Comércio Exterior

O futuro do trigo argentino se joga no Brasil, não na Europa

Sol Arcidiácono afirmou que o acordo com a União Europeia teria um efeito limitado e que a prioridade é fortalecer o vínculo comercial regional.

Dos extensos campos da província de Buenos Aires até os silos de Rosario, o trigo define parte do pulso agrícola e econômico da América do Sul. Esse grão, básico na alimentação humana, não apenas sustenta a dieta diária, como também atua como eixo da industrialização e do comércio regional. Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai participam de um mercado que conecta a produção local aos fluxos globais de trigo e farinha, dependentes tanto do clima quanto da logística, das políticas e dos preços internacionais.

A head de Grãos da Hedgepoint há quase dez anos e diretora para a América Latina, Sol Arcidiácono, conversou com serindustria.com.ar sobre esse mercado em que atua há quase 20 anos. De Rosario, analisou como a produção e a exportação de trigo na América do Sul não só impactam a economia regional, mas também condicionam a dinâmica da moagem, da industrialização e do consumo de alimentos básicos.
Num cenário marcado pela mudança climática, pela volatilidade internacional e pelas regulações locais, sua perspectiva permite entender por que o trigo continua sendo um pilar estratégico da agricultura sul-americana e como se projeta seu futuro nos próximos anos.

“A produção de trigo nas Américas está distribuída nos polos. A principal oferta está no Polo Norte com Canadá e Estados Unidos, que juntos exportam entre 50 e 60 milhões de toneladas”, explicou Arcidiácono.

A Argentina tem um papel central no hemisfério sul, com um saldo exportável entre 8 e 14 milhões de toneladas, dependendo do ano. Paraguai e Uruguai produzem cerca de 1 a 1,5 milhão de toneladas cada um e exportam aproximadamente 1 milhão de toneladas combinadas em bons ciclos. “No Uruguai, cresceram muitos outros cultivos de inverno para favorecer a rotação com a soja e a área de trigo diminuiu um pouco. Cresceu bastante a canola, oleaginosa que acompanhou toda a revolução dos biocombustíveis que o Uruguai tem, já que exporta biocombustíveis e óleos de canola para a Europa”, comentou a especialista.

Por sua vez, o Brasil, principal importador regional, registrou avanços significativos na produção. “Passou de produzir 5 ou 6 milhões de toneladas para ter um ano acima de 9 milhões de toneladas. Foi um ano excepcional. Custa muito ficar acima de 6-7 milhões porque o risco climático é maior, há mais desafios, geadas precoces, o ciclo é mais curto e a área mais concentrada. Não é como na Argentina, onde a produção é mais distribuída e, se uma região tem problema, outra compensa.”

Para a safra 25/26, os preços internacionais baixos não geram incentivos para ampliar a área plantada: “Quem planta trigo neste ciclo é o triticultor tradicional”, destacou Arcidiácono, acrescentando: “Vemos uma redução de área nesta safra, considerando essas circunstâncias, preços internacionais bem mais baixos e o risco produtivo”.

Mudança climática e volatilidade nos mercados
A mudança climática impacta de forma significativa a agricultura, especialmente em cultivos mais vulneráveis, confirmou Arcidiácono. “Vemos isso em cultivos tropicais, principalmente ligados ao excesso de chuvas, às inundações. Observamos muito mais volatilidade em produtos como óleo de palma e café. De fato, na Hedgepoint desenvolvemos um derivativo para cobertura de risco climático.”

A especialista explicou que a distribuição global do trigo é mais pulverizada do que a de outros grãos. “A oferta de trigo está mais distribuída. No hemisfério norte há maior concentração, 80% do trigo é produzido e exportado de lá. Depois vem o hemisfério sul, com Argentina e Austrália principalmente.”

Sobre o ciclo 25/26, destacou que mostra rendimentos superiores à média em vários países. “Tivemos uma colheita acima do projetado na Rússia. Uma recuperação muito grande na Europa, somando 30 milhões de toneladas no bloco. O Canadá teve uma colheita quase recorde. Os EUA recuperaram bastante na primavera, com oferta e estoques confortáveis. No hemisfério sul, a Austrália espera safra recorde acima de 34 milhões de toneladas. A Argentina, apesar dos desafios, de chuvas excessivas e inundações pontuais, caminha para uma grande colheita.”

Políticas governamentais e competitividade da indústria de moagem
As políticas e regulações impactam diretamente a competitividade da indústria de moagem na América do Sul. “Em geral, quando começamos a industrializar surgem mais barreiras, tarifas, algo que está na moda com a bandeira de Trump. Sem dúvida, as políticas que acabam sendo barreiras definem a competitividade”, declarou Arcidiácono.

