Indústria

Montadoras pressionam contra cotas para carros chineses e alertam para impacto de R$ 103 bilhões

Disputa sobre cotas de importação ganha força
As montadoras instaladas no Brasil e fabricantes de autopeças intensificaram a mobilização contra as cotas de importação de carros chineses híbridos e elétricos isentos de imposto. O setor avalia que a manutenção do benefício pode gerar um impacto negativo de R$ 103 bilhões na cadeia automotiva nacional.

Cálculos técnicos foram elaborados pela Anfavea, entidade que representa os fabricantes de veículos, como parte da preparação para o debate sobre o desempenho do setor em 2026 e os efeitos da política atual de importações.

Prazo das cotas termina no fim do mês
As cotas vigentes expiram no próximo dia 31 e permitem a importação, sem imposto, de veículos eletrificados parcialmente ou totalmente desmontados, desde que a montagem final ocorra no Brasil. O modelo é conhecido como SKD (Semi Knocked Down) e CKD (Completely Knocked Down), formato adotado por montadoras chinesas como a BYD, na Bahia.

A indústria teme que o benefício seja prorrogado e atua de forma preventiva para influenciar o governo antes mesmo de um eventual pedido chegar à Camex.

Modelo produtivo preocupa indústria nacional
Segundo a Anfavea, as cotas reduzem a complexidade produtiva no País. Em um cenário extremo, no qual montadoras com operação completa passassem a apenas montar veículos importados, a cadeia de autopeças teria queda anual de R$ 103 bilhões em encomendas.

Esse movimento resultaria em perda estimada de R$ 26 bilhões em arrecadação de ICMS e PIS/Cofins, além de impactos severos no emprego e na balança comercial.

Empregos e arrecadação em risco
O estudo aponta a possível eliminação de 69 mil postos de trabalho nas montadoras e outras 227 mil vagas em fornecedores, o que reduziria em R$ 18 bilhões a arrecadação de tributos federais sobre a folha. O custo adicional com seguro-desemprego poderia chegar a R$ 4 bilhões.

Também são estimados R$ 12 bilhões em saques do FGTS e uma redução de R$ 35 bilhões no poder de compra dos trabalhadores. Na balança comercial, o impacto poderia alcançar R$ 42 bilhões, considerando exportações que deixariam de ocorrer.

Efeito em cadeia preocupa setor
Mesmo uma migração parcial para esse modelo já traria consequências relevantes. Segundo a Anfavea, se apenas 10% da indústria adotasse o formato de baixa complexidade, o impacto sobre fornecedores chegaria a R$ 10,3 bilhões.

A entidade alerta ainda que investimentos já anunciados por montadoras e fabricantes de componentes, que somam R$ 190 bilhões, podem perder sentido caso o modelo de importação com benefícios seja ampliado.

Críticas ao modelo CKD e SKD
Para o presidente executivo da Anfavea, Igor Calvet, os regimes CKD e SKD podem ser aceitáveis como fase inicial de instalação de novas montadoras, mas se tornam problemáticos quando associados a grandes volumes.

Segundo ele, esse formato reduz custos trabalhistas, logísticos e industriais no Brasil, favorecendo importações com carga tributária menor e criando uma concorrência desigual com quem produz localmente com impostos cheios.

Cotas envolvem até 30 mil veículos
As cotas atuais autorizam a importação de até US$ 463 milhões em veículos híbridos e elétricos desmontados, volume estimado em cerca de 30 mil automóveis. O receio do setor é que prazos sejam estendidos ou que novas cotas sejam liberadas.

Até o momento, a Camex informou que não recebeu pedido formal de renovação, mas entidades do setor, como o Sindipeças, já se manifestaram oficialmente contra qualquer prorrogação.

Autopeças também alertam para perdas
O Sindipeças estima que as importações de veículos eletrificados retiram cerca de R$ 97 bilhões em faturamento do setor de autopeças e representam uma renúncia fiscal de R$ 24 bilhões. A entidade também aponta risco de redução expressiva da força de trabalho e desestímulo a novos investimentos.

