Industria

Indústrias de SC demitem em massa após tarifaço e tentam se reinventar em meio à crise

Negócios começaram a derreter com o anúncio da taxação para o Brasil, feito no dia 9 de julho

O ano de 2025 entrou para a história como o que impôs o pior e mais inimaginável desafio aos exportadores de Santa Catarina e do Brasil: enfrentar um tarifaço de 50% para vender aos Estados Unidos, o maior mercado externo catarinense e o segundo brasileiro, por um motivo de polarização política. Os negócios começaram a derreter com o anúncio da taxação para o Brasil, feito no dia 9 de julho, e seguiram com a entrada em vigor da mesma em 6 de agosto.

Apesar de o governo americano ter anunciado uma lista de isenções de aproximadamente 700 produtos, quase nenhum deles é exportado por SC ao país. A economia do estado está tendo que enfrentar o problema em cheio. A lista de setores afetados inclui madeira, móveis, veículos, autopeças, máquinas e equipamentos, alimentos, produtos químicos, materiais de construção, papel e equipamentos de transporte, entre outros.

O mais afetado é o de madeira e móveis, que teve como um dos pontos mais críticos até agora as demissões de quase 400 trabalhadores pela fabricante de móveis Artefama, de São Bento do Sul, na última quarta-feira (17). Ela anunciou uma reestruturação para se ajustar ao tarifaço. Além disso, duas empresas de madeiras de SC foram fechadas — mas o setor não informou quais foram.

Desde o anúncio de Donald Trump, cada empresa tentou ser resiliente a seu modo, antecipando vendas e entregas e ajustando preços. Agora, o continua com esforços para redução de preços no Brasil e junto aos clientes dos EUA, lobby em Washington para reduzir a tarifa por setor ou empresa, corte de custos portuários, linhas de crédito, busca de novos mercados e outras medidas.

Isso porque, até o momento, não há sinais de que poderá haver um acordo entre os governos dos dois países, ainda mais após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro — a verdadeira motivação da taxação de 50%. Por isso, todas as ações dos exportadores de SC não consideram um acordo próximo. Um grupo, como o de produtores de mel no Sul do Estado, espera que a Suprema Corte dos EUA derrube as tarifas e até mesmo force o governo Trump a devolver o que está sendo cobrado. Mas a realidade da crise vai aparecendo gradativamente, pois não existem sinais de que Trump esteja disposto a negociar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), o presidente a entidade, Gilberto Seleme, também acionista de um grupo empresarial exportador, lidera a busca de alternativas para que os setores resistam a esses primeiros meses e sigam vendendo para os EUA, visando redução de tarifas mais adiante. O líder da Fiesc é um dos mais atentos à luta pela redução de custos onde for possível, incluindo até a redução de tarifas portuárias.

A análise, tanto de Seleme quanto do economista-chefe da Fiesc, Pablo Bittencourt, é que nos primeiros meses as estatísticas não refletem muito a realidade porque muitas empresas adiantaram exportações aos EUA. No setor que mostrou estar sofrendo mais, o de madeira e móveis, o saldo de empregos em julho ficou negativo em 581 postos de trabalho com carteira assinada, segundo o Caged, do Ministério do Trabalho. Agora, em setembro, houve a decisão da Artefama e do fechamento de duas empresas.

A maior cidade de SC, Joinville, encerrou mais de 800 empregos na indústria em julho, mas esse recuo, segundo análises, foi mais em função dos juros altos do que devido ao tarifaço. Este mês, os impactos, segundo informações não oficiais, estão ocorrendo mais em função da redução de atividades devido ao tarifaço.

Sobre as duas empresas de madeira que fecharam, a Fiesc recebeu informações de que elas não tinham matéria-prima própria. O custo de comprar de terceiros ficou caro demais.

Recuo das exportações é evidência da crise

O dado que mostrou com mais evidência o impacto do tarifaço de 50% dos Estados Unidos até agora foi a queda de 19,5% das exportações catarinenses em agosto frente ao mesmo mês de 2024. Isso apesar de as vendas de SC ao mercado americano já estarem em queda gradativa desde o final de 2024. Já sentiam os riscos da promessa do presidente Donald Trump de adotar restrições a importações e, depois, iniciar a taxação com alíquota de 10% em abril deste ano.