Na Argentina, apesar de uma indústria avançada, os impostos internos limitam a competitividade frente a outros países. “De toda forma, a indústria argentina não é competitiva em geral comparada a outras, mas mais pelo peso da carga tributária doméstica do que por tarifas externas.”

Sobre a capacidade ociosa de moagem na Argentina, estimada em 50%, para Arcidiácono o índice não é tão alto quanto parece. “A moagem é uma indústria tradicional que teve papel social no interior, com capacidade instalada importante. Nos últimos anos, trabalhou-se em otimizar custos e incorporar tecnologia.”

Ela destacou que a tecnologia não se limita às máquinas, mas também a processos e questões sanitárias. “O desenvolvimento tecnológico é 360° dentro do moinho, sempre pensando na oportunidade e no desafio de sair do commodity.”

A diversificação também faz parte da estratégia. “Um desafio da moagem foi acompanhar as novas tendências de consumo, incluir outros produtos além do trigo, como farinhas de grão-de-bico, milho, produtos sem glúten e ampliar sua oferta.”

Quanto à logística do trigo, Arcidiácono afirmou que a Argentina consegue abastecer o mercado interno e exportar. “O abastecimento dos padeiros está muito vinculado à concentração populacional. O maior consumo está na província de Buenos Aires, que também é o maior produtor. A logística é muito eficiente.”

Comparado a outros cultivos, o trigo não enfrenta gargalos logísticos sérios. “O desafio logístico não é tão notório porque o trigo não compete por espaço e rotas com milho e soja, que saem juntos em março e abril. Para o trigo, logística não é problema. O mais complicado é a estrutura financeira, por causa das altas taxas e da instabilidade.”

No caso do Brasil, a dinâmica é diferente: o país mói um terço de trigo próprio e importa dois terços. “Precisa da importação argentina. Embora haja um pico de pressão na entrada da safra, o Brasil compra durante todo o ano, com maior concentração entre dezembro e março.”

Oportunidades e exportações
Na exportação de farinha de trigo há oportunidades em nichos específicos. Arcidiácono citou a Turquia como principal exportador mundial, que encontrou um mercado de especialidade em farinhas para massas, sobretudo com o trigo durum.

Por isso, ela considera que existem oportunidades para a Argentina, mas não como commodity, e sim como produto diferenciado. Contudo, o país precisaria investir mais em fertilização para garantir qualidade estável. “Com esse desenvolvimento, poderíamos pensar em uma oportunidade de exportação de nicho, agregando valor e conseguindo preço diferenciado.”

Ao analisar o cenário global, o conflito entre Rússia e Ucrânia gerou volatilidade nos preços. O auge foi em 2022, com o início da guerra e incertezas sobre o abastecimento. Antes, a Ucrânia produzia até 30 milhões de toneladas. “O conflito virou crônico e está mais concentrado em commodities energéticas, mas o trigo continua no radar.”

Arcidiácono também destacou o impacto da política monetária global. Com expectativa de queda das taxas pelo FED, pressionado por Donald Trump, e um dólar enfraquecido, o trigo americano ganha competitividade. “Taxas mais baixas acelerariam a economia, e o consumo de trigo está diretamente ligado ao consumo humano. Não gera volatilidade como fatores geopolíticos, mas a política econômica é relevante para os preços do trigo entrando em 2026.”

Estratégias regionais e papel da Argentina
Hoje, a distribuição mundial do trigo não parece ser um problema. Ainda assim, países sul-americanos poderiam fortalecer sua posição com políticas mais estáveis. “Para a Argentina, é muito saudável alcançar uma colheita de 20 milhões de toneladas ou mais. Isso é positivo para os cultivos, para a sazonalidade da economia e também para a logística, porque março, abril e maio concentram a saída dos cultivos de verão”, afirmou.

Ela lembrou que em outros períodos o país produziu entre 10 e 12 milhões de toneladas, praticamente a metade dos últimos ciclos. Atingir 20 milhões ou mais “é importante, e o país tem potencial para ainda mais”. Essa possibilidade, no entanto, não se replica na mesma escala em Uruguai, Brasil e Paraguai.

Mas alertou que a competitividade argentina continua limitada pelas retenções. “Embora tenham caído muito, já chegaram a ser o dobro. Ainda assim, se perde competitividade porque entramos no mercado mundial com regras que uruguaios e paraguaios não têm. Vamos mais pesados ao mundo.”