Histórico de tensão com montadoras chinesas
Em 2024, pedidos da BYD para redução permanente das alíquotas já haviam provocado reação da indústria, incluindo manifestação direta ao presidente da República. Na ocasião, as montadoras tradicionais alertaram para riscos de desindustrialização, enquanto a marca chinesa acusou o setor de tentar barrar a inovação.

A Camex não reduziu as tarifas, mas autorizou as cotas temporárias, agora próximas do vencimento.

Posição das empresas
A GWM, que monta veículos em Iracemápolis, afirmou que não solicitou renovação de cotas ou isenções para produção em CKD. A BYD não se manifestou até a publicação.

Para a Anfavea, o ponto central é garantir competição equilibrada. Segundo Calvet, conceder incentivos tributários para grandes volumes importados compromete a sustentabilidade da indústria automotiva nacional.

FONTE: Estadão
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Estadão

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Indústria

A invasão do aço chinês por meio das autopeças preocupa indústria brasileira

A presença da China na cadeia automotiva brasileira já não se limita aos carros elétricos. A importação crescente de carrocerias e autopeças tem provocado impactos indiretos na indústria do aço, ampliando o volume de metal chinês que chega ao país por meio de produtos industrializados. Dados da consultoria CRU mostram que, entre janeiro e setembro, as chamadas exportações indiretas de aço da China aumentaram 43% na América Latina em comparação com 2023. Quase um quarto desse total está relacionado ao setor automotivo, hoje um dos principais vetores de expansão chinesa fora da Ásia.

Vantagens competitivas ampliam desequilíbrio

Executivos das principais montadoras instaladas na região afirmam que a concorrência com o país asiático deixou de ser apenas comercial. A combinação de crédito subsidiado, excesso de capacidade e forte apoio estatal dá às empresas chinesas vantagens difíceis de igualar.
“O crédito na China custa 4% ao ano; aqui, chega a 15%. Isso explica tudo”, afirmou Martin Galdeano, CEO da Ford na América do Sul, durante o congresso anual da Alacero.

Esse cenário tende a repetir o movimento já visto na siderurgia: produtos chineses mais baratos substituindo a produção local em diversos elos da cadeia, do aço às carrocerias. As montadoras estimam que 10% do mercado brasileiro já é abastecido por veículos vindos da China. Para Alexander Seitz, chairman da Volkswagen na América do Sul, esse número pode chegar a 25% nos próximos anos caso nada mude.

Cadeia produtiva perde espaço

O avanço chinês fica evidente em casos como o da nova fábrica da BYD em Camaçari (BA), instalada no antigo complexo da Ford. Segundo Jorge Oliveira, CEO da ArcelorMittal Brasil e presidente da Alacero, a construção foi inteiramente realizada com aço importado da China, sem uso de material brasileiro. Para ele, o episódio simboliza a perda de valor agregado na indústria nacional ao longo da cadeia automotiva.

Aço indireto ganha protagonismo

De acordo com o consultor John Lichtenstein, da World Steel Dynamics, a China intensificou a exportação de aço indireto — embutido em automóveis, autopeças e equipamentos. No setor automotivo, essa fatia passou de 9% para 19% em dez anos e pode chegar a 25% em breve.
Na América Latina, o fenômeno é ainda mais forte: quase metade do aço indireto importado já tem origem chinesa. Sem o México, onde as regras de origem são mais rígidas, a participação sobe para 65%.

Esse movimento, afirma Lichtenstein, ajuda a explicar por que a pressão sobre a indústria regional cresce mesmo com tarifas e barreiras comerciais. “A China não exporta apenas aço, mas valor agregado. Cada carro produzido lá traz toneladas de aço subsidiado, distorcendo o comércio global.”

Tarifa não basta para frear avanço chinês

Para Jorge Guajardo, ex-embaixador do México na China, o país transformou o excedente de capacidade industrial em estratégia de política externa. “A China vende abaixo do custo até eliminar concorrentes. Depois, o mercado se torna dependente”, afirmou.
Mesmo tarifas de 25% no Brasil ou 50% em outros países não impedem a entrada do aço chinês, que chega “disfarçado” em carros, peças e equipamentos. “É a segunda fase da mesma história”, resumiu.