Em meio a esforços para vender mais e a suspensão de pedidos, os EUA seguiram em agosto como o maior destino das exportações do estado, com receita de 119,2 milhões de dólares, 12,3% do total obtido lá fora. Mas foi um resultado sofrido, com queda de vendas dos principais produtos.Mesmo assim, apesar do início do tarifaço, SC fechou o mês com receita de 971,4 milhões de dólares nas vendas externas — crescimento de 1,54% frente ao mesmo mês do ano passado. O resultado positivo foi alcançado graças a mais vendas para outros mercados: as maiores altas foram para o México (+47%), Chile (+30,9%) e Argentina (+21,7%), apurou o Observatório Fiesc.

De janeiro a agosto, os resultados de SC também foram positivos na balança comercial. Houve crescimento de 5,9% no faturamento de exportações frente ao mesmo período de 2024, somando 7,94 bilhões de dólares. O produto que mais colaborou para esse resultado foi proteína de ave, com alta de 8,1% e receita total no ano de 1,44 bilhão de dólares. No ano, os Estados Unidos também foram o principal destino das exportações de SC. Elas somaram 1,1 bilhão de dólares, com recuo de 1,3%, e responderam por 14,2% do total. A partir de agora, todo mês será uma incógnita, com resultados diferentes.

Maior desafio é no setor de madeira e móveis

Desde que o presidente Trump iniciou as ameaças de elevar tarifas de importações, lideranças de Santa Catarina sempre reconheceram que o maior desafio seria enfrentado pelo setor de madeira e móveis. Isso por ter boa parte de commodity, ter maior concorrência no exterior e por representar quantidade relevante. Em 2024, esse setor respondeu por 44% das exportações de SC ao mercado americano, com 768,3 milhões de dólares.

— Estamos vendo que o exportador de madeira e móveis que tem floresta própria está conseguindo lidar com o preço mais alto. Como a matéria-prima é própria, consegue atribuir um preço mais baixo para a madeira e, assim, está conseguindo negociar e manter clientes. Quem não tem essa alternativa, está sofrendo – observa o economista-chefe da Fiesc, Pablo Bittencourt.

De acordo com o economista, outro obstáculo é que a concorrência asiática já vinha crescendo frente ao Brasil nesse setor, no mercado americano

— Mas os exportadores também estão se mobilizando e buscando outros mercados. Muitos produtores estão voltando a buscar antigos clientes na Europa. Porque nos EUA pagava-se melhor. Então, eles tinham um cliente cativo e acabaram se acostumando a colocar todos os ovos numa cesta só. Agora, estão voltando a buscar clientes que pagavam menos e faziam compras menores – destaca Bittencourt.

Pacote “desTarifaço” ajuda

Após o anúncio de medidas governamentais para amenizar a crise, a Fiesc também lançou o seu pacote, denominado desTarifaço. A série de medidas inclui consultoria gratuita, ajuda para conquistar novos mercados, lobby nos Estados Unidos, apoio a trabalhadores e outras ações.

Para as lideranças da Fiesc, tanto o presidente Gilberto Seleme quanto o primeiro vice-presidente André Odebrecht, se existe um setor que pode conseguir redução de tarifa sensibilizando o governo americano é o de madeira. Isso porque é grande a quantidade de madeira brasileira usada na construção civil e, com 50% de taxa, isso vai encarecer os imóveis por lá. O setor recebendo atenção especial e, há confiança de que poderá seguir vendendo aos EUA.

Seleme fez questão de citar uma série de medidas com esse foco. As exportações de SC estão conseguindo reduzir o preço da madeira, os importadores dos EUA decidiram reduzir um pouco seus preços, existe o incentivo do Reintegra (lei brasileira) e os portos de SC reduziram as tarifas para movimentar cargas. Somando tudo isso, dá uma redução de quase 25% no preço, o que coloca SC competitiva frente aos fornecedores asiáticos. Outra novidade para a entidade é o investimento em presença na capital americana, Washington, com um escritório especializado para fazer lobby. Essa é uma atividade legal nos EUA e a indústria de SC entendeu como necessária.

Além disso, entre as ações do desTarifaço da Fiesc para ajudar as empresas estão missões no exterior para buscar novos clientes. Quem está coordenando isso é a presidente da Câmara de Comércio Exterior da entidade, Maria Teresa Bustamante. Uma missão será realizada em novembro para a Argentina, aproveitando uma exposição internacional na capital, Buenos Aires.

Fonte: NSC Total

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