O futuro do trigo argentino se joga no Brasil?
Sobre o acordo União Europeia–MERCOSUL, Arcidiácono é cautelosa. “Tenho dúvidas de que seja aprovado, há bastante pressão. Precisa da aprovação de todos os países-membros. Seria benéfico para a agricultura argentina. Tomara que avance, porque seria muito bom.”

No caso do trigo, porém, o impacto seria limitado, já que a Europa também é produtora e exportadora. No curto prazo, poderia haver mais oportunidades em farinha, soja e milho. “Europa compra soja dos EUA; poderia abrir-se espaço para a Argentina, inclusive em biocombustíveis.”

Para ela, o maior potencial de crescimento não está no trigo, mas na soja e no biodiesel. O fator mais determinante para o trigo é o arancel externo comum do MERCOSUL, hoje em 10,5%, que o Brasil administra. “Se será zero, um milhão de toneladas ou outro valor, é o que define quanto trigo pode importar sem pagar tarifa.”

Assim, manter cooperação com o Brasil é essencial. “Mais da metade do trigo que exportamos vai para lá. Existe um codo a codo importante. O Brasil precisa de uma Argentina competitiva.”

Mas, quando a Argentina perde competitividade, o mercado brasileiro reage. “Quando não temos trigo suficiente ou não somos competitivos por câmbio ou restrições, o Brasil se incomoda e busca outros fornecedores. Já chegou a importar trigo da Rússia, o que é um absurdo, estando nós ao lado.”

A chave, portanto, está em garantir estabilidade produtiva. “É fundamental que nunca mais se restrinjam exportações nem haja travas. Isso consolida o vínculo de abastecimento seguro que o Brasil sente da Argentina. Isso é mais importante para o trigo do que qualquer outra coisa.”

Por fim, Arcidiácono refletiu sobre o valor cultural do trigo e da indústria. “A moagem argentina ainda tem trabalho a fazer. Existe muita propaganda contra alimentos à base de trigo e pão. Esse é um desafio maior para a panificação do que para a moagem, mas ambos precisam caminhar juntos.”

Apesar disso, mostrou-se otimista quanto ao futuro. “Há muito espaço para crescer no consumo per capita de trigo no mundo. Na Argentina, é alto pela nossa cultura de imigrantes e pelo abastecimento garantido, com moinhos em todo o país. Mas há um trabalho cultural de conquista que o trigo e o pão precisam fazer no mundo todo”, concluiu.

FONTE: Ser Industria
IMAGEM: Reprodução/Ser Industria

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Economia

Banco Mundial eleva previsão de crescimento da América Latina para 2026, mas alerta para desafios estruturais

Região segue com o ritmo mais lento de expansão global.

O Banco Mundial revisou para cima sua projeção de crescimento econômico da América Latina e do Caribe para 2026. Apesar da leve melhora nas estimativas, a região continua sendo a de menor expansão no mundo, impactada por fatores como inflação persistente, altos níveis de endividamento e incertezas ligadas às políticas tarifárias dos Estados Unidos.

Segundo o novo relatório, a economia latino-americana deve crescer 2,5% em 2026, acima da previsão anterior de 2,4%, divulgada em junho. Para 2025, a expectativa de avanço permanece em 2,3%, representando uma leve recuperação frente aos 2,2% registrados em 2024.

Projeções para Brasil e México se mantêm estáveis

O Banco Mundial manteve sua projeção de crescimento para o Brasil em 2,4% em 2025, com desaceleração prevista para 2,2% em 2026. Já o México deve registrar expansão de 0,5% este ano, acima da estimativa anterior de 0,2%, acelerando para 1,4% no próximo ano.

De acordo com Susana Cordeiro Guerra, vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe, os governos da região têm conseguido preservar a estabilidade econômica, mesmo diante de sucessivos choques. “Agora é o momento de avançar em reformas que melhorem o ambiente de negócios, ampliem os investimentos em infraestrutura e mobilizem o capital privado”, afirmou.

Argentina e Bolívia enfrentam cenários distintos

A Argentina continua sendo uma das economias com maior ritmo de crescimento entre as grandes da região. No entanto, o Banco Mundial reduziu sua projeção para 2025, de 5,5% para 4,6%, e prevê desaceleração para 4% em 2026.

Já a Bolívia deve enfrentar retração neste e no próximo ano, o que representa um desafio adicional para o governo que será eleito no segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 19 de outubro.

