Tecnologia

Programa espacial da China teve apoio tecnológico do Brasil nos anos 1980

Hoje protagonista na corrida espacial e rival direto dos Estados Unidos, a China nem sempre ocupou posição de liderança no setor. Nos anos 1980, o país asiático contou com apoio técnico do Brasil para estruturar parte de sua engenharia espacial — em uma época em que processos ainda eram registrados manualmente, em anotações individuais de engenheiros.

A cooperação bilateral ajudou a moldar o que mais tarde se transformaria em um dos programas espaciais mais robustos do mundo.

Da União Soviética à parceria com a China

A aproximação teve início durante a gestão do então ministro da Ciência e Tecnologia, Renato Archer. A diretriz era buscar cooperação internacional para fortalecer o conhecimento brasileiro na área espacial. Inicialmente, especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) foram enviados à União Soviética, que à época disputava protagonismo tecnológico com os Estados Unidos.

A missão, iniciada em janeiro de 1987, não avançou como esperado. Diante da dificuldade na troca de informações com os soviéticos, os pesquisadores brasileiros redirecionaram esforços para a China.

Sem fluência em inglês por parte dos chineses, os encontros ocorreram com auxílio de intérpretes. Ainda assim, a cooperação começou a ganhar forma, especialmente em torno de melhorias planejadas para satélites.

“Tudo anotado no caderninho”

O engenheiro Cesar Celeste Ghizoni, ex-diretor de Engenharia Espacial do Inpe, integrou a equipe que participou das primeiras visitas técnicas. Segundo ele, o estágio organizacional da engenharia espacial chinesa surpreendeu os brasileiros.

De acordo com Ghizoni, não havia um sistema formal de documentação. Cada engenheiro mantinha registros próprios em cadernos pessoais, utilizados como referência quando necessário. A equipe brasileira colaborou na estruturação de processos, formalização técnica e organização de sistemas de configuração — etapas consideradas essenciais para projetos espaciais complexos.

CBERS: marco da cooperação tecnológica

A parceria evoluiu para a criação do Programa CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite), formalizado em 1988 sob liderança de Marco Antonio Raupp. O acordo previa o desenvolvimento conjunto de satélites de sensoriamento remoto.

O primeiro lançamento bem-sucedido ocorreu em 1999, em território chinês, após mais de uma década de trabalho conjunto. O programa é considerado referência internacional em cooperação tecnológica Sul-Sul.

Embargos e apoio brasileiro na compra de componentes

Naquele período, a China enfrentava restrições comerciais impostas a países alinhados à União Soviética, o que dificultava a aquisição de componentes no mercado internacional. O Brasil, sem os mesmos entraves, passou a intermediar a compra de peças eletrônicas e mecânicas necessárias aos projetos.

A colaboração envolveu não apenas conhecimento técnico, mas também suporte estratégico na cadeia de suprimentos.

Geopolítica e aplicações ambientais

Para o atual presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Marco Antonio Chamon, o contexto geopolítico favoreceu a aproximação. Segundo ele, o Brasil possuía experiência consolidada em aplicações de dados espaciais, o que despertou interesse chinês.

Naquele mesmo período, foi criado o programa PRODES, voltado ao monitoramento anual do desmatamento da Amazônia, iniciativa que serviu de referência para os chineses estruturarem seus próprios sistemas de uso de dados orbitais.

China supera Brasil em investimentos

Especialistas apontam que, ao longo das últimas décadas, a China ampliou de forma consistente seus aportes no setor espacial, superando o Brasil em escala e sofisticação tecnológica.

O professor Maurício Santoro, estudioso das relações Brasil-China, destaca que o programa espacial chinês ganhou prioridade estratégica e recursos crescentes ao longo do tempo. Segundo ele, enquanto os satélites desenvolvidos em parceria continuam sendo fundamentais para o monitoramento ambiental e previsões climáticas voltadas ao agronegócio, o Brasil não acompanhou o ritmo de avanço tecnológico chinês.

Outro diferencial citado é o peso político dos cientistas na China, onde muitos pesquisadores assumiram cargos relevantes no governo e no Partido Comunista, ampliando a influência do setor nas decisões de Estado.

Herança e protagonismo atual

Décadas após as primeiras visitas técnicas, a China se consolidou como uma das maiores potências em tecnologia espacial, com domínio em áreas estratégicas como lançadores, satélites, exploração lunar e sistemas de navegação.

A cooperação iniciada nos anos 1980 permanece como capítulo relevante da história científica brasileira — e como exemplo de como parcerias internacionais podem influenciar o equilíbrio tecnológico global.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM:  Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

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Tecnologia

Inteligência Artificial aproxima empresas do Brasil e da China em busca de parcerias estratégicas

Empresas brasileiras e chinesas avançaram nas negociações para parcerias em Inteligência Artificial (IA) durante encontro realizado na semana passada, na sede do Serpro, em Brasília. A iniciativa foi articulada de forma conjunta pelo Ministério da Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Ministério das Relações Exteriores (MRE) e pela Casa Civil da Presidência da República.

O diálogo ocorre no contexto da implementação de políticas públicas voltadas à soberania tecnológica, com foco no desenvolvimento e uso estratégico da IA no Brasil, a partir de um acordo de cooperação bilateral firmado entre os dois países.

Cooperação Brasil–China em IA ganha continuidade

Batizado de China-Brazil Application Cooperation Centre on Artificial Intelligence, o encontro deu sequência às tratativas iniciadas em 2024, durante a presidência brasileira do BRICS. A proposta é criar um ambiente permanente de cooperação para o desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial, com benefícios mútuos e fortalecimento das capacidades nacionais.

Durante o evento, o secretário de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços do MDIC, Uallace Moreira, ressaltou que o Brasil busca parcerias estratégicas capazes de impulsionar tecnologias ligadas à indústria 4.0, alinhadas às diretrizes da Nova Indústria Brasil (NIB), com destaque para a Missão 4 – Transformação Digital.

“Essas parcerias são fundamentais, desde que tragam ganhos concretos para o país”, afirmou.

Datacenters e sustentabilidade entram na agenda

O secretário também destacou a importância do programa Redata, voltado à instalação de datacenters no Brasil, com critérios de sustentabilidade, eficiência energética e estímulo ao desenvolvimento de cadeias produtivas nacionais, fortalecendo a infraestrutura necessária para aplicações avançadas de IA.

Infraestrutura e modelos de IA no centro dos debates

As discussões do encontro se concentraram em dois eixos principais: infraestrutura computacional em Inteligência Artificial e modelos de IA. Empresas chinesas presentes, reconhecidas por estarem na vanguarda tecnológica global, apresentaram soluções com potencial de aplicação no mercado brasileiro.

As oportunidades mapeadas envolvem desde infraestrutura tecnológica e conectividade, até soluções de IA para eficiência operacional, melhoria de serviços e uso, gestão e compartilhamento de dados, incluindo o desenvolvimento de espaços de dados.

Rodadas de negócios reúnem grandes empresas

Participaram das rodadas de debates e negócios empresas como Huawei, iFlytek, Petrobras, Magalu, Ceia, Cimatec, Widelabs, CPQD, Eldorado, Positivo e SoberanIA, reforçando o interesse do setor produtivo em ampliar a cooperação internacional em tecnologias de Inteligência Artificial.

FONTE: MDIC
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/MDIC

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