecedores e clientes da siderurgia nacional.

Esses fatores tornam a produção mais cara e reduzem a capacidade do país de competir com grandes players globais em preço e escala.

China amplia escala e domina exportações

A China adotou uma estratégia agressiva de expansão industrial, transformando-se em uma grande exportadora de excedentes. Em 2025, a previsão é que a indústria brasileira produza 33,6 milhões de toneladas, enquanto a chinesa deve superar 1 bilhão de toneladas, um volume cerca de 30 vezes maior.

A eficiência chinesa, sustentada por subsídios estatais e produção em larga escala, permite preços difíceis de serem alcançados por concorrentes internacionais.

Protecionismo avança no mundo, mas Brasil reage pouco

Diante da disputa global, grandes economias passaram a tratar a siderurgia como setor estratégico. O resultado foi o avanço de medidas protecionistas, como tarifas elevadas, salvaguardas, ações antidumping e cotas de importação.

O Brasil, porém, avançou de forma limitada. Desde 2002, a participação do aço chinês no mercado nacional saltou de 5% para mais de 30%, o equivalente a 6 milhões de toneladas por ano. Considerando importações indiretas, o volume chega a 12,5 milhões de toneladas.

Aço importado ganha espaço no mercado interno

Atualmente, parte da própria indústria brasileira passou a utilizar aço chinês, impulsionada por benefícios fiscais de ICMS em alguns estados. Além disso, a valorização do real frente ao dólar reduz a proteção natural da indústria nacional, tornando o produto importado ainda mais competitivo.

Queda de preços e prejuízos no setor

Com a concorrência chinesa em alta e a queda de 18% no preço do aço no mercado mundial desde dezembro de 2023, as siderúrgicas brasileiras acumulam prejuízos e reduzem investimentos. O cenário preocupa um setor que emprega mais de 120 mil pessoas no país.

O ambiente é considerado desestimulante para novos aportes e ameaça a sustentabilidade da cadeia produtiva do aço no Brasil.

Medidas urgentes para evitar desindustrialização

Analistas defendem a adoção de ações imediatas, como maior proteção tarifária, salvaguardas temporárias e uma política ativa de incentivo a investimentos. O objetivo é garantir condições mínimas de competitividade e preservar a indústria siderúrgica nacional.

Sem uma resposta rápida, o Brasil corre o risco de se tornar apenas fornecedor de minério de ferro, sem agregar valor, gerar empregos qualificados ou renda industrial — cenário oposto ao discurso adotado pelos governos desde os anos 2000.

FONTE: Estadão
TEXTO: Redação
IMAGEM: Tasso Marcelo/Estadão

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