Entraves estruturais limitam o desenvolvimento

O relatório do Banco Mundial aponta que, embora os preços devam se manter estáveis, as metas de inflação tornaram-se mais difíceis de alcançar e a queda das taxas de juros ocorre de forma lenta. Além disso, as incertezas sobre o comércio global, especialmente diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos, têm inibido investimentos em diversos setores.

Outros fatores históricos também continuam limitando o crescimento: infraestrutura precária, sistemas educacionais deficientes e um ambiente de negócios que favorece empresas já consolidadas. “As empresas querem contratar, mas não encontram trabalhadores qualificados”, explicou William Maloney, economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe. “O problema está tanto na formação escolar quanto no sistema de capacitação profissional.”

Fonte: Reuters / Infomoney
TEXTO: REDAÇÃO
IMAGEM: PORTO DE ITAJAÍ

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Importação

Petrobras realiza primeira importação de gás natural da Argentina

A Petrobras concluiu na última sexta-feira (3.out.2025) a primeira importação de gás natural proveniente da formação de Vaca Muerta, na Argentina. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (6.out) pela estatal, que firmou parceria com a Pluspetrol para viabilizar a operação.

Operação-piloto de gás natural

O transporte envolveu cerca de 100 mil m³ de gás não convencional, produzido pelas subsidiárias Petrobras Operaciones S.A. (POSA) e Pluspetrol. O objetivo do teste foi avaliar a viabilidade comercial e operacional da iniciativa.

O trajeto do combustível foi realizado por gasodutos, saindo da Argentina, passando pela Bolívia e chegando ao Brasil. Pelo contrato assinado, a Petrobras poderá importar até 2 milhões de m³ de gás na modalidade interruptível, ou seja, com fornecimento sujeito a suspensão caso a infraestrutura seja necessária para outras demandas.

Segundo a empresa, essa flexibilidade garante que o experimento ocorra sem afetar o abastecimento regular do mercado de gás natural no Brasil.

Integração de mercados de energia

Para Angélica Laureano, diretora de Transição Energética e Sustentabilidade da Petrobras, a operação marca um avanço estratégico.

“Essa solução logística e comercial abre uma nova possibilidade para a importação de gás natural pelo Brasil, reforçando nosso compromisso com o aumento da oferta e com o desenvolvimento sustentável do mercado”, destacou.

A Petrobras mantém presença na Argentina por meio da POSA, onde detém 33,6% de participação não-operada no campo de Rio Neuquén, nas províncias de Neuquén e Rio Negro. A produção local é majoritariamente de gás não convencional (tight gas), extraído das formações geológicas Punta Rosada e Lajas.

O que é o gás de xisto?

O gás de xisto é uma forma de gás natural aprisionado em rochas densas chamadas xistos. Diferentemente do gás convencional, que se acumula em reservatórios porosos, ele exige técnicas avançadas para extração, como o fraturamento hidráulico (fracking).

Nesse método, uma mistura de água, areia e produtos químicos é injetada sob alta pressão, abrindo fissuras nas rochas e permitindo a liberação do gás. Apesar da eficiência para acessar grandes reservas, a técnica é cara, intensiva em recursos e envolve riscos ambientais.

Entre as preocupações, estão o possível contato com lençóis freáticos, o alto consumo de água, a ocorrência de abalos sísmicos e a emissão de metano, um potente gás de efeito estufa.

No Brasil, a exploração de gás de xisto por fracking não é regulamentada. Decisões judiciais já suspenderam atividades do tipo em áreas da Bahia e do Paraná, que haviam sido leiloadas pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).

FONTE: Poder 360
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Poder 360

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Exportação

China prioriza Argentina e Austrália e deixa Brasil e EUA de fora em compras de soja e carne bovina

Importadores chineses compraram milhões de toneladas de soja da Argentina em setembro, logo após Buenos Aires suspender temporariamente os impostos de exportação sobre grãos e derivados.

Ao mesmo tempo, a carne bovina australiana ganhou terreno no mercado chinês, enquanto as vendas dos Estados Unidos recuaram com força em meio a licenças vencidas para plantas frigoríficas e à escalada tarifária entre Washington e Pequim.

O movimento acendeu um alerta no governo norte-americano e reconfigurou o tabuleiro do agronegócio no curto prazo.

Soja argentina ganha força com isenção de impostos

A decisão do governo de Javier Milei de suspender, por prazo limitado, as retenciones sobre soja, milho, trigo e derivados tornou os embarques argentinos mais competitivos.

Negociadores chineses fecharam ao menos 20 carregamentos, algo próximo de 1,3 milhão de toneladas, com embarques previstos para novembro e início de 2026.