A nova etapa da desindustrialização

O avanço sobre a cadeia automotiva marca, segundo especialistas, o início de uma desindustrialização 2.0. Se a primeira onda ocorreu com a entrada massiva de aço barato, a nova fase chega sobre quatro rodas. Sem resposta coordenada, a região corre o risco de repetir o ciclo de exportar minério e importar produtos acabados, abrindo mão de complexidade produtiva.

Para Bruce Mac Master, presidente da ANDI, a América Latina continua “apenas reagindo”, sem uma política industrial sólida capaz de proteger suas cadeias estratégicas. Entre as propostas discutidas, estão mecanismos regionais de defesa comercial, maior agilidade em processos antidumping e regras de origem mais rigorosas para conter a triangulação de peças asiáticas. “Não há política industrial possível sem coordenação política”, afirmou.

FONTE: InvestNews
TEXTO: Redação
IMAGEM: João Brito

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Comércio, Exportação

Montadoras e fabricantes de autopeças acionam modo “pânico total” por restrições a terras raras

Frank Eckard, presidente-executivo de um fabricante alemão de ímãs, tem recebido uma enxurrada de ligações nas últimas semanas. Montadoras de veículos e empresas de autopeças têm se mostrado desesperados para encontrar fontes alternativas de ímãs, que estão em falta devido às restrições de exportação chinesas.

Alguns disseram a Eckard que suas fábricas podem ficar paradas até meados de julho sem o fornecimento de ímãs. “Todo o setor automotivo está em pânico total”, disse Eckard, presidente-executivo da Magnosphere, com sede em Troisdorf, Alemanha. “Eles estão dispostos a pagar qualquer preço.”

Os executivos do setor automotivo foram mais uma vez levados às salas de guerra, preocupados com o fato de que os rígidos controles de exportação da China sobre ímãs de terras raras – essenciais para a fabricação de veículos – possam prejudicar a produção. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse na sexta-feira que o presidente chinês, Xi Jinping, concordou em permitir o fluxo de minerais e ímãs de terras raras para os EUA. Uma equipe comercial dos EUA está programada para se reunir com seus homólogos chineses para conversações em Londres na segunda-feira.

O setor teme que a situação das terras raras possa se transformar no terceiro grande choque na cadeia de suprimentos em cinco anos. A escassez de chips causou redução de produção de milhões de carros entre 2021 e 2023 e, antes disso, a pandemia, em 2020, fechou fábricas por semanas.

Essas crises levaram o setor a fortalecer as estratégias da cadeia de suprimentos. Os executivos priorizaram suprimentos de reserva para os principais componentes e reexaminaram o uso de estoques “just-in-time”, que economizam dinheiro, mas podem deixá-los sem inventários quando uma crise se desenrola. No entanto, a julgar pelas ligações recebidas de Eckard, “ninguém aprendeu com o passado”, disse ele.

Desta vez, à medida que o gargalo das terras raras se torna mais apertado, o setor tem poucas boas opções, considerando a extensão do domínio da China sobre o mercado. O destino das linhas de montagem das montadoras foi deixado para uma pequena equipe de burocratas chineses, que analisa centenas de solicitações de licenças de exportação.

Várias fábricas européias de fornecedores de automóveis já fecharam as portas, e mais paralisações estão por vir, disse a associação de fornecedores de automóveis da região, a CLEPA. “Mais cedo ou mais tarde, todos serão confrontados”, disse o secretário-geral da CLEPA, Benjamin Krieger.

Atualmente, os carros terras raras em dezenas de pequenos motores elétricos que equipam componentes como espelhos laterais, alto-falantes, bombas de óleo, limpadores de para-brisa e sensores de vazamento de combustível e de frenagem.

A China controla até 70% da mineração global de terras raras, 85% da capacidade de refino e cerca de 90% da produção de ligas metálicas e ímãs de terras raras, segundo a consultoria AlixPartners. O veículo elétrico médio usa cerca de meio quilo de elementos de terras raras, e um carro movido a combustível fóssil usa apenas metade disso, de acordo com a Agência Internacional de Energia.

