Economia

Queda do dólar reflete desconfiança global, movimento da China e maior fluxo de capital para o Brasil

A recente queda do dólar é resultado de uma combinação de fatores externos e internos, que incluem a desconfiança dos investidores globais em relação aos Estados Unidos, decisões estratégicas da China e o aumento do fluxo de capitais para o Brasil. O movimento tem fortalecido o real e impulsionado os mercados financeiros domésticos.

Incertezas nos EUA pressionam a moeda americana

No cenário internacional, o dólar perdeu força diante dos riscos associados à condução econômica do presidente Donald Trump e das dúvidas sobre a disciplina fiscal de Washington. Esse ambiente de incerteza foi intensificado após a informação de que autoridades chinesas recomendaram que bancos do país reduzam a exposição a títulos do Tesouro americano (Treasuries).

A orientação gerou impacto imediato: a moeda dos EUA caiu quase 1% frente a divisas como euro, libra e iene, reforçando o movimento de enfraquecimento global do dólar.

China orienta bancos a reduzir exposição aos Treasuries

Reguladores chineses aconselharam instituições financeiras a limitar a compra de títulos do governo americano e a diminuir posições já elevadas, citando riscos de concentração e volatilidade. A recomendação não se aplica às reservas internacionais oficiais da China.

Embora bancos chineses detivessem cerca de US$ 300 bilhões em ativos denominados em dólar até setembro do ano passado, não há dados precisos sobre quanto desse montante estava alocado em Treasuries. Segundo autoridades chinesas, a medida busca diversificação de risco, e não representa uma ação geopolítica contra os Estados Unidos.

Brasil se beneficia da rotação global de investimentos

No mercado doméstico, o real se fortaleceu ainda mais. O dólar caiu para R$ 5,18, o menor patamar em quase 21 meses. O movimento reflete a intensificação da chamada rotação de carteiras, na qual investidores globais redirecionam recursos antes concentrados nos EUA para mercados emergentes, como o Brasil.

As taxas de juros elevadas no país têm sido um atrativo adicional, ampliando a entrada de capital estrangeiro.

Tesouro Nacional e o impacto no câmbio

O cenário favorável foi reforçado pela captação externa do Tesouro Nacional, que levantou US$ 4,5 bilhões na primeira emissão de títulos brasileiros no mercado internacional em 2026. A operação incluiu:

  • US$ 3,5 bilhões em um título com vencimento em 2036, com taxa de 6,4% ao ano
  • US$ 1 bilhão em um papel com vencimento em 2056, com juros de 7,3% ao ano

As taxas ficaram abaixo das indicações iniciais, e a demanda alcançou US$ 12 bilhões, sinalizando forte apetite dos investidores. Esse tipo de operação tende a facilitar futuras captações externas de empresas privadas brasileiras, ampliando ainda mais o fluxo cambial para o país.

Bolsa brasileira em alta e recordes sucessivos

O aumento do interesse estrangeiro também impulsionou a B3. O Ibovespa subiu 1,8%, alcançando 186.241 pontos, o décimo recorde do índice no ano.

Até a última quinta-feira, investidores internacionais já haviam aportado R$ 29,2 bilhões na Bolsa brasileira, valor superior a todo o montante investido ao longo de 2025, que somou R$ 25,5 bilhões.

Segundo analistas, parte desse movimento está ligada à saída de recursos de setores como tecnologia e criptomoedas no exterior, considerados caros e mais arriscados no atual contexto.

Política monetária e juros no radar

No Brasil, o mercado também repercutiu declarações do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que afirmou que o momento é de “calibragem” da política monetária e que a autoridade ainda não declarou vitória sobre a inflação.

A expectativa de flexibilização da taxa Selic contribui para o bom desempenho das ações. Relatório do Bank of America aponta que o mercado brasileiro apresenta a maior correlação entre valorização das ações e queda dos juros entre os países emergentes.

Ações brasileiras seguem atrativas

Apesar da valorização recente, analistas avaliam que os papéis nacionais continuam negociados a preços atrativos. Para o Santander, o mercado brasileiro ainda opera com desconto em relação a pares relevantes como Índia, Taiwan e México, mesmo após a reprecificação observada em 2026.

Perspectivas para o Ibovespa

O JPMorgan mantém uma visão positiva para o ingresso de capital internacional em mercados emergentes. Em relatório, o banco projeta que o pico do Ibovespa deve ocorrer entre o fim do primeiro trimestre e o início do segundo.

A instituição destaca que o enfraquecimento do dólar e um possível novo ciclo de commodities, após o auge dos investimentos em inteligência artificial, tendem a favorecer a América Latina, embora o período eleitoral possa trazer volatilidade mais adiante.

FONTE: O Globo
TEXTO: Redação
IMAGEM: Pixabay

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