Segundo relatos de mercado, os volumes deste mês alcançaram o maior patamar em sete anos, ocupando um espaço que, em anos anteriores, tenderia a ser suprido por fornecedores dos Estados Unidos.

Embora a China tradicionalmente concentre boa parte das compras do quarto trimestre na safra norte-americana, a combinação entre tarifas bilaterais, preços internos elevados nos EUA e a janela fiscal aberta pela Argentina empurrou os chineses para a América do Sul.

De acordo com reportagens internacionais, essa rodada de compras cobriu mais da metade das necessidades de curto prazo de esmagadoras chinesas, reduzindo a urgência de buscar grão norte-americano na virada da safra.

Governo Trump reage à aproximação entre China e Argentina

A guinada chinesa causou incômodo dentro do governo Donald Trump.

Durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, um fotógrafo registrou o secretário do Tesouro, Scott Bessent, lendo no celular uma mensagem atribuída a “BR”, interpretação corrente para a secretária da Agricultura, Brooke Rollins.

O teor apontava preocupação com o efeito colateral do alívio tributário argentino sobre os agricultores dos EUA e com a rota de vendas para a China.

Em público, integrantes do gabinete tentaram conter o desgaste.

Bessent afirmou que o apoio dos EUA a Buenos Aires se dá por meio de linha de swap de crédito, não por desembolsos diretos, e que o objetivo é dar estabilidade financeira à economia argentina.

Em paralelo, associações do setor agrícola norte-americano relataram perda de espaço na China e pediram previsibilidade nas negociações comerciais.

Carne bovina australiana substitui produto americano

No mercado de proteína bovina, a curva também virou.

Após Pequim retomar autorizações e retirar sanções impostas a vários frigoríficos australianos nos últimos anos, os embarques da Austrália para a China aceleraram.

Já os EUA sentiram um choque duplo: além da reacensão da disputa tarifáriacentenas de registros de plantas e entrepostos frigorificados norte-americanos expiraram, afetando a capacidade de exportação.

Os números recentes ilustram a mudança de fluxo.

As vendas dos EUA para a China despencaram para algo próximo de US$ 8 milhões em julho e US$ 10 milhões em agosto, bem abaixo dos valores superiores a US$ 100 milhões observados nos mesmos meses do ano anterior.

No sentido oposto, a Austrália ampliou rapidamente sua fatia de mercado, amparada por oferta mais abundante e por um produto que atende nichos chineses de grão-alimentado.

Grandes processadoras americanas também enfrentam rebanho apertado e preços domésticos recordes, o que reduz a competitividade no exterior.

Brasil mantém liderança nas exportações de soja

Apesar do título sugerir um afastamento, o Brasil continua sendo o principal fornecedor de soja à China em 2025, com recordes de embarque ao longo do primeiro semestre e volumes robustos em agosto.

O que ocorreu, neste recorte de setembro, foi uma substituição tática: diante da brecha tributária aberta por Buenos Aires, compradores chineses aproveitaram para antecipar parte das compras na Argentina.

No caso da carne bovina, o reposicionamento favoreceu a Austrália, não o Brasil.

Ainda assim, há pontos de atenção para produtores brasileiros.

Em janeiro, a China suspendeu temporariamente embarques de algumas tradings e cooperativas por exigências fitossanitárias, ainda que o impacto global tenha sido limitado e depois atenuado.

Além disso, a volatilidade tarifária global e a intensificação da disputa comercial entre Washington e Pequim podem redistribuir demanda entre fornecedores de forma súbita, inclusive deslocando negócios da América do Sul conforme preços e regras mudem.

Efeitos imediatos no comércio agrícola global

Para a soja, a demanda chinesa por grão argentino deve se concentrar na janela em que a suspensão de impostos estiver vigente ou até que o teto estipulado pelo governo seja alcançado.

Esse fator, mais o câmbio e o avanço da colheita norte-americana, tende a pesar sobre prêmios e curvas futuras nas próximas semanas.

Por outro lado, esmagadoras chinesas relatam margens positivas com a soja sul-americana, reforçando o apetite por cargas adicionais se a janela fiscal for prorrogada.

Na carne bovina, os EUA enfrentam um processo mais difícil de reverter.

Mesmo que parte dos registros seja renovada e que haja alívio tarifário temporário em setores específicos, a quebra de continuidade no fornecimento costuma penalizar quem perde gôndola.

A Austrália, com oferta crescente e status sanitário reconhecido pela China, tende a consolidar contratos no último trimestre, enquanto os frigoríficos brasileiros seguem disputando nichos na Ásia com restrições pontuais.

