Tecnologia

China traça rota para se tornar potência científica em 10 anos

Balanço do governo destaca avanços do 14º Plano Quinquenal e metas para consolidar liderança global até 2035

Nos últimos cinco anos, a China passou por um momento histórico de avanços em ciência e tecnologia, alcançando um novo patamar no cenário mundial. Esses resultados fazem parte do 14º Plano Quinquenal (2021-2025), que orienta as metas de desenvolvimento do país.

Nesta quarta-feira (18), o ministro da Ciência e Tecnologia, Yin Hejun, apresentou em Pequim um balanço desses progressos em coletiva de imprensa organizada pelo Conselho de Estado. Ao lado de vice-ministros, ele destacou que as conquistas obtidas até agora são inéditas e fundamentais para que a China atinja seu grande objetivo: tornar-se uma potência global em ciência e tecnologia.

Próximos passos

Segundo Yin Hejun, a China tem um horizonte muito claro: faltam apenas dez anos para atingir a meta de se consolidar como uma potência científica e tecnológica. Ele ressaltou que o país já percorreu um caminho importante, mas que os próximos cinco anos serão decisivos para consolidar as bases dessa transformação. No 15º Plano Quinquenal (2026-2030), o governo definiu quatro grandes diretrizes:

1. Integrar educação, ciência e formação de talentos

A ideia é investir de forma coordenada em universidades, centros de pesquisa e empresas, formando profissionais altamente qualificados. O objetivo é reduzir a distância entre o conhecimento acadêmico e o setor produtivo, garantindo que novos cientistas, engenheiros e técnicos estejam preparados para os desafios tecnológicos do futuro.

2. Aprofundar a ligação entre inovação científica e industrial
A China quer acelerar o processo de transformar descobertas em produtos e serviços aplicáveis no mercado. Isso inclui áreas estratégicas como inteligência artificial, biotecnologia, energias renováveis e exploração espacial. O foco é que os avanços saiam rapidamente dos laboratórios e fortaleçam setores-chave da economia.

3. Criar um ambiente de inovação de classe mundial
Para atrair e manter talentos, o governo promete reduzir burocracias, ampliar linhas de financiamento, fortalecer a infraestrutura de pesquisa e incentivar colaborações internacionais. A ideia é transformar a China em um destino atrativo para cientistas e empreendedores de todo o mundo, em condições competitivas com os principais polos globais.

4. Elevar de forma ampla a capacidade nacional de inovação
Mais do que aumentar investimentos, o objetivo é melhorar a eficiência no uso dos recursos. Isso inclui o fortalecimento da pesquisa básica, a criação de polos regionais de inovação e o estímulo a ecossistemas tecnológicos que possam gerar impacto direto na economia e na sociedade.

Yin destacou que essas medidas fazem parte de um planejamento estratégico de longo prazo, no qual ciência e tecnologia são tratadas como pilares para o desenvolvimento econômico, a segurança nacional e a projeção internacional da China.

“Essas medidas vão consolidar as bases para que a China se firme como líder global em ciência e tecnologia”, afirmou o ministro, reforçando que a inovação é vista como o motor central da modernização chinesa.

Avanços recentes

Nos últimos anos, a China registrou conquistas de grande impacto em diferentes áreas da ciência e da tecnologia, consolidando-se como um dos países mais dinâmicos nesse campo.

Tecnologia quântica, ciências da vida e dos materiais
Pesquisadores chineses fizeram descobertas originais que podem transformar setores inteiros. Na área quântica, há avanços em comunicação segura e computação de altíssima capacidade, capazes de revolucionar o futuro da informática. Em ciências da vida, os progressos vão de técnicas médicas inovadoras a biotecnologias com aplicações na agricultura e na indústria farmacêutica. Já em ciências dos materiais, novos compostos mais leves e resistentes têm potencial para mudar desde a construção civil até a fabricação de eletrônicos de ponta.

Exploração espacial
O país também se consolidou como potência espacial. A Estação Espacial Tiangong entrou em operação regular, funcionando como base para experimentos científicos em órbita e símbolo da autonomia chinesa no espaço. Outro marco foi a missão Chang’e-6, que trouxe à Terra amostras do lado oculto da Lua — feito inédito que amplia o conhecimento científico sobre a formação do satélite e fortalece a posição da China na corrida lunar.

Comunicação e digitalização
No campo das telecomunicações, a China avançou com a implementação em larga escala do 5G, que já sustenta serviços de cidades inteligentes, sistemas de transporte, logística, saúde digital e até agricultura de precisão. A infraestrutura instalada não só impulsiona a economia digital doméstica, mas também ajuda o país a influenciar padrões globais em tecnologias emergentes.

Indústria automotiva e transição energética
Na área automotiva, a China se tornou líder mundial na produção e venda de veículos de nova energia (VNEs), como carros elétricos e híbridos. Essa expansão é resultado da combinação entre investimentos maciços em inovação, forte apoio governamental e crescente demanda interna. O desempenho não só reposiciona a indústria automotiva mundial, mas também contribui diretamente para as metas ambientais chinesas, de redução de emissões de carbono e fortalecimento da economia verde.

