Transporte

Presença feminina nas ferrovias cresce e contratação de maquinistas mulheres dispara no Brasil

A presença feminina nas ferrovias brasileiras vive um momento de transformação. Cada vez mais mulheres chegam à cabine das locomotivas, impulsionadas por programas de capacitação, mudanças estruturais e políticas de inclusão adotadas pelas operadoras do setor. A trajetória de profissionais como Jackeline da Silva Sales sintetiza essa mudança histórica.

Histórias que rompem barreiras
Jackeline lembra que entrar pela primeira vez na cabine significou ultrapassar um limite pessoal e coletivo. A maquinista descreve a experiência como “um sonho realizado”, embora marcada por desafios como aprender a mecânica dos equipamentos — área em que muitas mulheres não tiveram estímulos ao longo da vida. A barreira cultural também aparece, com olhares de dúvida sobre a capacidade feminina, mas ela garante: sabe lidar.

A experiência individual, no entanto, é apenas parte de um movimento maior. Empresas ferroviárias vêm estruturando ações de atração, treinamento e adaptação para ampliar a participação feminina em funções operacionais, especialmente na condução de trens.

Rumo amplia contratações e adapta infraestrutura
Na Rumo, controlada pela Cosan, a mudança ganhou velocidade nos últimos dois anos. De apenas duas maquinistas em 2022, a empresa saltou para 45 profissionais na função — cerca de 5% do quadro de maquinistas. A estratégia é vista como oportunidade de negócio.

Segundo Aline Frazilli, gerente de capacitação técnica, equipes diversas aumentam performance e ajudam a mitigar a falta de mão de obra, um dos principais desafios do setor. Para viabilizar a presença feminina, a Rumo readequou vestiários, banheiros e áreas de convivência, treinou lideranças e revisou o modelo de formação técnica. A flexibilização do treinamento, antes de 15 dias fora da cidade, foi decisiva para mães como Jackeline.

Benefícios como licença-maternidade ampliada, auxílio materno-infantil e bolsa maternidade também reforçaram o movimento. Internamente, a empresa já percebe efeitos operacionais positivos, como maior cuidado na condução e redução do desgaste dos equipamentos.

VLI acelera inclusão e já conta com 102 maquinistas mulheres
A VLI segue trajetória semelhante, em ritmo ainda mais acelerado. A operadora dos corredores Norte-Sul, Centro-Sudeste e Minas-Rio tem hoje 1.600 mulheres em seu quadro, sendo 662 na operação e 102 maquinistas — mais que o triplo registrado em 2022.

A empresa mantém vagas exclusivas para mulheres em áreas operacionais, banco permanente de candidatas e um amplo programa de formação técnica. A Mentoria Feminina, criada em 2019, já apoiou 107 colaboradoras, e a VLI investe em trilhas de aceleração de carreira voltadas a futuras líderes.

Para sustentar o avanço, a VLI implementou melhorias estruturais com o Plano do Respeito, que destinou R$ 15 milhões à readequação de vestiários, banheiros, salas de convivência e áreas de aleitamento. O canal de denúncias ganhou atendimento exclusivo para mulheres, realizado por especialistas. Benefícios como licença-maternidade ampliada e ações voltadas à gestação reduziram o turnover feminino. Hoje, 27% dos cargos de alta liderança já são ocupados por mulheres — quase o dobro do registrado em 2020.

Impacto e futuro da participação feminina nas ferrovias
A ampliação da presença feminina já traz impactos mensuráveis em segurança, qualidade operacional e clima organizacional. Para as empresas, investir em diversidade é uma estratégia para enfrentar a escassez de maquinistas e sustentar o crescimento da malha ferroviária.

Para Jackeline, representa muito mais: ocupar um espaço historicamente restrito. “A ferrovia sempre foi deles. Agora tem nosso espaço também. Quando encontro outra mulher no trecho, sinto que faço parte de algo maior.” Nas locomotivas, ela ajuda a conduzir não apenas cargas, mas uma mudança estrutural e irreversível no setor.

FONTE: Transporte Moderno
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Rumo

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