Política comercial molda o novo mapa do agronegócio

O pano de fundo é eminentemente político.

Tarifas recíprocas elevadas, investigações e exigências regulatórias têm reconfigurado rotas de commodities desde o início do ano.

Em resposta, a China diversificou origens, escalou compras no Brasil e ativou a Argentina quando houve corte tributário.

Do lado norte-americano, produtores pressionam por alívio e previsibilidade, mas esbarram em uma estratégia tarifária que o governo considera parte de uma agenda de segurança econômica mais ampla.

No curto prazo, o resultado é um triângulo competitivo — Brasil, Argentina e Austrália — atendendo ao maior comprador global de soja e um dos maiores de carne bovina, enquanto os Estados Unidos lidam com restrições próprias e com o custo de vender para um cliente que responde de forma contundente a cada tarifa ou regra nova.

Diante dessa nova configuração, qual país do Cone Sul ganhará mais espaço se a janela fiscal argentina for prorrogada e a Austrália mantiver o embalo no mercado chinês?

FONTE: Click Petróleo e Gás
IMAGEM: Reprodução/Click Petróleo e Gás

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Industria

Indústria de máquinas cresce 10,6% em 2025, mas ritmo desacelera

Receita do setor ultrapassa R$ 200 bilhões até agosto

A indústria de máquinas e equipamentos registrou R$ 200,8 bilhões em receita entre janeiro e agosto de 2025, alta de 10,6% em relação ao mesmo período de 2024, segundo a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos).

Apesar do resultado positivo, o setor mostra desaceleração no crescimento. Até julho, o avanço acumulado era de 13,6%.

Impacto do tarifaço e queda em agosto

Em agosto, com o início do tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil, a receita de vendas recuou 5,6% frente ao mesmo mês do ano anterior, totalizando R$ 26,5 bilhões.

Segundo a Abimaq, o desempenho estava dentro das expectativas. A entidade prevê que os próximos meses mantenham o ritmo mais lento, reflexo da política monetária contracionista e das barreiras comerciais impostas pelo governo norte-americano.

Mercado interno em alta, exportações estáveis

De janeiro a agosto, as vendas internas somaram R$ 153,2 bilhões, crescimento de 12,7% ante 2024. Já as exportações alcançaram US$ 8,3 bilhões, praticamente estáveis, com leve queda de 0,1%.

Entre os destaques positivos, cresceram as vendas de máquinas agrícolas, de bens de consumo não duráveis e de componentes industriais. O maior impulso veio da América do Sul, especialmente Argentina, Chile e Peru.

Mudança nos destinos das exportações

O desempenho internacional mostrou realocação de mercados em 2025:

  • América do Norte: queda de 9% nas compras;
  • Europa: crescimento de 11,6%;
  • América do Sul: avanço de 17,2%.

Na região sul-americana, a Argentina se destacou com salto de 47,2% nas aquisições, puxado pelo aumento nas compras de máquinas agrícolas (+82,8%) e para construção civil (+80,1%).

Nos Estados Unidos, que ainda representam 25,9% das exportações brasileiras, houve retração de 7,5%, principalmente devido à menor demanda por máquinas para construção civil (-14,9%). Em 2024, a participação norte-americana era de 26,9%.

Importações sobem com força, China lidera

As importações de máquinas e equipamentos somaram US$ 21,1 bilhões até agosto, alta de 9,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A China segue como principal fornecedora, responsável por 31,8% do total importado no acumulado do ano. Apenas em agosto, o país respondeu por 30,6% das compras, com aumento mensal de 12,9%. No comparativo anual, o crescimento das importações vindas da China foi de 18%.

FONTE: Modais em Foco
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Modais em Foco

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Internacional

Argentina projeta exportação de 2 milhões de toneladas de milho em setembro, aponta line-up

O line-up argentino de milho, que detalha a programação de embarques do grão, projeta a exportação de 2,045 milhões de toneladas em setembro, de acordo com levantamento realizado por Safras & Mercado.

Volume já embarcado e expectativa para o mês
Do total previsto para o mês, 1,2 milhão de toneladas já foram embarcadas, enquanto 844,978 mil toneladas permanecem projetadas para futuras exportações.

Projeção acumulada para 2025/26
No período de março de 2025 a fevereiro de 2026, o line-up registra um acumulado preliminar de 21,261 milhões de toneladas de milho programadas para exportação, refletindo a robusta presença da Argentina no mercado internacional de grãos.