Investimentos em pesquisa e desenvolvimento
Essas conquistas se sustentam em uma base sólida de investimento. Apenas em 2024, a China aplicou mais de 3,6 trilhões de yuans (cerca de R$ 2,59 trilhões) em pesquisa e desenvolvimento (P&D), o que representa um crescimento de 48% em relação a 2020. O gasto em P&D já equivale a 2,68% do PIB, superando a média da União Europeia. Além do aporte financeiro, o país conta hoje com o maior número de pesquisadores do mundo, consolidando um ecossistema de inovação robusto e com capacidade de gerar impacto em escala global.

Posição internacional

Os investimentos crescentes em ciência e tecnologia tiveram reflexos claros na posição da China no cenário global. O país subiu do 14º lugar em 2020 para o 10º lugar em 2024 no ranking mundial de inovação, mostrando que sua estratégia de longo prazo está dando resultados concretos. Esse avanço coloca a China ao lado das maiores potências tecnológicas do planeta.

Indústria de alta tecnologia em expansão
Um dos motores dessa ascensão foi o crescimento da indústria de alta tecnologia, que registrou um aumento de 42% em valor agregado nos últimos cinco anos. Esse desempenho é puxado por setores estratégicos como semicondutores, que são a base da revolução digital; biotecnologia, essencial para a medicina e a agricultura do futuro; e energias renováveis, fundamentais para a transição ecológica e para a redução das emissões de carbono.

A força da “nova economia”
Outro destaque é a consolidação da chamada “nova economia”, formada por novas indústrias, modelos de negócio e áreas emergentes como inteligência artificial, comércio eletrônico e veículos inteligentes. Em 2024, esse setor já representava 18% do PIB chinês, revelando o peso crescente de atividades ligadas à inovação na estrutura produtiva do país.

Protagonismo das empresas privadas
As empresas privadas ganharam um papel cada vez mais central nesse processo. Elas respondem hoje por 77% de todos os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), superando a dependência de recursos exclusivamente estatais e mostrando a vitalidade de um setor empresarial que aposta na inovação como diferencial competitivo.

Explosão de empresas de alta tecnologia
O ambiente de negócios também se transformou rapidamente. O número de empresas de alta tecnologia passou de pouco mais de 270 mil em 2020 para mais de 500 mil em 2024, um aumento de 83%. Esse crescimento revela não apenas o fortalecimento de grandes conglomerados, mas também a criação de espaço para startups e companhias inovadoras, capazes de gerar soluções ágeis e criativas em diferentes áreas.

Com esses avanços, a China se consolidou como um dos principais polos de inovação do mundo, combinando escala de investimentos, expansão industrial e dinamismo empresarial para sustentar sua ambição de liderar a economia global do futuro.

Reformas no setor científico

Além dos altos investimentos, a China também passou por uma profunda transformação na forma de organizar sua ciência e incentivar a inovação. O governo percebeu que não bastava apenas colocar mais dinheiro: era preciso mudar as regras do jogo para que pesquisadores, empresas e instituições tivessem mais liberdade, competição saudável e estímulos para produzir resultados rápidos e relevantes.

Novos modelos de incentivo
Foram criados diferentes mecanismos para estimular a inovação:

Ranking competitivo: equipes de pesquisa disputam diretamente entre si para ver quem chega primeiro à solução de um problema. Esse modelo aumenta a eficiência e estimula a criatividade.

Corrida de cavalos: vários grupos trabalham simultaneamente na mesma questão, mas apenas a solução mais eficaz é implementada. Isso evita dependência de uma única equipe e amplia as chances de sucesso.

Líder da cadeia: uma instituição de referência assume a coordenação do projeto como um todo, garantindo foco, organização e integração entre diferentes atores.

Menos burocracia, mais dinamismo
Outra frente importante foi a flexibilização na gestão de recursos. Pesquisadores passaram a ter mais autonomia para usar verbas públicas e privadas, reduzindo a burocracia que muitas vezes travava o andamento de projetos. Além disso, foram criadas avaliações específicas para jovens cientistas, permitindo que eles assumam papéis de liderança e tragam ideias novas sem depender apenas de estruturas hierárquicas tradicionais.

Apoio financeiro ao ecossistema de inovação
No campo financeiro, o governo lançou pacotes de estímulo para fortalecer o ambiente de inovação. Isso inclui fundos especiais para startups tecnológicas, linhas de crédito facilitadas e incentivos fiscais. O resultado já pode ser medido: desde 2021, 376 empresas de base científica e tecnológica abriram capital na STAR Market, a bolsa de inovação de Xangai. Esse movimento não só garante novas fontes de financiamento para essas empresas, como também mostra a confiança dos investidores no potencial tecnológico do país.

Essas reformas estruturais ajudaram a criar um ambiente mais competitivo, flexível e atrativo para pesquisadores e empreendedores, consolidando a ciência como um dos motores da economia chinesa.

Fonte: Revista Fórum

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