A China já tomou medidas restritivas anteriormente, inclusive em uma disputa com o Japão em 2010, durante a qual restringiu as exportações de terras raras. O Japão teve que encontrar fornecedores alternativos e, em 2018, a China foi responsável por apenas 58% de suas importações de terras raras.

A China tem uma carta de terras raras para jogar sempre que quer”, disse Mark Smith, presidente-executivo da empresa de mineração NioCorp, que está desenvolvendo um projeto de terras raras no Estado norte-americano de Nebraska com início de produção previsto daqui três anos. Em todo o setor, os fabricantes de automóveis têm tentado se livrar do uso de ímãs de terras raras da China ou até mesmo desenvolver ímãs que não precisem desses elementos. Mas a maioria dos esforços está a anos de distância da escala necessária.

“Trata-se realmente de identificar… e encontrar soluções alternativas” fora da China, disse Joseph Palmieri, chefe de gerenciamento da cadeia de suprimentos do fornecedor Aptiv, em uma conferência na cidade norte-americana de Detroit na semana passada.

As montadoras, incluindo General Motors e BMW, e os principais fornecedores, como ZF e BorgWarner, estão trabalhando em motores com conteúdo de terras raras zero ou reduzido, mas poucos conseguiram escalar a produção o suficiente para cortar custos.

A UE lançou iniciativas, incluindo a Lei de Matérias-Primas Críticas, para impulsionar as fontes europeias de terras raras. Mas o bloco de países não agiu com rapidez suficiente, disse Noah Barkin, consultor sênior do Rhodium Group, um grupo de estudo norte-americano voltado para a China.

Mesmo as empresas que desenvolveram produtos comercializáveis têm dificuldades para competir com os produtores chineses em termos de preço.

David Bender, codiretor do negócio de reciclagem de ímãs da especialista em metais alemã Heraeus, disse que está operando com apenas 1% da capacidade e terá que fechar no próximo ano se as vendas não aumentarem.

A Niron, sediada na cidade norte-americana de Minneapolis, desenvolveu ímãs livres de terras raras e levantou mais de US$250 milhões de investidores, incluindo GM, Stellantis e a fornecedora de autopeças Magna.

“Observamos uma mudança radical no interesse de investidores e clientes” desde que os controles de exportação da China entraram em vigor, disse o presidente-executivo da Niron, Jonathan Rowntree. A empresa está planejando uma fábrica de US$1 bilhão com início de produção previsto para 2029.

A Warwick Acoustics, sediada na Inglaterra, desenvolveu alto-falantes sem terras raras que devem aparecer em um carro de luxo ainda este ano. O presidente-executivo, Mike Grant, disse que a empresa está em negociações com mais uma dúzia de montadoras, embora os alto-falantes não devam estar disponíveis em modelos convencionais por cerca de cinco anos.

À medida que as empresas automotivas buscam soluções de longo prazo, elas se esforçam para evitar o fechamento iminente das fábricas.

As montadoras precisam descobrir quais de seus fornecedores precisam de licenças de exportação. A Mercedes-Benz, por exemplo, está conversando com fornecedores sobre a criação de estoques de terras raras.

Os analistas afirmam que as restrições podem forçar as montadoras a fabricarem carros sem determinadas peças e mantê-los em pátios até que as autopeças estejam disponíveis, como a GM e outras empresas fizeram durante a crise dos semicondutores.

A dependência das montadoras em relação à China não termina com os elementos de terras raras. Um relatório da Comissão Europeia de 2024 afirmou que a China controla mais de 50% do fornecimento global de 19 matérias-primas importantes, incluindo manganês, grafite e alumínio.

Andy Leyland, cofundador da SC Insights, especialista em cadeia de suprimentos, disse que qualquer um desses elementos poderia ser usado como alavanca pela China. “Isso é apenas um tiro de advertência”, disse ele.

Fonte: MSN

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