Fonte: Portal do Agronegócio

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Comércio Exterior

Argentina suspende imposto de exportação sobre grãos até 31 de outubro

O governo da Argentina anunciou, nesta segunda-feira (22), que zerou as retenciones (imposto de exportação) para os grãos e derivados até o dia 31 de outubro. A medida foi informada pelo porta-voz da presidência, Manuel Adorni e visa “gerar uma maior oferta de dólares durante este período”.

A decisão afeta o comércio de soja, milho, trigo e girassol.

“A velha política busca gerar incerteza para boicotar o programa do governo. Com isso, pune o povo argentino: não permitiremos isso”, escreveu Ardoni na rede social X.

A expectativa oficial é que o setor agrícola acelere as vendas externas, o que se traduzirá em uma maior entrada de dólares no Banco Central, que está sob pressão há semanas devido à falta de reservas.

Em julho, o presidente argentino Javier Milei já havia reduzido o imposto sobre as exportações de carne bovina e de frango de 6,75% para 5%. Para o milho e o sorgo, a taxa foi de 12% para 9,3%. No caso do girassol, as retenciones passaram de 7,5% e 5% para, respectivamente, 5,5% e 4%. Já a soja, principal produto de exportação da Argentina, a alíquota foi reduzida de 33% para 26% e os subprodutos, de 31% para 24,5%.

Fonte: Globo Rural

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Internacional

Rota Bioceânica: Argentina vira entrave para corredor rumo ao Pacífico

O trecho argentino da Rota Bioceânica, corredor que pretende abrir um novo caminho para as exportações brasileiras pelo Oceano Pacífico, enfrenta significativos desafios em sua implementação.

O percurso de aproximadamente 700 quilômetros que atravessa o território argentino apresenta as maiores dificuldades entre os quatro países participantes do projeto.

Um estudo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) identificou 11 problemas críticos na região fronteiriça, incluindo a ausência de condições mínimas para o transporte seguro de cargas e deficiências na infraestrutura de acesso

A situação é agravada pela existência de 26 quilômetros de estrada não pavimentada logo após a fronteira, sem perspectivas imediatas de obras.

Potencial do lítio

A região atravessada pela rota inclui o chamado Triângulo do Lítio, formado por Argentina, Chile e Bolívia, que concentra quase metade das reservas mundiais do mineral, totalizando 57 milhões de toneladas.

O lítio é componente essencial na fabricação de baterias para veículos elétricos e dispositivos eletrônicos, sendo objeto de disputa geoeconômica entre Estados Unidos e China.

Em Susques, povoado argentino localizado a 4 mil metros de altitude próximo à fronteira com o Chile, a empresa Excer, que conta com capital chinês, mantém uma planta industrial com potencial para produzir 40 mil toneladas anuais de carbonato de lítio para baterias.

Desafios burocráticos

A integração aduaneira representa um dos principais entraves para o sucesso do projeto. Os relatos coletados durante a viagem apontam dificuldades na circulação de cargas e mercadorias devido ao número reduzido de funcionários e horários restritos de funcionamento nas alfândegas.

O professor Alejandro Safarov, integrante de uma rede acadêmica que estuda a rota, indica que o projeto nunca despertou interesse significativo dos agentes econômicos de Buenos Aires, que tradicionalmente priorizam investimentos no porto da capital argentina.

A concentração de 40% da população e 80% das exportações na região de Buenos Aires, Córdoba e Santa Fe contribui para essa resistência à descentralização logística.

Fonte: CNN Brasil

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Internacional

Argentina anuncia mecanismo para diminuir filas nas fronteiras

De acordo com a Direção Nacional de Migrações, medida permitirá reduzir a demora em locais como a aduana de Puerto Iguazú.

A Direção Nacional de Migrações (DNM) da Argentina publicou em Diário Oficial, na última quarta-feira (10), a Portaria (Disposición) n.º 1.399/2025. O documento estabelece mecanismos para reduzir as filas nos pontos de entrada e saída do país.

De acordo com a DNM, a normativa dispõe sobre a instalação de terminais de autenticação biométrica (TABs) nas aduanas das fronteiras da Argentina. Tais terminais contarão com sistema de reconhecimento facial e registro de impressões digitais.

Embora ainda não confirmado, locais com grande circulação de viajantes internacionais, como a cabeceira da Ponte Tancredo Neves em Puerto Iguazú, estão entre os pontos prioritários para a implantação da tecnologia.

Além disso, os primeiros equipamentos estarão destinados, exclusivamente, à modalidade de tráfego vicinal fronteiriço (TVF). O TVF permite que turistas circulem por cidades nas áreas limítrofes da Argentina, para estadas geralmente inferiores a 24 horas.

“Atualmente, existem inovações tecnológicas aplicáveis aos fins de robustecer as intervenções dos organismos de controle”, cita a justificativa da portaria. “A incorporação destas tecnologias permitirá uma gestão mais eficiente e segura.”

Assim, o governo da Argentina não abriria mão do controle da documentação de quem entra ou sai do país, mas proporcionaria um trânsito mais ágil. Não há, contudo, previsão de data para que o sistema comece a funcionar na aduana de Puerto Iguazú.

Nos períodos de alta temporada do turismo, a espera para passar pela cabeceira argentina da Ponte Tancredo Neves pode chegar a quatro horas.

Tal situação, que segue sem solução ao longo dos anos, é alvo de queixas constantes de moradores e representantes do turismo de ambos os lados da fronteira.

Fonte: H2 Foz

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Comércio Exterior, Negócios

22 empresas embarcam para missão comercial do Franchising Brasil na Argentina

A delegação irá participar de workshops, de visitas técnicas e da 30ª Expo Franquicias Argentina 2025 em Buenos Aires

Dos dias 9 a 12 de setembro, 22 marcas de franquias brasileiras estarão em Buenos Aires, Argentina, para uma missão comercial. Essa é uma iniciativa do programa Franchising Brasil, uma parceria entre a Associação Brasileira de Franchising (ABF) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), focado na internacionalização de empresas brasileiras do setor de franquias. 

A agenda inclui imersão no mercado de franquias argentino por meio de workshops, visitas técnicas a stakeholders do setor e dois dias de participação na Expo Franquicias 2025. Conta também com o apoio da Embaixada do Brasil, órgãos do governo local e da Associação Argentina de Marcas e Franquias (AAMF).

A missão tem como objetivo expandir o intercâmbio comercial entre os países e reforçar a atuação das marcas brasileiras no mercado internacional. Dentre as 22 franquias que farão parte da delegação, estão: Aramis, Bateras Beat, Bee Delivery, Buddha Spa, Casa do Construtor, Corpo Bueno, Doutor Sofá, Fast4You, Global Franchise, HGM, Ital’in House, Lavateria, Lave & Pegue, Maria Pitanga, Mercadão dos Óculos, New Shoes, Popcorn Gourmet, Rede Vistorias, Space Hunters, Urban Performance, VC.autor e Yungas.

Na agenda do primeiro dia, os participantes se reunirão para um Workshop de Soft Landing na Embaixada do Brasil na Argentina. A partir de conversas e apresentações com advogados, consultores e franqueados locais, o encontro visa capacitar os empresários brasileiros para sua expansão internacional, com foco no mercado argentino. Para finalizar o dia, será realizado um coquetel de boas-vindas da AAMF, evento de networking que reunirá empresários de diversos países e servirá como preparação para os dois dias de feira.

No segundo dia, os participantes terão a oportunidade de visitar a Café Martínez, uma das mais tradicionais redes de cafeterias argentinas; a Arredo, uma rede argentina de casa e decoração; e o Shopping Alto Palermo, um dos shoppings mais emblemáticos de Buenos Aires. O objetivo desta etapa é compreender os desafios enfrentados pelos franqueadores, as adaptações realizadas pelos franqueados e as especificações técnicas exigidas pelos centros comerciais na Argentina.

No terceiro e no quarto dia, os representantes das marcas participarão da Expo Franquicias Argentina 2025, no espaço para eventos La Rural, no pavilhão Ocre. A feira reúne, anualmente, marcas locais e internacionais, consultores, fornecedores e potenciais investidores. O evento já realizou 29 edições de sucesso, consolidando-se como a maior vitrine de negócios de franquias na Argentina.

O Franchising Brasil terá um estande no qual oito empresas terão a oportunidade de ser expositoras, representar suas marcas e fazer reuniões. As empresas visitantes terão uma abertura maior para conhecerem os demais estandes e estabelecer novos contatos.

Bruno Amado, gerente executivo do Franchising Brasil e de Projetos Internacionais da ABF, explica que a participação de marcas brasileiras no evento reforça o compromisso de conectar o franchising brasileiro a novos mercados estratégicos. “A Argentina é um parceiro comercial de grande relevância para o Brasil, e essa missão abre portas para que nossas marcas conheçam de perto o ecossistema local, construam relacionamentos e identifiquem oportunidades de expansão”, afirma. “Essa troca de experiências fortalece não só as empresas participantes, mas também todo o setor de franquias brasileiro”, conclui.

Fonte: Franchising Brasil

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